Opinião

O primeiro grau da Literatura Infantil

Leonel Kassana

Jornalista

Na prática educativa, tanto escolar quanto familiar, coexistem dois graus aferidos à Literatura Infantil. Ao contrário do que muita gente - escritores incluídos - supõe, a obra literária escrita por um autor para ser lida por crianças, essa obra em si mesma, integra o segundo grau da Literatura Infantil. Na prática educativa, o manual de leitura escolar (Língua Portuguesa) representa o primeiro grau e é esse que formata o conceito prático e utilitário de Literatura Infantil. A obra literária constitui apenas um agregado, um elemento colateral à iniciação na literacia e aquisição de competência linguística da criança. Se o professor ou educador não estiverem habilitados, pela formação académica, ou pela auto-didáctica, a esmiuçar de forma exaustiva o manual de Leitura (livro de Língua Portuguesa), não adianta agregar a obra literária completa de um escritor. Não resulta. Quem não consegue ser orientado a explorar um simples trecho do manual escolar, não alcança o potencial para explorar uma estória completa e, por vezes, complexa.

03/08/2019  Última atualização 08H07

Quando eu estudei no tempo colonial, nunca nos deram para ler nenhum livro de Literatura Infantil, no sentido clássico do termo. No entanto, todas as pessoas que estudaram no tempo colonial – todas sem excepção –, mesmo que tenham terminado apenas a quarta classe, escrevem e interpretam um texto melhor que muitos alunos do terceiro ano da universidade. Esse manual ou livro de leitura escolar é a principal fonte de literacia e da competência linguística capaz de oferecer ao cidadão angolano um lugar na participação útil no desenvolvimento de Angola. Se uma criança termina o Ensino de Base e não consegue compor uma redacção, então o professor que o ensinou só desensinou: não explorou devidamente (com cópias, ditados, vocabulário, redacção e análise gramatical) cada um dos textos do manual de Língua Portuguesa.
Dei uma vista de olhos nos manuais de leitura digitalizados no portal dos Serviços Públicos Electrónicos do Governo de Angola (SEPE) e senti um certo orgulho de ver alguns extractos de obras literárias de escritores nacionais e também de outras latitudes nesses mesmos manuais. Não achei de alguma utilidade o prefácio que cada manual traz, assinado pela ministra da Educação. Para além de extenso, é preciso fixar que o livro é feito para as crianças, e creio que nenhuma criança o lerá. Não faz parte de um manual escolar ter um prefácio assinado por um ministro. E quando um dia a ministra deixar o cargo, vai o substituto mandar reimprimir os manuais para lhes introduzir uma nova mensagem ministerial? A seguir vem uma introdução assinada pelos autores do livro. É demais! No ensino primário, esses elementos extra-textuais são perfeitamente dispensáveis.
O caminho para se chegar ao ponto óptimo da literacia no seio dos alunos do I nível do Ensino de Base passa, incontornavelmente, pela literacia literária (parece redundância, mas não é!) dos professores desse e dos níveis subsequentes. Quando dei aulas na Escola Njinga Mbandi, no início dos anos 80, assim que saísse no mercado um romance novo, todos os professores de português o compravam, liam-no e discutiam a obra entre si. Um professor de Língua Portuguesa que não lê é um zero à esquerda da Pedagogia.
Ora, seria de todo útil e vantajoso para o Ensino em Angola que os docentes encarregues de levar os alunos à compreensão desses extractos, lessem as obras originais completas.
É um equívoco de todo o tamanho continuar a pugnar pela criação de hábitos de leitura no seio da camada infantil e infanto-juvenil, como se esse hábito resultasse do simples esforço de colocar livros e mais livros nas bibliotecas escolares e municipais. Algum adulto, algum educador terá de ler esses livros, em primeira mão. A criança cria hábitos através do fenómeno da imitação, quando vêem um adulto a ler, e quando este lhes desperta a curiosidade, contando-lhes essas estórias. Portanto, o Plano Nacional de Leitura deverá contemplar, como prioridade, a leitura por parte dos adultos: professores e encarregados de educação. Talvez esta franja seja mais difícil de arregimentar para o hábito da leitura, porém, a leitura por parte dos professores é inadiável e bem possível: é da responsabilidade directa do Ministério da Educação. O MED tem esta obrigação de adquirir obras literárias de diversos géneros e pôr os professores a lê-las, ao menos no Magistério.
Um género que li bastante na minha infância é a Banda Desenhada, ou estórias aos quadrinhos. Li tanta banda desenhada que até aprendi a desenhar copiando os desenhos neles expostos. Li tantas, mas tantas estórias nesses livros desenhados que aprendi a história de Roma Antiga, do Egipto, da Idade da Pedra, e do povoamento americano pelos cobóis, que dizimaram os búfalos dos índios. Mas aprendi também a Língua Portuguesa. O livro de Língua Portuguesa da antiga Escola Industrial Oliveira Salazar (Mar Alto) inseria trechos de banda desenhada: a Odisseia, com Ulisses a conquistar Tróia, a lenda de Sísifo e a queda de Ciro da Babilónia.
Eu sugiro que em cada lar haja, pelo menos, um livro junto do aparelho de televisão, para que a criança, lá em casa, comece a ter noção de que o livro é também um utensílio doméstico adequado à formação do cidadão útil à República de Angola. E seria muito proveitoso para a vida da Nação que houvesse mais livros em pequenos quiosques de venda nas periferias de Luanda. Assim, as crianças vão crescendo com o subconsciente pintado da cor das capas de uma coisa (ou mercadoria) chamada livro, ao lado das imagens das outras mercadorias que se vendem nos bairros em profusão.
Só tenho pena de o Ministério da Educação nunca nos chamar a nós, escritores ligados ao Ensino, para dar uma opinião antes de se imprimirem os manuais das nossas escolas. Quem sabe, um dia...

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