Opinião

O papel dos jornalistas e a Comissão de Carteira (Nota 1)

Ismael Mateus

Jornalista

O Comité Nobel decidiu, este ano, atribuir o Prémio Nobel da Paz aos jornalistas Maria Ressa, das Filipinas, e Dmitry Muratov, da Rússia, pela defesa da liberdade de imprensa e de expressão.

22/11/2021  Última atualização 09H05
Maria Ressa, 58 anos, é co-fundadora desde 2012 e directora-executiva do Rappler (rappler.com), uma empresa de mídia digital de jornalismo investigativo nas Filipinas. Dmitry Muratov, 59 anos, é um dos fundadores do jornal independente "Novaya Gazeta" (novayagazeta.ru), criado em 1993, e de que é chefe de redacção há 24 anos.

Os dois jornalistas foram distinguidos "pela sua corajosa luta pela liberdade de expressão nas Filipinas e na Rússia e por seu intermédio é feito um reconhecimento ao papel dos jornalistas na construção da democracia e a liberdade de imprensa.

Cada vez mais, exercer a profissão de jornalista exige um compromisso com o jornalismo livre, independente e baseado em factos e onde esses mesmos factos, o contraditório e a capacidade de ouvir todas as partes transformam-se no selo de protecção jornalística contra abusos de poder, mentiras e propaganda política.

Portanto, o jornalismo contemporâneo exige coragem, firmeza de princípios e integridade profissional e é isso que a sociedade espera dos profissionais dessa área.  É importante que os jornalistas angolanos compreendam o alcance da atribuição do prémio Nobel da Paz deste ano a dois jornalistas e o que isso pode significar para o despertar e apelo para agir em Angola.

No nosso caso, os jornalistas bateram-se durante anos pela criação de uma Comissão da Carteira e Ética que tivesse capacidade de intervenção junto da própria classe para excluir ou denunciar publicamente os casos mais graves que atentam contra a honra da classe.

Como acontece noutras paragens, a luta pela dignidade da classe faz-se com coragem e determinação e começa de dentro. Tem de começar de dentro e com coragem para separar o trigo do joio. Cabe aos jornalistas, mais do que a terceiros, definir as balizas da actuação dos seus profissionais. Os profissionais que cedem às pressões políticas e económicas têm de perceber que correm o risco de serem impedidos de pertencer a esta classe, sendo "punidos” com uma sanção pública de repúdio e, nos casos mais gravosos, com a cassação da carteira profissional.

Para isso é urgente que se acabe com a narrativa de responsabilização de terceiros: Não sejamos ingénuos em relação às pressões dos partidos políticos, do Governo e de outras forças sobre os jornalistas, mas cabe às organizações de defesa da classe encontrar estratégias e formas de garantir a protecção dos profissionais e de criar escudos contra essas forças de pressão.
Não é fácil. É obvio que não é, mas é possível. Como nas Filipinas ou na Rússia, aqui o jornalismo também pode ser uma apaixonante profissão charneira da democracia e da liberdade de expressão.


Mais do que qualquer outro organismo, é o momento da Comissão da Carteira e Ética assumir o desafio histórico e corajoso de arrumar a casa. A cada reportagem, entrevista ou notícia que viole a ética e a integridade da classe jornalística, esperamos por uma intervenção frontal e sincera da CCE.


A democracia interna com ousiders (Nota 2)
 As declarações de Bento Bento sobre a candidatura de António Venâncio confirmam o mal-estar de alguns conservadores com a anunciada e não concretizada intenção de concorrer. Em vez de estar concentrado na disputa com Adalberto Costa júnior, alguns dirigentes do MPLA estão ressabiados porque um desconhecido ousou disputar a cadeira presidencial do partido.

Em vez de abordar os problemas relacionados com a governação e com o crescimento da oposição, alguns dirigentes do MPLA preferem descobrir no interior do próprio partido inimigos imaginários. É exactamente por isso que, muitos simpatizantes e militantes defendiam a necessidade de um outsider enfrentar o status quo das bases, onde quase tudo é visto como manobras do inimigo. A tal anunciada pré-candidatura nada tinha contra o camarada presidente, para além da possibilidade de apresentar outras ideias sobre o rumo do partido. Seja como for, não se concretizou. Ponto final.

Ao longo dos anos, as estruturas de base encheram-se de vícios e práticas que permitiram uma ascensão rápida dos alpinistas e oportunistas, sacrificando-se muitos da chamada primeira hora.  Uma voz, fosse quem fosse, que não viesse das estruturas e que pudesse representar todos os que sofreram com intrigas, jogos de poder e marginalização, muito comuns nas bases, seria bem acolhida pela sociedade.

O mais importante é alguém que personificasse os milhares de simpatizantes, militantes e até dirigentes que foram ostracizados no seu próprio partido, esquecidos depois de terem prestado serviços relevantes ou afastados injustamente por causa do nepotismo ou do amiguismo. João Lourenço foi, no início, essa figura anti-sistema, mas hoje as estruturas de base voltaram a ter o controlo das coisas boas, mas também das más. Sem um outsider teme-se que o debate não alcance os vícios e as práticas nocivas que dividem a grande família.

Sendo hoje uma certeza de que haverá apenas um candidato, o desafio não é combater fantasmas ou produzir novos mártires. O desafio maior, para alem de inverter a tendência eleitoral da oposição, é realizar um congresso que mesmo sem outsiders tenha capacidade de debater os pontos de estrangulamento que levam à insatisfação de tanta gente que se afastou.

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