Opinião

O povo moçambicano e o ciclo trágico

Manuel Rui

Escritor

Acompanho com frequência a televisão moçambicana para ver os debates onde participam académicos, jornalistas e outros intelectuais e formadores de opinião, com posições variadas, contra ou a favor do Governo, contra ou a favor do Presidente da República, o que é saudável.

19/08/2021  Última atualização 05H45
Lembro-me das negociações com Portugal para a independência. Chefiava a delegação moçambicana o jovem Óscar Monteiro, que viria a ser o 1º ministro da informação e ocuparia outras pastas governamentais. A independência foi pacífica, desceu uma bandeira e subiu outra, ainda ouve uma tentativa de golpe neocolonial através do Rádio Clube de Moçambique e os distúrbios levaram à imediata fuga de grande parte da população portuguesa. No entanto, a vida continuou, as esplanadas a funcionar com cerveja, marisco e outros petiscos, os hotéis idem com relevância para o icónico Polana e outros com o hotel Cardoso, as livrarias bem organizadas, os jornais e jornalistas e a Frelimo a impor a sua ideologia que passou pelos campos de reeducação de inspiração maoista enquanto o grupo armado de oposição iniciava as suas operações até se instalar numa base inexpugnável para no fim se ter chegado a um acordo que me parece nunca ter sido concluído pois se houve soldados da Renamo que foram integrados nas forças armadas moçambicanas, tudo se complicou com a morte do líder Ndlakama e o sucessor, sem carisma, não impediu ou consentiu que parte da Renamo armada se mantivesse como reserva ou contraponto a uma paz integral.

Lembro que a quando de uma conferência de escritores de língua portuguesa, "As pontes lusófonas” organizada pelo Instituto Camões na pessoa da profª Armandina Maia, com muita confusão, porque Moçambique não tinha sido ouvido nem achado, depois makas com Saramago e um sem fim de atritos da "lusofonice”, no final, Mendes de Carvalho, Pepetela e eu fomos convidados para um almoço em que insistiram connosco para influenciarmos a nossa sociedade civil para um modelo de paz que o então nosso presidente não aceitava (e nós também)… Mendes de Carvalho abandonou a conversa e os conselhos pois havia sido convidado para ver um jogo de futebol. E lá fiquei eu e o Pepetela. Que era a guerra mais longa de África. Era preciso chamar a outra parte para os problemas serem resolvidos em paz. Aprendemos muito convosco. Agora, a única saída da guerra é sempre a palavra. Esmagaram o nosso silêncio já cansado daquela conferência chamuscada.

Tempos passados, quando o muata foi morto em combate, começaram os meus amigos moçambicanos a telefonar que nós é que sabíamos enquanto por lá a Renamo se instalara no santuário que é a reserva da Gorongosa.O povo de Moçambique é flagelado pela natureza. Quando não tem seca e fica sem água para regar as machambas, vem a tempestade e arrasa o que era para colher e também vão as casas e todo o cortejo de desgraças como a fome e as doenças.

Mais recentemente, escândalos como o das "dividas ocultas” que envolveram o ex-ministro Chang e outra gente grande incluindo filhos de dirigentes abalaram o país mas logo se finalizou o negócio de extração e liquefação de gaz na bacia do Rovuma com uma poderosa empresa francesa para fazer tudo, protestaram empresários moçambicanos pois nem ao menos sobrava para eles o catering… mas o gaz vinha mesmo a calhar. E, num abrir e fechar de olhos surgem ataques às populações de Cabo Delgado. 

Ainda se recorreu a duas empresas de mercenários mas não resultou. Afinal Moçambique tinha forças armadas enfraquecidas, sem armamento adequado e sem armas, mais fracas que a polícia. E começou a discussão sobre o pedido de ajuda externa no quadro da SADC. "Quais são, afinal, as causas da guerra em Cabo Delgado? Revolta popular contra o governo, o jihadismo islâmico ou as os interesses nas riquezas naturais?” Interroga, num ensaio, o académico Jorge Cardoso que tive o prazer de conhecer aqui enquanto foi funcionário superior da ONU.

Seguindo a essência do ensaio, em 24 de março de 2021, o grupo intitulado de Ansar-Al-Suna (Seguidores da Tradição) e conhecido em Moçambique como mashababos (juventude árabe), ataca a vila de Palma que faz fronteira com a Tanzânia.Morrem civis e militares, incluindo estrangeiros que trabalhavam para o projeto do gaz para a TOTAL. Chissano, um dos poucos presidentes de África que saiu por cima, sugere diálogo.

O ataque foi feito de rigor profissional, as autoridades tiveram conhecimento antecipado mas não conseguiram ripostar.O projeto do gaz parou. Milhares de mortos civis e militares, cerca de 700.000 deslocados, fome e doenças.E diz Cardoso, "O conflito violento em Cabo Delgado não é contra o governo: é contra o Estado e contra o modo de vida da esmagadora maioria da população, particularmente da população muçulmana (…) Em Cabo Delgado a natureza da guerra é claramente ideológica e civilizacional (…).

Voltando aos debates que fui vendo na televisão moçambicana, a preocupação maior para pedir auxílio externo era a intocabilidade da soberania, argumento irrazoável pois os "insurgentes” já estavam a abalar a soberania e o apoio externo seria para eliminar esse vírus. Lamentava-se a posição da Tanzânia que podia ser a força tampão na fronteira.

Dava a impressão que era melhor esperar mas, de repente, fora do âmbito regional, recorreu-se à tropa do Rwanda que Angola tão bem conhece sempre que vai apagar fogos nos Grandes Lagos. 

África tem quatro grandes potências, o Egipto (que perdeu uma guerra contra Israel em 6 dias), A África do Sul, a Nigéria e Angola. Então países como Zimbabué ou mesmo o pacífico Botswana não têm estofo militar para um caso destes.

O ANC tinha uma areia no sapato quando Samora foi obrigado a entregar militantes ao apartheid. Mesmo assim, não quer perder a hegemonia na região. Decidiu-se pelo apoio da SADC. Angola contribui com um grupo de formadores e dinheiro como os outros. É uma boa experiência regional. Vamos a ver. Porque o fenómeno está por explicar em profundidade. Só o som de ma-rimba, uma bela estatueta macua ou sabor do caju moçambicano poderão explicar tanto castigo de um povo irmão flagelado pela natureza: se não tem seca tem tempestade…

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