Cultura

O papel decisivo da Rádio Nacional

A minha infância foi marcada por muitos acontecimentos, mas há dois deles que hoje merecem um destaque especial. O primeiro tem a ver com um inesperado show protagonizado pelos Ecos do Prenda na minha escola.

13/06/2021  Última atualização 11H04
© Fotografia por: Show do mês
O pai dos meus colegas Divua e Cláudio era o dono do conjunto. Os ensaios eram em sua casa, mas foi a pedido da filha Kalumba, que também estava na escola, que sem aviso nos fizeram a surpresa das surpresas num dia 1 de Junho.


O João Diloba, baterista dos Jovens do Prenda e dos Kiezos, à época tocava tumbas nos Ecos do Prenda, ainda está vivo e é capaz de se lembrar do brio profissional com que o conjunto tocou durante horas, som limpo, até quando teve de improvisar para os concorrentes dos concursos de dança e dança das cadeiras.


O outro momento marcante da minha infância aconteceu anos antes desse show dos Ecos do Prenda, no entanto, é das lembranças mais arrepiantes de toda a minha vida, curiosamente foi na primeira e única vez em que fui ao saudoso Piô Piô da RNA, realizado no campo da Ambaca, Samba. O campo estava tão cheio que a multidão engoliu a estrada da Samba, até o Supermercado Nzamba 2 acabou por ser invadido.

Quando o Piô Piô estava na recta final ninguém mais conseguia adoptar uma paciente atitude de espera, a ansiedade tomou conta de todos até que uma carrinha começou a abrir caminho entre a multidão e alguém gritou: "Mamborrô está dentro deste carro!” As cortinas não nos permitiam ver bem o interior da viatura, mas nunca vou me esquecer da loucura que aconteceu a seguir, quais ovelhas para o abate, quase toda a gente começou a seguir a viatura, cuja marcha era lenta por causa das pessoas, em uníssono todos repetiam o coro: "Mamborrô, Mamborrô”, e lá foi a multidão eufórica atrás da viatura.


Mamborrô ainda estudava na Escola do Prenda, o nome oficial era Augusto Ngangula, hoje é o Instituto Simioni Mucune, quando se tornou num precedente histórico da música angolana, muitos alunos de escolas distantes matavam aulas só para ir à Escola do Prenda ver Mamborrô.

Os da geração de 70, como eu, sabem que na década de 80 a música infantil se tornou febre mundial, felizmente a RNA, primeiro, depois a TPA e o Jornal de Angola, se deixaram contagiar pela moda e entraram na onda para dar à criança tudo o que ela merecia. Éramos felizes e sabíamos porque a RNA inventou o dominical Piô Piô, o Bonga até eternizou esse momento com uma música, mas a RNA só colocou a cereja no topo do bolo que ja era todo seu com os espectáculos anuais do Dia Internacional da Criança, 1 de Junho.


A RNA conseguiu dar passos firmes para fazer nascer a Música Infantil Angolana, juntando no mesmo barco pessoas conhecidas e anónimas, jornalistas, músicos, compositores, escritores e afins, que contribuíram com sabedoria para erguer um dos maiores pilares da cultura angolana ainda mais porque além da actuação dos cantores, os espectáculos do 1 de Junho também tinham dança e até estórias que eram gravadas e depois dramatizadas em palco.


A próposito, uma das pessoas que abraçou o projecto da RNA foi a desconhecida Rosa Roque, ela criou um grupo de cantoras denominado As Gingas, além do seu grupo, ela também compôs para Ângelo Ramos, hoje Ângelo Boss. Se a Mangonha, primeira música das Gingas, colocou de imediato a música e a coreografia entre as preferidas de crianças e adultos, não é menos verdade que Wasamba de Ângelo Ramos, letra de Rosa Roque, também veio provar que as crianças angolanas podiam cantar para pessoas de todas as idades, com alma e sentimento, mas sem destoar.


Nos primeiros anos dos espectáculos 1 de Junho, muitos aspirantes a cantores choravam e rangiam os dentes por não conseguir pisar o palco da RNA, a maior frustração não era bater na rocha, era algo mais profundo, não poder cantar no mesmo show com Mamborrô! A bem da verdade, mesmo sem passar pelas ruas, Mamborrô tinha imitadores em cada esquina de Luanda ainda mais porque foi o primeiro cantor-piô a lançar um disco, numa época em que era raro ver discos angolanos no mercado, o problema começou em 1976 quando até salões de festas e boîtes começaram a ser compulsivamente fechados em Luanda.


O Long Play com capa colorida fez do puto José Machado "Mamborrô” um verdadeiro fenómeno da nossa música, muitos cantores adultos dariam tudo para ter o [en]canto de Mamborro. É verdade que João de Assunção, Joseca, Ângelo Ramos e a Gizela Góis também eram feras, mas todos eles juntos não tinham metade da presença em palco de Mamborró. Quem de nós não imitou os seus toques? Era uma maneira de estar na moda!


A RNA fez à sua parte para fazer nascer a música infantil, mas infelizmente o governo se esqueceu de corrigir o mal que cometeu logo a seguir a independência quando a Valentim de Carvalho e a CDA desapareceram de Angola, o que fez com que o país ficasse sem uma editora para colocar discos no mercado. Parecendo que não, a inexistência de uma editora em Angola, mal que persiste até aos nossos dias, fez a música angolana começar a perder quantidade e qualidade e até o seu espaço no mercado inter[nacional].

Se os adultos e consagrados já viam fumo para sobreviver sem discos e espectáculos, fica facil perceber por que quando a RNA deixou de realizar o anual espectáculo do 1 de Junho, todos os aspirantes a cantores-piô perderam rede e até os que apareceram em 1991 como Clélia Sambo, Ngouabi e Malamba, só para citar esses, agora estou na dúvida se o Faustino Segunda e o Venâncio Prata também são dessa leva, deixaram de ter microfone e palco.


É verdade que Clélia Sambo e Nila Borja ainda tentaram manter aceso o facho da música infantil com discos que bateram muito na década de 90, a Nila Borja ainda deve ter em mente a invasão das crianças na Cidadela em 1993 por causa do seu Bolinha no Pé. Infelizmente, foi tudo uma questão de tempo até que os cantores-piô começaram a cantar no deserto, pois ninguém apareceu para substituir a RNA.


Yuri da Cunha e Tony do Fumo Filho fazem parte da geração que surgiu quando o mal já estava feito, as versões de Tony do Fumo Filho deram razão ao tal pai tal filho porque as canções do finado pai eram muito bem cantadas em Kimbundu, com o filho a reinvindicar o legado se vestindo de panos, como nos habituou o saudoso Tony do Fumo, mas o doce passado há muito se tornara agridoce. Anos antes de Tony do Fumo Filho, surgiu uma versão em Umbundu de Jacinto Tchipa, mas a mente não consegue mais lembrar o nome desse cantor.

A TPA "respondeu” na década de 80 ao "bife” da RNA com o Explosão. Foi nesse saudoso programa de sábado à noite que Cininho e até Diabick com a sua Menina Feia começaram a nos dar motivos para não perder nenhuma edição do Explosão, mas o programa da TPA foi um fogacho, teve vida curtíssima, pelo que durante boa parte dos anos 80 e uns anitos da década de 90 a RNA teve de fazer sozinha pela vida para que o seu anual 1 de Junho fosse "o futuro da música angolana”, como prognosticou um dia Chico Madne, outra referência da música infantil, numa entrevista ao CANUCO do Jornal de Angola.


É obrigatório mencionar o CANUCO porque assim como o Rádio Piô, da RNA e o Carrossel, da TPA, fez parte das bençãos do jornalismo angolano para as crianças angolanas. Agora mesmo me lembrei da Dinora, série em quadradinhos que fascinava até os adultos, as letras de músicas infantis, para além é, claro, dos desenhos do Sérgio Piçarra e Lito Silva.

* Jornalista do Jornal dos Desportos
Betumeleano Ferrão |*

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