Opinião

O que é que está em jogo nas eleições brasileiras?

João Melo*

Jornalista e Escritor

A corrupção dos Governos do PT é um dos últimos argumentos de muitos dos eleitores do actual Presidente, Jair Bolsonaro.

12/10/2022  Última atualização 06H45

Tal corrupção existiu, sim, mas manda a honestidade reconhecer dois factos: primeiro, a corrupção no Brasil não é, obviamente, uma invenção de Lula ou do PT (só para dar um exemplo recente, a corrupção na Petrobrás já vinha dos governos anteriores); segundo, tal corrupção não atingiu Lula pessoalmente (ele ganhou na justiça 26 casos levantados contra ele, o que basta para encerrar a discussão sobre o seu hipotético envolvimento em casos de corrupção).

Mais importante do que isso: foram Lula e os Governos do PT que criaram mais condições para que as instituições brasileiras, a começar pela Polícia Federal, investigassem casos de corrupção. A referida investigação, portanto, não começou com a Lava Jato. Aliás, a operação protagonizada pelo ex-juiz Sérgio Moro e os procuradores de Curitiba revelou-se uma mera estratégia para impedir Lula de concorrer às presidenciais em 2018 e de possibilitar a chegada ao poder das suas principais figuras. Isso acaba de ser parcialmente conseguido, com a eleição de Moro para o Senado e de Sérgio Dallagnol para a Câmara de Deputados.

Como se fosse necessário, os dois já declararam o seu apoio a Bolsonaro no segundo turno. O insuspeito Estado de São Paulo não hesitou e, em editorial publicado no último domingo, 9, escreveu: "Uma operação estatal cujo objectivo era apurar diferentes modalidades de desvio de recursos públicos para fins particulares tornou-se ela mesma instrumento para a promoção de objectivos particulares: a eleição de ex-funcionários públicos e seus parentes. (...) A transformação da Lava Jato num projecto político-partidário representa um significativo retrocesso institucional”.

Finalmente, não são apenas esses factos que demonstram que a bandeira anti-corrupção de Bolsonaro e dos seus aliados é hipócrita e falsa. Há décadas que todos eles estão envolvidos em esquemas de enriquecimento ilícito. Recentemente, veio à tona o caso da aquisição por parte do clã Bolsonaro de 51 imóveis com dinheiro vivo. Mas o episódio mais clamoroso foi a aprovação de um "orçamento secreto”, que não passa de um esquema de distribuição de verbas para os correligionários políticos do actual Presidente, com notórios fins eleitoreiros. Os números desse orçamento ultrapassam de tal maneira os casos do "Petrolão” ou do "Mensalão”, descobertos no tempo do PT, que muitos especialistas o consideram "o maior escândalo de corrupção da história da República”. Segundo eles, a imprensa deveria chamá-lo "Bolsolão”.

Não é, pois, a corrupção o que está em jogo nas eleições de 30 de Outubro no Brasil. Será a economia? É o que pensa o Folha de São Paulo, cujo editorial do último domingo se intitulava, sugestivamente, "É a economia, Lula”. Segundo o jornal, porta-voz da alta burguesia paulista e brasileira, o candidato da ampla frente democrática montada para enfrentar Bolsonaro "está obrigado a dizer o que pretende mudar ou preservar na economia”. Uma das "exigências” desse sector é que Lula revele o seu provável ministro da Economia. O jornalista Jânio Freitas respondeu assim: "A exigência do nome já, e que saia da turma obcecada pelos cifrões privados, é só pretexto para apoiar Bolsonaro com o engodo de que o fazem por indefinição de Lula”.

O que está em jogo nas actuais eleições brasileiras foi definido incisivamente pelo pastor evangélico Ed René Kivitz. Num vídeo que se tornou viral nas redes, afirmou ele: - "Nós não estamos discutindo mais corrupção. Nós estamos falando de modelo de civilização, de sociedade. Uma sociedade que quer manter-se estratificada. Nós temos um contingente significativo da nossa sociedade que quer manter a ordem social estabelecida. Homem vale mais que mulher, hétero vale mais que gay, magro vale mais que gordo, branco vale mais que preto, rico vale mais que pobre, europeu e americano vale mais que brasileiro, vale mais que sul-americano e africano. Que Brasil é esse?”

Faltam apenas as conexões internacionais das actuais eleições no Brasil. Será o tema da próxima coluna.


* Escritor, jornalista angolano e director da Revista África 21

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