Reportagem

O percurso que fez de Neto um combatente convicto

O jovem Agostinho Neto, que queria estudar engenharia, chega a Portugal em 1947 e inscreve-se na Universidade onde cursa Medicina.

26/09/2022  Última atualização 05H20
© Fotografia por: DR

Contando o tempo da formação, prisões e exílio, reconheceria mais tarde que passara afinal grande parte da sua vida distante da sua terra natal, mais fora nesta, onde afinal a formação da sua personalidade se deu. Dos Dembos a Luanda, passando por Malanje e Bié, sentiu a dor do seu povo e a revolta contra a opressão colonial. Agostinho Neto nasce, às cinco horas de 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Kaxicane, freguesia de S. José, concelho de Icolo e Bengo, no distrito de Luanda, sendo filho do pastor evangelista Agostinho Pedro Neto e da professora primária Maria da Silva Neto. Acompanha os pais na mudança de residência para Luanda, em 1930. Três anos depois, termina a instrução primária, que lhe foi ministrada pelos pais, tendo sido aprovado com distinção. Em 1934, matricula-se, a 14 de Fevereiro, no Liceu Salvador Correia (hoje denominado Magistério Mutu ya Kevela).  Deixando a pequena aldeia, onde o pai celebrava culto  aos domingos, Agostinho Neto chega então a Luanda, com  oito anos, para prosseguir os estudos. "Chegado a Luanda, em 1930, continuei a escola primária com os meus irmãos. Morávamos na Missão Evangélica Americana. O meu pai havia deixado o ensino e era exclusivamente pastor. Após a escola primária, os meus irmãos e eu passamos para o Liceu Salvador Correia (actualmente Magistério Mutu-ya-Kevela), onde havia muito poucos africanos na época. Eu não era mau aluno, até era bom e gostava de aprender, mas tive de interromper os estudos várias vezes e, ao mesmo tempo que frequentávamos o liceu, aconselhados pelo meu pai, ensinávamos aos ‘pequenos’ da escola primária", conta Agostinho Neto.

Com isso, e apesar de figurar sempre no Quadro de Honra, o aluno brilhante arrasta-se no liceu durante dez anos para um curso de sete. É que os pais pediam que acompanhasse o irmão mais velho, Pedro, a par e passo. Assim, se Pedro reprovava num ano, Agostinho Neto suspendia a preparação e esperava por ele.

Terminado os estudos em Luanda, vai a concurso para se tornar funcionário da administração municipal. Consegue e torna-se assistente nos serviços de saúde, tendo sido enviado para Malanje. E vive outra experiência marcante, semelhante a que viveu nos Dembos, ao contactar novamente com os "contratados”. "E foi aí que senti, verdadeiramente, e com força, a violência dos reaccionários portugueses. Os dois anos que passei em Malanje contaram sobremaneira para a minha formação política”, lembra Neto que, nessa altura, além das convicções políticas para a revolta contra as terríveis condições de vida e a ausência de liberdade do seu povo, já demonstra nos seus poemas o apego aos valores da sua terra.

É na região do Piri, Dembos,  para onde vai viver durante seis meses com os pais, concretamente em 1944, que os camponeses lhe inspiram alguns poemas que mais tarde viria a destruir, considerando-os incipientes. Em 1946, publica, no jornal O Farolim, um artigo em que chama a atenção da juventude para os problemas da terra e das suas gentes, criticando a tendência para o «eurotropismo».

Depois de Malanje, Agostinho Neto é transferido para o Bié, mas fica pouco tempo. E pôde ver igualmente as duras condições dos seus compatriotas. O pai, que vem a falecer em 1946, aconselhara-lhe a poupar o máximo para prosseguir os estudos na Universidade de Lisboa. Mas o que junta não chega. É por intermédio do bispo Ralph Dodge, amigo do seu pai, que consegue uma bolsa para estudar medicina em Portugal, como agradecimento pelo trabalho que havia desenvolvido para os missionários evangélicos. Assim, o jovem Agostinho Neto, que queria estudar engenharia, chega a Portugal em 1947 e inscreve-se de início na Universidade de Coimbra e depois em Lisboa, onde cursa medicina. Contando o tempo da formação, prisões e exílio, Neto reconheceria mais tarde que passara afinal grande parte da sua vida fora de Angola.

