Opinião

O regresso às trevas

O exercício das liberdades, direitos e garantias fundamentais devem envolver, sobretudo, valores como a tolerância, o respeito, a educação, entre outros, ao lado das exigências legais que radicam na dupla e inseparável realidade ligada a direitos e deveres.

13/09/2021  Última atualização 10H00
 Devemos esforçamo-nos a fazer prova de que estamos imbuídos daqueles valores, mesmo deparando-se, eventualmente, com o oposto, quer partindo do princípio de que o "mal não se paga com mal", quer para demonstrar que somos, efectivamente, diferentes.

O ataque infame dos militantes da UNITA contra jornalistas, um procedimento que começa a tornar-se habitual, ante alguma cumplicidade das estruturas do partido que nada fizeram e hoje pouco fazem para inverter o quadro de agressões físicas, insultos e ausência de valores que exigem aos outros, é inaceitável a todos os títulos.

Não estamos a falar de actos de intolerância, traduzidos em vandalização de símbolos, igualmente condenáveis, dos quais a UNITA, algumas vezes de maneira infundada se queixa e outras vezes entende levar às instituições competentes.

No Sábado passado, quando a UNITA promoveu a manifestação alegadamente para exigir "eleições livres e justas", os militantes daquele partido agrediram jornalistas da TPA e da TV Zimbo. Quem exige "eleições livres e justas" deve demarcar-se nitidamente dos militantes que, desde há algum tempo, em actividades partidárias, procuram impedir a cobertura por parte de profissionais dos órgãos públicos e, não raras vezes, partem para agressões físicas.

É verdade que o secretário provincial da UNITA em Luanda, ouvido pela Rádio Mais, insurgiu-se contra os actos vergonhosos que marcaram as manifestações de Sábado, mas obviamente que a UNITA deve ir mais longe.

A UNITA, que se queixa, por tudo e por nada, de intolerância política,  atribuindo a todos os actos injustificáveis culpas ao partido no poder, há muito que devia condenar, identificar e responsabilizar os militantes por detrás dos actos de agressão, além do pedido público de desculpas. Afinal de contas, tratam-se de militantes da UNITA e, provavelmente, instigados por outros membros da maior formação política da oposição, em actos concertados de localização e impedimento agressivo do trabalho de profissionais de comunicação social.

Não estamos ainda no período eleitoral e, mesmo que estivéssemos,  não faz sentido que estejamos a conviver com cenas medievais de convivência política de um partido que reivindica "liberdade e justiça eleitorais" quando os seus militantes convivem mal com os princípios e valores que dizem defender.

Não tarda que qualquer dia venhamos assistir a UNITA a reivindicar para si o direito de impor o news-making aos órgãos públicos de comunicação, a "amestrar" os profissionais sobre o que devem, não devem, quando, como e onde cobrir matérias jornalísticas de interesse público ligadas ao partido. Se na oposição convive assim, condescende e não se demarca em público e intramuros com estas situações, não estranharemos se no poder houver um regresso à fase de trevas, destruição e flagelo, que envolveu parte significativa da trajectória da UNITA.

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