Opinião

O preço e o peso do obscuro

Ana. Ficamos apenas pelo primeiro nome da mulher que assumiu ter andado “em casas escuras”, mas responsabilizando a mãe de a ter obrigado a ir num lugar onde o homem renega o poder do seu Criador, na esperança de rapidamente ver resolvidos os seus problemas existenciais.

12/09/2021  Última atualização 07H50
Esse deve ser o caso de Ana, que parece estar a pagar pelo preço da escolha, da aversão ao risco da crença no oculto, da mesma opção de vários cidadãos que creem encontrar protecção, segurança e sucesso através de pactos considerados obscuros, provavelmente patrocinados por Lúcifer.

Quando adentrou no último dia do mês de Agosto numa rádio local, vociferando com uma força que superava os seus poucos mais de metro e meio de altura, fê-lo com a esperança de, no seu aparente desespero, encontrar ajuda para ser liberta "de um mau espírito” que, segundo ela, estava dentro de si, consumindo-a e escravizando-a.

Ana faz lembrar homens e mulheres escravizados pela ideia de que ao se sentarem na cadeira do poder, nem que seja de uma comissão de moradores, têm de recorrer a determinados "especialistas” para "banhos” também especiais e estarem imunes à inveja, ao mau-olhado, e, sobretudo, serem irremovíveis dos cargos que passam a ocupar, do poder que passam a ostentar.

E nisso, as mulheres parecem ter muita força, quando se tratando de elemento incentivador. "Marido agora que és boss, tens de te proteger. Olha a minha mãe falou duma senhora que dá uns banhos... Não é feitiço. É só para se proteger!”

E quem tem a experiência, o conhecimento do mundo espiritual, esclarece que das casas escuras, leva-se algo cuja factura chega a ter o peso de toda uma geração. Paga quem foi fazer o pacto, mas a dívida permanece até à geração dos bisnetos, dos trinetos, ou ainda por aí afora.

Aqui prefiro acreditar na bondade de Deus, para quem a malícia do pai não perderá o filho justo.
Ana faz lembrar homens e mulheres que para terem sucesso nos negócios não manifestam qualquer aversão quando têm de "entregar” um membro da família, quando lhes é pedido para os colocar sobre o altar do sacrifício, em troca do almejado.

É assim que pais abusam sexualmente dos filhos, é assim que surgem, muitas vezes, os parricidas e os matricidas. Ana faz lembrar também, segundo história contada por coveiros, de homens de carros luxuosos que vão aos cemitérios para comprar ossadas, e, às vezes, disputam por um osso do dedo mindinho.

Há tempos, uma vizinha minha foi ao mercado dos Kwanzas comprar produtos para ser tratada de uma suposta tala e enquanto esperava para ser atendida a vendedeira apontou para duas moças que estavam naquele conhecidíssimo espaço localizado no município do Cazenga à procura de uma poção mágica para arranjarem maridos endinheirados.

Alguém me contou e garantiu ser verdade verdadeira o caso de um amigo que teria rumado para as lundas para ter posses. Em contrapartida, teria de comer as próprias fezes sempre que os ponteiros do relógio marcassem doze horas. O ritual era feito num canto de sua casa. E se estivesse fora, teria que correr para lá, para não falhar e assegurar que não lhe faltasse dinheiro e uma vida de luxo que tanto desejou. 

Ana contou que a sua desgraça começou devido ao ciúme que causava às colegas por obter maior lucro na venda de ouro, no câmbio de dólares e no forrar prendas, fazendo com que lhe fosse lançado um feitiço. "Me meteram mau cheiro e todos os clientes fugiam”, disse.

Mulher nos seus 39 anos, moradora de Viana, teria já feito uma romaria por diversas igrejas com o fim de ser liberta. Começou pela Assembleia de Deus Pentecostal, passou pela Tocoísta, pela Kimbanguista e pela Bom Deus. Mas, a força e o peso do feitiço permanecem, segundo afirmou.

Ana manifestou a certeza de que só Deus lhe poderia libertar, através de um pastor que ela diz estar à procura, depois de ter sido alertada para não andar nos quimbandas. A história de Ana deve levar o homem e a mulher a lembrarem-se que o sucesso profissional, nas finanças e mesmo no amor, e ainda a segurança, vêm do trabalho abnegado, do conhecimento e da competência, do espírito empreendedor.

E lamenta-se por gente brilhante mas que alinha na ignorância de que têm que mergulhar no escuro e no obscuro, desconhecendo que abrem a porta à desgraça que anda sempre na esquina, atenta, voraz, para abocanhar gente incauta, gente ansiosa em mudar o destino de dia para noite, sem trabalho nem sacrifício.

Moralizar a sociedade deve passar também pelo desminar das mentes das pessoas cheias de crença no feitiço que leva à destruição do outro, mesmo do próprio filho, ou para protecção individual ou da família, ou do negócio, enchendo gavetas de escritórios com raízes e fitas de várias cores como que querendo encerrar nelas um arco-íris. O peso da tradição, o peso cultural, pode tornar a luta inglória, mas vale continuarmos a tentar.

Diz-se, já não à boca pequena, que muitos que andam por esses caminhos que não são de Deus, mostram-se nas igrejas, nos templos, como os mais temerários ao Senhor, os mais bondosos e até grandiosos nas ofertas. Felizmente, Deus conhece bem o coração dos seus filhos, e ninguém O engana, segundo a Sagrada Escritura.

António Capapa

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