"Na realidade, apenas passei uma pequena parte da minha vida de adulto em Angola. Lá nasci em 1922, parti para Portugal aos 25 anos de idade, em 1947, regressei ao país natal em 1959, onde fui preso reenviado para Lisboa e só voltei em 1975”, conta Neto à jornalista Augusta Conchiglia. A primeira prisão em 1957 marca-lhe profundamente. Neto andava a recolher assinaturas a favor do Movimento para a Paz, na qualidade de dirigente do MUD Juvenil, e foi apanhado pela infame Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), o que lhe garante três anos de cadeia. Contudo, é em Portugal, concretamente no Centro de Estudos Africanos, onde se torna um dos elementos mais dinâmicos da tertúlia que animava com palestras e conferências. E intervém na formação do Clube Marítimo Africano, em Lisboa. Um dos maiores desafios de Agostinho Neto foi certamente no campo da cultura.


Os desafios na Cultura e na Educação

É notório, por exemplo, nos discursos do primeiro Presidente de Angola a preocupação com as línguas nacionais. Num discurso de Agostinho Neto na União dos Escritores Angolanos, em 1979, em que defendia o ensino das línguas no ensino básico e médio. Referia a necessidade de  "identificar os problemas da cultura nacional”, mas também em "apontar soluções, apresentar caminhos”.  Um ano antes, em 1978, já havia sido criado o Instituto Nacional de Línguas, que depois passa a designar-se Instituto de Línguas Nacionais.  "Há a necessidade de adoptar uma política linguística que tenha em conta a coexistência de todas as línguas. Daí o facto de o saudoso Presidente Agostinho Neto ter levantado este problema”, defendeu recentemente o director-geral do Instituto de Línguas Nacionais (ILN), José Domingos Pedro. "Se existem tantas línguas, por que razão é que se terá exclusividade de uma só língua”. Em entrevista recente ao Jornal de Angola, o antigo vice-ministro da Cultura (2002 a 2008), instituição onde entrou em 1975, Virgílio Coelho vai longe: "As ideias sobre as Línguas Nacionais constituem, sem dúvida, uma das marcas de Agostinho Neto, que foram sendo apagadas por posicionamentos de algumas figuras implantadas na Função Pública e até mesmo no partido-MPLA e alienadas negativa e drasticamente pela Constituição de 2010”, diz o antropólogo. "O Instituto de Línguas Nacionais nasceu graças a Agostinho Neto e essa poderia ser uma das suas maiores marcas de governação durante o seu tão diminuto mandato (Novembro de 1975 – Setembro de 1979). A sua morte constitui uma crueldade da natureza difícil de apagar, difícil de compreender!... Historicamente teremos que recuperar a nossa memória e voltar a ler com os olhos de ver o que foi publicamente proposto pelo documento orientador da 3.ª Reunião Plenária do Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que teve lugar no auditório do Museu Nacional de História Natural, em Luanda, de 23 a 29 de Outubro de 1976”, lembra. O sector da Educação, por exemplo, com a falta de infra-estruturas e recursos humanos, viu-se a braços para gerir os primeiros anos do pós-independência. Apesar de todas as dificuldades, institui-se o princípio da gratuitidade do ensino. E o resultado foi estrondoso: de um total de 512.942 alunos, em 1973, o país passou a contar com 1.026.291 crianças matriculadas nos quatro primeiros anos de escolaridade. Contudo, o ensino sempre foi preocupação de Agostinho Neto e dos seus companheiros nacionalistas. Num texto de reflexão sobre "o rumo da literatura negra”, em Março de 1951, Neto lembrava que "os povos negros atravessam o seu período de confusão, por terem abandonado de chofre a sua cultura, modificando totalmente o sistema de vida em uma ou duas gerações, para adquirir a cultura europeizada e estruturada sobre bases frágeis” e "o desejo de reencontrar a sua cultura perdida e esquecida é dos sintomas mais animadores”. Com a Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975, a então Universidade de Luanda ganhava estatuto de universidade nacional e passava a designar-se Universidade de Angola, com a promulgação da portaria nº 77-A/76, de 28 de Setembro. O Presidente da República e primeiro Reitor, António Agostinho Neto, queria "os quadros nacionais com uma nova mentalidade, capazes de funcionar como artífices de uma nova sociedade visando o triunfo da democracia popular”. Hoje, a primeira instituição de ensino superior do país, que passou a designar-se Universidade Agostinho Neto, a 24 de Janeiro de 1985, mantém o desafio de formar quadros nacionais para o desenvolvimento da sociedade; e, enquanto o faz, reconhece o papel fundamental do seu primeiro Reitor, ao outorgar no dia 25 de Setembro de 2018, no Centro de Conferências de Belas, a título póstumo, o título Doutor Honoris Causa ao seu patrono e primeiro Reitor, Dr. António Agostinho Neto. A atribuição do título deve-se à coragem e ao sentido nacionalista e patriótico demonstrado por António Agostinho Neto numa altura difícil para o país e ao empenho na formação de quadros qualificados para ajudarem no processo de reconstrução e desenvolvimento da Nação. 

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