Reportagem

O primeiro 1º de Maio em Luanda

Rui Ramos

Jornalista

Porque se chama Primeiro de Maio ao largo que junta as vias para a Alameda, para a Sagrada Família, para o aeroporto e para a Estrada de Catete? Possivelmente poucas pessoas saberão.

01/05/2022  Última atualização 06H45
© Fotografia por: DR

A primeira vez que em Angola se comemorou o 1.º de Maio como o Dia dos Trabalhadores foi em 1975 e foi neste local. O Governo de Transição estava instalado desde 31 de Janeiro com as 4 partes, FNLA, MPLA, UNITA e Portugal. A politização da sociedade estava ao rubro. Os comités internos de apoio ao MPLA vinham fazendo um trabalho muito intenso de agitação, mobilização e organização. A ideia de Independência Completa e Imediata imperava entre a sociedade africana.

A miséria nos "musseques” era extrema, as pessoas viviam em condições indignas, a contradição entre a cidade do asfalto, habitada sobretudo por brancos, e os bairros habitados por negros era enorme.

Nas fábricas de Viana, do Cazenga e da Boavista as diferenças entre os salários e as condições de trabalho entre trabalhadores brancos e trabalhadores negros era enorme e gritante, a exploração dos africanos era extrema, os salários desiguais, em geral os negros quase nunca passavam de auxiliares, serventes ou ajudantes de brancos que, na maior parte das vezes, sabiam menos do que eles.

O 25 de Abril apanha uma tempestade social e económica cuja superfície parecia calma mas cujo interior era latentemente explosivo, pois não havia qualquer tipo de liberdade ou direitos individuais para a população negra maioritária.

Forças políticas formam-se então, depois do 25 de Abril de 1974. A par de partidos conservadores que pretendiam uma solução que preservasse os interesses da comunidade branca minoritária, formam-se organizações nacionalistas progressistas com jovens que vão desenvolver uma actividade muito intensa de apoio ao MPLA e que congregará a sociedade africana como um todo. As estruturas centrais dos movimentos de libertação começam a chegar a Luanda, do exterior, a partir dos fins de 1974, com os acordos já assinados com Portugal e, em Luanda, pelo menos o MPLA encontra um ambiente político favorável à sua implantação.

Dentre os grupos mais activos sobressaem os Comités Henda e os Comités Amílcar Cabral (CAC), vindos da Universidade de Luanda e dos liceus e escolas secundárias. Os CAC estruturam-se clandestinamente, tal como os Henda, e levam o programa do MPLA a todos os cantos da cidade de Luanda. Os comités apoiam-se em órgãos de comunicação escritos em stencil e policopiados aos milhares com muita aceitação entre a população negra. Os CAC produziam um órgão teórico, "Revolução Popular”, e outro órgão "para as massas”, "Libertação Nacional”, distribuído nas principais fábricas das zonas operárias de Luanda. Os Comités Henda, por sua vez, produziam o jornal "4 de Fevereiro”.

O MPLA, por intermédio do seu órgão central "Vitória Certa”, editado pelo DIP nacional, e do DOM-Departamento de Organização de Massas, apoiou a realização do 1.º de Maio em Luanda em 1975, saudando a luta dos trabalhadores. Essa acção foi possível pelo activismo dos jovens militantes do MPLA, responsáveis no DIP e no DOM.

A UNTA-União Nacional dos Trabalhadores Angolanos, fundada no Congo-Kinshasa no início dos anos 1960, fazia a sua primeira aparição mas ainda sem implantação nos meios operários, dirigida por Pascoal Luvualu. Foi Aristides Van Dúnem, dirigente executivo, que conseguiu que a central sindical, que tinha ligação ao MPLA, apoiasse o dinamismo dos jovens militantes da "extrema esquerda”, com os quais se alia.

Antes da "entrada” da UNTA nas cidades, era o sindicato português SNECIPA-Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e Indústria da Província de Luanda que dirigia as lutas dos trabalhadores e operários por melhores salários e condições de trabalho, tanto em Luanda como no Huambo e no porto do Lobito.

Janeiro de 1975 começa com os acordos de Alvor, com a instalação do Governo de Transição, a primeira vez que FNLA, MPLA e UNITA chegam ao poder em Angola. No final do mês é desencadeada a I Semana do Poder Popular, pelos CAC, que culmina num sábado à tarde com uma Assembleia Popular no Campo de S. Paulo, com cerca de 40 mil pessoas portadores de instrumentos de trabalho. Como havia o risco e o acto ser atacado por forças do ELNA/FNLA, foi pedida a protecção militar ao COL do MPLA, que enviou alguns jovens militares para as extremidades do campo.

Neste contexto de grande radicalização da vida política, com greves numa série de fábricas, a "extrema esquerda” do MPLA, que tinha assento no CC, organiza o acto de massas do 1.º de Maio, quinta-feira, pela primeira vez feriado em Angola, no largo que ficou com este nome.

