Opinião

O paradoxo da tolerância

Arlindo dos Santos

Jornalista

O paradoxo da tolerância é um dos três despropósitos revelados por Karl Popper no seu livro “The Open Society and Its Enemies”, com a edição em português de 1945 a dar-lhe o título”A sociedade aberta e seus inimigos”.

24/10/2021  Última atualização 08H41
Será, provavelmente, a sua mais famosa obra. Popper é um dos maiores filósofos da ciência no século XX, segundo consideração da mui colaborativa Enciclopédia Wikipédia, uma plataforma de ajuda preciosa e recorrente para o nosso conhecimento. Os restantes paradoxos apresentados nesse livro são o da liberdade e o da democracia. Numa passagem do citado texto, brilhante e famoso, o filósofo refere que, no ambiente social, a tolerância ilimitada, leva ao desaparecimento da tolerância. Nada mais acertado.

Este intróito reforça a ideia que comungo em absoluto e serve de referência a um dos aspectos mais salientes e sentidos na nossa sociedade. São relativos às questões que mais a preocupam, tendo como exemplo de maior impacto, a legitimidade democrática onde a tolerância, e a consequente falta dela, são constante e amplamente visadas. No nosso país, o conformismo com que os empresários de todas as áreas lidam com os fenómenos da economia, com os impostos, taxas e juros de todo o género a levá-los periodicamente  ao desespero; a mesma paciência com que as populações encaram e aceitam a maka da erradicação da miséria e do estado de penúria em que vivem, a falta de escola e de saúde, de água potável e de electricidade, são assuntos que fazem parte do conjunto de razões que obrigam a questionar o governo e, em consequência, propensas a conduzir a sociedade para um certo e inevitável estado de intolerância.


Não foi obra do acaso, penso eu, o facto de o Executivo angolano, finalmente se ter mostrado (pelo menos aparentemente) atento a esta como a outras situações periclitantes, mormente as de carácter social (mal seria se não se mostrasse), depois do muito criticado discurso do Presidente da República sobre o Estado da Nação, em que, no meio de discutíveis acções realizadas e improváveis medidas futuras proclamadas, onde, para espanto meu, não coube o sector da Cultura, anunciou a urgente construção de grandes hospitais em quase todas as capitais de província do país, tendo dado também alguma atenção aos enigmas que rodeiam a área da Educação em Angola.

Logo a seguir, acolhi a notícia dada pela ministra da Educação da República em entrevista à Rádio Nacional de Angola, em que deu a conhecer ao povo a abertura de concursos para a admissão de uns largos milhares de professores, em todo o território nacional.  Uma medida desta grandeza, ao mesmo tempo que nos orgulha e espanta, enche os nossos corações de mais um forte sopro de esperança. Porém e contraditoriamente, não pode deixar de nos preocupar. Porque conhecemos, nós todos, o país que temos e os quadros de que dispomos.


E, se o Presidente João Lourenço, relativamente aos hospitais falou de um projecto "colossal”, em relação aos professores, a ministra deveria ter usado o termo "gigantesco”. Porque se está a tratar, sem qualquer dúvida, de uma das mais  delicadas  aspirações  do povo, por isso mesmo, um problema prioritário, urgência  assinalada  desde  os  primórdios da Independência Nacional. Porque se reconhece que é do seu sucesso que vai depender o futuro, oconhecimento e o afinar a inteligência, o mostrar caminho certo aos angolanos mais novos, estrada onde caiba o sonho digital,sendo, portanto, o maior e mais importante factor de desenvolvimento do país.


Vários estudiosos angolanos, entre os quais destaco o cidadão António Vieira, regular colaborador do semanário "Valor Económico”,  vêm há muito dedicando particular atenção à questão da Educação, abordando o tema, apontando caminhos e questionando o porquê do estádio actual dessa área crucial para o nosso crescimento.


O "mais velho” Dario de Melo, farta-se de falar do assunto, ele que foi categorizado Inspector Escolar do Ensino Primário e sabe muito da coisa."Existem soluções para um novo modelo educativo”, dizia há dias a minha amiga Alexandra Simeão, numa magnífica intervenção sobre o estado da área da Educação, referindo "a necessidade de construir o cidadão desde tenra idade, com direitos adquiridos à nascença”. Ela também é conhecedora da matéria.

Não vai ser fácil a empreitada do Ministério da Educação e da sua ministra em particular. Vai enfrentar com alguma frequência, o paradoxo da tolerância. Desde logo porque é responsável por um sector que atinge a camada miserável do nosso país, e os miseráveis constituem a grande maioria da Nação Angolana, não podemos perder isso de vista. Assim como não devemos esquecer que se vai transformando o conceito de liberdade num país que não é justo, de modo nenhum, num país pouco inclusivo e que necessita de se equiparar aos que pugnam pela integração dos seus cidadãos na sociedade geral. Para conseguir isso necessita de população bem formada.

Como dei a entender acima, gente não falta para ajudar a encontrar o caminho certo. É necessário que se procure e ausculte essa gente e dela se retirem conselhos e experiências, com ela discutam ideias e encontrem soluções. Tendo sempre em linha de conta o facto de (toda a gente sabe disso) a fragilidade de um país ser observada pelo seu sistema de educação.
Com os cumprimentos habituais, despeço-me dos meus leitores e amigos. Aguardo-vos no domingo, à hora do matabicho.
Lisboa, 23 de Outubro de 2021

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