Opinião

O Pastor Daniel Etaungo

Na segunda-feira passada, no Huambo, foi a enterrar o Pastor Daniel Etaungo no cemitério do Utalamo, um bairro nos arredores da capital do Planalto.

01/11/2019  Última atualização 09H25

Numa cerimónia marcadamente simples, mas cheia de dignidade e graça, várias realizações valiosas foram citadas na longa e frutuosa vida do pastor. Na majestosa capela da IECA (Igreja Evangélica e Congregacional de Angola), no bairro Académico, a grandeza desta figura foi celebrada com hinos suaves em Umbundu e Português; nisto, o Pastor Etaungo foi um filho típico da IECA, igreja fundada em Angola no século dezanove por missionários americanos, ingleses e canadianos, que acreditavam que a melhor forma de propagar o Evangelho seria através das línguas maternas, que fizeram tudo para aliar, até um certo ponto, a mensagem cristã com a sabedoria tradicional africana. Há hinos em Umbundu, por exemplo, cuja poesia comove mesmo os não crentes.
O Pastor Etaungo compilou um dicionário de Umbundu e Português que me influenciou bastante. Muito cedo na vida decidi que iria ser jornalista e escritor — contador de histórias. Fui para a Zâmbia em 1976 com dez anos. Na altura, a Zâmbia tinha apenas dez anos de independência; o país estava cheio de esperança. Nos bairros onde vivíamos havia bibliotecas itinerantes — autocarros cheios de livros que encorajavam as crianças a lerem. Comecei com livros infantis, mas muito cedo encontrei-me a vaguear no mundo da literatura africana em inglês: não entendia todos os temas — da mesma forma que não apreciava certos bocados das sinfonias de Mahler ou Sibelius, que passei a gostar muito cedo. Naquele tempo, na Zâmbia, a BBC emitia programas na rádio dedicados à música clássica.
Aqueles foram momentos de profunda introspecção na África anglófono, incluindo a Zâmbia, claro. Havia intelectuais que, tendo rejeitado o que eles definiam como a cultura do opressor ocidental, optavam pelo leste, em certos casos pela cultura revolucionária das Caraíbas, sobretudo os Garveyistas da Jamaica. Alguns preferiam a Nigéria — os Wole Soyinka e Felá Rasome Kuti — que celebravam o que nos pareciam ser uma África mais autêntica. Durante as férias, quando eu tinha quatorze anos, li o romance do queniano Ngugi Wa Thiong’o, que teve um efeito muito profundo sobre mim; nunca, na minha vida, uma obra de ficção me tinha encantado daquela forma. Eu sentia que tinha sido imergido no mundo do Quénia sobre o colonialismo britânico.
Comecei a ler sobre Ngugi e soube que ele tinha sido posto na prisão — como vários outros escritores africanos que passaram a ser considerados verdadeiros inimigos do povo pelos novos líderes da África pós-colonial. Soube, também, que Ngugi tinha mudado o seu nome — de James Ngugi para Ngugi Wa Thiong’o — como forma de afirmar a sua africanidade; depois Ngugi deixou de escrever em Inglês e optou pelo Kikuyu, sua língua materna. Li os outros romances de Ngugi, escritos em Kikuyu e depois traduzidos para o Inglês, e fiquei altamente impressionado. Soube do grande debate entre Ngugi e Soyinka, que não estava muito confortável com afirmações altivas da identidade africana. Soyinka disse que o tigre não passava o tempo a gabar-se da sua “tigritude.”
Depois fui para a Inglaterra, onde li atentamente muitas obras literárias — nas quais apreciei o encanto de narrativas; nas quais soube da imensa possibilidade com que, através da Literatura, se podia avaliar os sentimentos morais e intelectuais de uma época; nas quais soube porque razão os sistemas totalitários desconfiavam dos homens das letras. Em todos os debates sobre a literatura africana, a questão da língua e o escritor estavam sempre presentes. Comecei a conversar com escritores que me faziam perguntas sobre o meu relacionamento ao Umbundu, Português e Inglês; eu caia numa imprecisão que tinha muito a ver com a minha condição de um desenraizado; eu mal conhecia o país onde tinha nascido. Falava Umbundu mas não iria escrever com a correcção de quem tinha aprendido o mesmo numa turma. Eu queria ser ouvido pelo resto do mundo.
Uma vez, numa entrevista com o prémio Nobel da Literatura caribenho, VS Naipaul, a questão da minha língua materna surgiu. (Os grandes escritores são profundamente curiosos; eu fui para entrevistar Naipaul — no fim, antes dele me ‘tundar’ da sua casa por eu ter feito uma pergunta que ele não gostou, foi ele a fazer-me perguntas altamente penetrantes. Naipaul disse-me que o Umbundu não me iria levar para lado algum. Na altura fui com a sua afirmação. Tive um almoço com o grande filósofo australiano Patrick Minogue, que me perguntou qual era o termo em Umbundu para a palavra “verde”; eu não sabia. O Professor Minogue disse-me então que o Umbundu como várias línguas africanas não tinham desenvolvido termos para descrever conceitos abstratos. Eu fui com ele, acreditando que tinha tido o imenso privilégio de ter dominado algumas línguas europeias que, naturalmente, eram altamente sofisticadas e mais capazes de descrever a complexidade do mundo.
Tudo mudou, cerca de dez anos atrás, quando obtive um exemplar do dicionário do Pastor Daniel Etaungo. Através desta obra, passei a saber que havia, sim, equivalentes de termos muitos complexos na língua Umbundu. Em Umbundu, neve é ‘ombela yocikoko; há termos para literatura, filosofia, números gigantescos, etc. Soube disto através da grande obra do Pastor Etaungo. O Pastor Daniel Etaungo provou, para mim, que Ngugi Wa Thiong’o sempre teve razão…

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