Às primeiras horas da manhã, a população trabalhadora de Luanda dirige-se para o local mas surpreendentemente encontra-o cercado por forças militares com uniformes semelhantes aos do exército zairense. Eram os efectivos do ELNA, braço armado da FNLA, que tentava impedir, com meios armados, a realização do Dia do Trabalhador. A confusão foi muito grande quando começaram a soar os primeiros tiros e a debandada foi automática, o medo instalou-se. Não houve, pois, comemoração do Dia do Trabalhador no dia 1 de Maio em Luanda em 1975, o primeiro em situação de alguma liberdade mas também de repressão e confrontos militares.

Nos meados de Maio de 1975, recorde-se, as zonas industriais de Luanda fervilhavam de greves e de reivindicações, a maior parte das quais espontâneas, contra as condições salariais e de trabalho dos africanos.

Logo a seguir ao 1.º de Maio fracassado de 1975, as forças políticas mais activas do MPLA reuniram-se para deliberar se se realizaria um novo evento de massas ou não, havendo discussões acaloradas por vários dias, até que se chegou a um consenso: marcar para o dia 22 de Maio, também uma quinta-feira, uma nova manifestação dos trabalhadores luandenses no mesmo local.

Estava em causa, segundo os comités de apoio ao MPLA, a luta pela democracia popular contra o fascismo (identificado com a FNLA).

No novo dia, não estaria tanta gente no local, por temor de confrontos, mas os efectivos do ELNA não estavam presentes para dissuadirem os trabalhadores luandenses.


Caderno reivindicativo

Do caderno reivindicativo aprovado no comício do dia 22 de Maio, consta a destituição do alto-comissário português Leonel Cardoso, acusado de favorecer a FNLA, o protesto contra os massacres em Luanda, Huambo, Tomboco, Ambrizete, Sazaire, Mbanza Kongo, Luena, pelos "lacaios internos do imperialismo” (designação para a FNLA de Holden Roberto). É exigido o encerramento da "imprensa fascista e reaccionária (é apontado o jornal "A  Província de Angola”) manipuladora da opinião pública, um dos pontos reivindica o salário mínimo nacional, as 40 horas de trabalho semanal em 5 dias, contra os despedimentos indiscriminadps, a fuga de técnicos e a inflação. O comunicado termina com a consigna "Os trabalhadores só estarão com o Governo de Transição se este estiver com os trabalhadores”.

Eram os primeiros passos para a dignificação dos trabalhadores angolanos, vítimas de discriminação nos locais de trabalho, e para a sua consciencialização contribuiu o trabalho político de jovens militantes activistas que se ligaram às "massas populares”, numa sociedade que apenas estava a sair de uma época em que o poder estrangeiro dominava em absoluto. Agora havia um Governo que incluía os movimentos de libertação com projectos de Independência diferentes e por vezes antagónicos o que, além da legítima expectativa, criava também desconfianças mútuas e muita intolerância.

A fuga dos técnicos europeus estava na ordem do dia, o comércio externo era dominado por quem estava a ir embora do país nascente, a matéria-prima escasseava, muitas fábricas faziam impossíveis para manterem a produção. Em muitos locais como na IFA, Curtumes Cazenga, Mabor, Tudor, Fabal, Textang, Sadil, os operários tentaram controlar a gestão esvaziada pela fuga dos anteriores gestores. Uma equipa dirigida por Rui Cristina e João Pessoa foi nomeada para, nos locais de trabalho, ajudarem os operários a organizar-se com eficácia para não pararem a produção, um esforço ingente de jovens que dedicavam todo o seu esforço à causa nacionalista.

 

A origem do 1.º de Maio

O Dia do Trabalhador homenageia mundialmente os trabalhadores. A origem remonta ao dia 1 de Maio de 1886, sábado, quando 300 mil manifestantes saíram às ruas em Chicago, Nova Iorque, Detroit e outras grandes cidades, reivindicando "Eight-hour day with no cut in pay” ("Diária de oito horas sem redução no pagamento”). A jornada de trabalho diária atingia na época 17 horas. Chicago foi o centro dessa luta sindical. No dia 4 de Maio, cerca de 2.500 manifestantes reuniram-se em assembleia em Chicago, na praça Haymarket, que viria a descambar para confrontos violentos provocando vítimas mortais entre os trabalhadores, tendo sido decretada a lei marcial em todo o território dos EUA. Cem sindicalistas foram detidos, 8 julgados e 7 condenados à morte. Quatro foram enforcados.

Um dos principais líderes das reivindicações naquele período era Albert Parsons, um dos condenados à forca pelo incidente na praça Haymarket. Nascido em Montgomery, Alabama, Parsons era adolescente quando lutou na Guerra Civil Americana. Mudou-se para o Texas, onde começou a actuar em defesa dos direitos dos escravos libertos. Mudou para Chicago em 1873, e como jornalista envolveu-se com os movimentos sindicais. Condenado e enforcado, Albert Parsons morreu aos 39 anos.

As lutas dos trabalhadores norte-americanos serviram de inspiração em muitos países, sobretudo industrializados, e os operários em geral conquistaram uma série de direitos, legislação sindical e reconhecimento de direitos em muitas Constituições.

Entre o fim da Primeira Guerra Mundial e o início da Segunda, 1918-1939, a duração máxima da jornada de trabalho foi fixada em oito horas na maior parte dos países industrializados. Os católicos celebram o dia 1º de Maio em homenagem a São José Operário, o santo padroeiro dos trabalhadores.

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