Opinião

O papel conjugado das instituições de formação e das associações empresariais no desenvolvimento económico e social

Filipe Zau |*

Músico e Compositor

Desde os tempos mais remotos que as pessoas vêm transformando o mundo, mas nunca de forma tão acelerada como nas últimas quatro décadas, devido à ocorrência simultânea de três processos inseridos na actual planetização da economia: “a grande expansão dos fluxos internacionais de bens, serviços e capitais; a competitividade e concorrência nos mercados internacionais; a maior integração dos sistemas económicos.”

14/10/2020  Última atualização 08H35

Perante esta nova realidade económica, com fortes reflexos sociais nos países em desenvolvimento, só uma forte aposta na formação de recursos humanos poderá minimizar o fosso, já de si considerável, entre os países industrializados e os que desesperadamente procuram essa via, bem como as fortes assimetrias e desigualdades existentes no interior das próprias sociedades.

A educação, segundo Paulo Freire, por si só não muda o mundo. “A educação muda, sim, as pessoas e estas, por sua vez, é que mudam o mundo”. Daí que, em Angola, se torna necessário superar as seguintes dicotomias:
- Entre a necessidade de diversificação da economia, como condição indispensável à criação de maior riqueza, devendo esta ser canalizada para a melhoria da vida das populações, incluindo o investimento para a educação, já que apenas 7% ou 8% do OGE se destina a este sector, quando a UNESCO recomenda 20%;

- Entre o conceito meramente estatístico de sala de aula, que se confunde com o conceito de escola e a necessidade de uma carta escolar, com uma rede credível de instituições, capazes de dar resposta adequada aos fluxos migratórios e à taxa de crescimento populacional, de 3,2% ao ano;
- Entre o número gritante de crianças fora do sistema educativo, por falta de escolas e professores (apesar do ensino primário ser obrigatório), em oposição ao crescimento exponencial de alguns locais de culto, que apenas promovem o obscurantismo e o fanatismo religioso;
- Entre a relevância do papel social das instituições privadas, como parceiras do Estado, que, no ensino superior, que não é obrigatório e que, num contexto de economia de mercado, representam 72% de todos os estudantes matriculados e o anacrónico controlo de preços para o pagamento da propina dos estudantes, quando esta representa a única fonte de financiamento das instituições privadas de ensino superior. Há uma situação verdadeiramente surrealista: no actual contexto, é mais cara uma mensalidade de uma creche, que a fracção mensal da propina de um curso de medicina (?!);

- Entre a ausência gritante de instituições de formação docente, ainda sem definição de uma estratégia adequada de funcionamento para o subsistema de formação de professores e a necessidade de docentes profissionalizados para a condução dos processos de ensino-aprendizagem, formados na lógica do “saber, do saber-fazer e do saber situar-se”;
- Entre a falta de estratégia para o envio de estudantes bolseiros para o exterior, e a falta de financiamento para uma formação de qualidade no país, quando, segundo Durkheim, “cada sociedade real e histórica, em determinado momento do seu desenvolvimento, é quem cria e impõe o tipo de educação de que necessita”. Daí que a ideia de uma “educação universal” seja falsa;
- Entre o perfil de saída dos estudantes do ensino secundário e o perfil de entrada dos mesmos no ensino superior, numa lógica de verticalidade sequencial das respectivas grelhas curriculares e após o conhecimento das suas orientações vocacionais, pois não se constrói uma casa a partir do telhado;

- Entre a imposição política de grelhas curriculares mais ou menos harmonizadas entre si, sem prévio conhecimento do sentido dos mercados, as quais terão de dar respostas adequadas…
A educação nunca foi despesa, mas investimento com retorno garantido. Estima-se que muitas das razões impeditivas para que, mais de 30% das crianças africanas, possam frequentar os estabelecimentos do ensino primário, estejam associadas a situações de conflito armado, má governação, descriminação de sexo, catástrofes naturais, endemias e outros tipos de exclusão social;

A qualidade das aprendizagens, encrustada a perfis de saída, que venha de encontro ao desejo das empresas, concorre para que se possa garantir às novas gerações uma maior empregabilidade, um maior acesso ao primeiro emprego e a uma maior oportunidade de participação em estágios profissionais. Para tal, há que se estabelecer o vínculo entre a academia e o sector produtivo, através de associações empresariais. Não faz qualquer sentido formar para o desemprego e, nesta condição, já se encontra cerca de 35% da população economicamente activa do nosso país.

O sucesso das empresas, na actual “teologia do mercado” – para utilizar uma expressão de Alvin Toffler – dependerá do sentido de inovação para a competitividade do mercado e, para tal, são necessários técnicos superiores, que, nas universidades e outras instituições de formação superior, ao invés de investigarem apenas para a publicação em revistas científicas, poderão, também, proporcionar inovação técnica e tecnológica para as empresas, desde que estas digam o que precisam. De resto, conhecendo-se o alvo, basta acertar o tiro.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião