Opinião

O povo maravilhoso

Arlindo dos Santos

Jornalista

Ontem à noite aconteceu-me uma daquelas coisas que ninguém gosta que lhe aconteçam. Perdi o texto que tinha praticamente pronto para remeter ao Jornal de Angola, destinado à minha crónica semanal.

20/06/2021  Última atualização 04H15
Desapareceu inexplicavelmente do ecrã do meu computador e até ao momento, não consegui recuperá-lo. Com o "nada a fazer” a martelar-me a paciência, resolvi socorrer-me, integralmente, de um texto publicado neste mesmo Jornal de Angola, no dia 7 de Setembro de 1994, dia do Brasil, já lá vão 27 anos. Pode ou não ter cabimento para o momento actual. Os leitores terão palavra sobre o assunto. Dizia assim, sem lhe retirar vírgula ou ponto:


"Não foi há muito tempo, e por isso existe gente em Luanda que se lembra certamente do "Povo Maravilhoso”, Um grupo de malta fixe que nos idos anos 78 até muito próximo da metade da década de 80 ia respondendo às chatices da vida, com responsabilidade no trabalho de cada um dos seus membros e divertimento sempre que possível. As suas festas tinham tanto de boas como de simples, sendo que até se davam ao luxo de organizar brutas farras com apenas uma panela de sopa e umas quantas cervejas. Uma forma muito original de se estar na vida e solidários com a situação do País.

Pertenceu a este grupo a originalidade das festas às cores, a noite branca ou rubro-negra  que tempo mais tarde uns descarados quiseram obter para si os louros da sua criação. Já que estou aqui, aproveito, meus amigos, para vos revelar que, a inveja que o nosso "PM” passou a suscitar em determinados círculos, foi determinante para o nascimento doutros grupos e, dentre estes, surgiu naturalmente a "Seita do Olho Vivo”. Liderado por Nandinho Gabarolas, homem que conhece gente influente, a "Seita” facilmente alcançou lugar primeiro na área do convívio alargado luandense. Nandinho era o sucesso em pessoa e mais a mais, era permanente visita deste e daquele VIP, e primo ou sobrinho doutros poderosos. Poucos pensavam já no "PM”! Só os históricos se mantinham fiéis e tudo faziam para dar um pouco mais que a sopa, a quem aparecia.

Chegou 1991, e com ele a paz ansiada, a perspectiva de vida nova, o iminente regresso dos irmãos exilados. Oportunidade para o Nandinho apregoar que conhecia o Rato e o Paka de há muito, o Anastácio e o Zebedeu eram dedo e unha com ele. Sempre que passasse por Londres ou Paris nunca deixou de os procurar, para abordar os assuntos da Nação, revelam-se gente fina e muito especial, com quem se pode contar. Tem que ser criado novo grupo, que possa servir melhor esta porcaria! Nandinho passa-se para a "Turma da Boa Vista”, leva consigo alguns correligionários. O requinte impensável. Dá-se Outubro de 1992 e deixei de ver Nandinho Gabarolas e seus pares. Cruzei-me com ele em Lisboa e com a descontracção que sempre o caracterizou, disparou: "Então! O PM continua com as suas sopas?” Com o sorriso mais cínico que conseguiu arranjar respondi:


"Continua sim senhor. Mas dormimos todos os dias com a consciência tranquila!”. Para terminar e já que estou aqui, uma confidência: Tenho grande orgulho em ter como melhores amigos malta do "Povo Maravilhoso”.
No livro onde publiquei esta crónica, encerro o texto com uma citação de William Shakespeare; "O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”. Acho que tem perfeito cabimento neste escrito reproduzido.


Esperançado que a busca que faço na recuperação do texto perdido, resulte exitosa, aguardo melhorias no combate à Covid-19 e sucessos para os governantes do país. O meu abraço fraterno aos meus leitores e amigos e, então, até domingo à hora do matabicho.
Lisboa, 19 de Junho de 2021




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