Opinião

O prenúncio de uma nova crise financeira

Juliana Evangelista Ferraz |*

Não é preciso fazer-se muitos exercícios para notarmos que houve, nos últimos tempos, uma degradação das operações no campo das finanças internacionais, basta observar a instabilidade dos mercados e o pessimismo dos agentes económicos para dizer que é necessário repensar o sector financeiro mundial.

21/06/2022  Última atualização 08H50

Na semana passada a última divulgação do índice de preços do consumidor (CPI) dos Estados Unidos da América colocou a economia internacional e os mercados globais em estado de choque, anunciando uma nova crise financeira da dívida soberana. Os bancos centrais em todo mundo estão perante o maior desafio inflacionista dos últimos tempos que exigirá certamente uma resposta robusta em termos de política monetária que enfrenta, igualmente, o maior desafio desde a crise financeira de 2008.

Não era espectável pelos analistas que a inflação americana fosse escalar para níveis de 8,6% representando o maior nível desde Dezembro de 1981, resultando numa pressão excessiva sobre as taxas de juros em todo o mundo, esperando-se um impacto significativo em todas economias, particularmente a europeia, em que os países da periferia da Europa acabam de apresentar os primeiros sintomas de fragilidade com a elevação vertiginosa da dívida soberana.

Toda esta situação fez que o Banco Central Europeu marcasse uma reunião extraordinária, na qual o Comité de Política Monetária do Banco Central Europeu (IBC) decidiu elevar a taxa de juro no mês de Julho, para 25 pontos base, estando prevista para o mês de Setembro a elevação da referida taxa para 50 pontos base. Por outro lado, de forma a conter o ímpeto inflacionista na Europa, o IBC irá suspender a partir do mês de Julho o processo de aquisição de activos financeiros, ou seja a compra de dívida soberana oriunda de países da Europa, de forma a refrear o processo inflacionista. Portanto, implementar uma política monetária restritiva, eliminando as operações de flexibilização quantitativa (quantitative easing), em que o Banco Central compra títulos públicos e privados com o objectivo de aumentar a oferta de dinheiro na economia gerando o seu "aquecimento, facilitando aos agentes económicos, o acesso a empréstimos e financiamentos e estimular o consumo.

O sector financeiro internacional reagiu com a subida das taxas de juro de referência, tornando os custos de crédito mais caros (quer no mercado interbancário quer para o cliente final), o que poderá abrandar o crescimento económico, uma vez que o sector empresarial irá esperar por melhores momentos para realizar grandes  projectos de investimentos. O liberalismo económico e financeiro de per si resulta em graves danos à economia mundial, sendo as famílias e as empresas a parte mais penalizada, vendo ruir os seus projectos e expectativas.

Vejamos que a interdependência das economias é tão forte que a mínima alteração da conjuntura reflecte-se sobremaneira na cadeia global, causando o pânico dos agentes económicos.  Portanto, a potencial recessão está na base do abrandamento do crescimento da economia que poderá impactar nas taxas de desemprego, prevendo-se que esta crise poderá reforçar o número de desempregados com maior incidência nos países desenvolvidos. O desemprego galopante é um dos efeitos negativos que persiste perante um estado de crise financeira,  sendo hoje um problema fulcral nas economias ocidentais (mesmo estando a crescer a taxa de criação de emprego não acompanha a retoma). É preciso mudar este rumo e reduzir a expressão do desemprego nas economias, tarefa hoje que não só se ocupa a gestão política (com a preocupação do controlo dos défices e implementação de políticas de fomento económico) como organizações privadas com ou sem fins lucrativos, académicos e investigadores.

O sentimento de crise pode afectar também os índices de confiança da comunidade empresarial, o que de certa forma corrói os índices de incerteza principalmente na Europa e nos Estados Unidos da América. Por outro lado, podemos verificar nas economias em desenvolvimento um aspecto preocupante que é o declínio das exportações, induzido por dois factores, o primeiro a redução significativa dos preços das matérias-primas, e a desaceleração da importação de produtos e serviços provenientes destas zonas, muito influenciada pela queda do consumo dos países exportadores, que de certa forma agrava, a baixa confiança dos consumidores e investidores. O resultado é a redução significativa dos projectos de investimento, portanto o desafio passa também pelo rigor ao nível da gestão macroeconómica bem como das políticas de controlo orçamental, ou seja, melhorar progressivamente o ambiente de negócio, e a qualidade da gestão pública, sendo que os investidores esperam por uma conjuntura mais favorável nos próximos tempos.

 

* Economista

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