Opinião

O país e as ideias

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Logo que temos contactos, os nossos olhares e os nossos percursos se cruzam, querendo ou não, sentimos sempre algo familiar, nosso, a quase certeza de estarmos no lado correcto da História.

15/06/2021  Última atualização 06H00
Acontece-me em variadíssimas situações que, em aparência, poderiam até ser contraditórias, mas não o são: foi o que senti quando soube que o Movimento 15 + 2 existia, quando comecei a trabalhar no Memorial Dr. António Agostinho Neto, quando estive com o Benja Satula, com o José Luis Mendonça, com o António Paulo, com o Adriano Manuel, - sim! O pediatra angolano que alguém anda a abandalhar, mas que provocou uma enorme onda de solidariedade nas redes sociais, porque a sociedade já não se cala quando alguém pode estar a ser ostracizado-, com a Alexandra Simeão, na Universidade Católica. Foi, também, o que senti quando fui à sede do partido político em que milito, no outro dia. 

Não há clivagem nem diferença, muito menos animosidade, que impeça: há consciência comum de estarmos a testemunhar um novo tempo. É o mesmo que sinto quando leio ou escuto o Reginaldo Silva, o Rafael Marques, o Luis Fernando, o Graça Campos, o Gustavo Costa, o Osvaldo Gonçalves, o José Eduardo Agualusa, o Sousa Jamba, o Israel Campos, - sim! O jornalista suspenso pela Rádio Luanda, por ter lido uma crónica que até foi escrita por outro sobre o impacto da chuva e do lixo.

Digo-o sem receio: é o que sinto quanto leio ou escuto o José Octávio Serra Van-Dúnem, o João Melo, o Manuel Rui Monteiro, o Orlando Sérgio, o Ondjaki,o Nok Nogueira, a Luísa Rogério, a Sizaltina Cutaia, o Tiago Costa, o Zetho Gonçalves, a Djaimilia de Almeida, o Ismael Mateus, o Raimundo Salvador,o Apusindo Nhari e, também, tenho sempre uma boa esquebra que são os posts surpreendentes do Mauro Sérgio, no Facebook.

São muitos mais, às centenas e aos milhares mesmo e estão em Angola ou na diáspora, vejo-os em todas as redes sociais,a maior parte das vezes nem os conheço, mas interessa-me sim saber o que dizem, pensam ou fazem, no espaço público: consciente ou inconscientemente, todos eles, a meu ver, fazem parte de um novo, amplo, policêntrico, atomizado, intenso e heterógeneo movimento social e político.

É verdade que este novo e amplo movimento é muito diferente daquele que algumas das mentes mais progressistas deste país identificaram e acreditaram existir, em Angola, entre os anos 50 e 60 do século passado e que esteve na base do surgimento do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA): une-nos uma série de causas maiores, o desejo de ser realista, a força por reivindicar o sentido comum e o de encontrar soluções práticas, por uma Angola melhor. 

Com argumentos, formas e percursos diferentes, - o menor dentre os que eu citei é o Israel Campos que tem, apenas, vinte e um anos de idade e o mais velho é o Manuel Rui que, a 4 de Novembro deste ano fará oitenta anos de idade -, estes e outros jornalistas, activistas políticos, sociais ou ambientalistas, académicos e escritores o que mais têm são ideias que, -concordemos ou não com elas e, inclusive, até quando deploramos algum ou outro exabrupto de alguns deles -, lhes torna incontornáveis: nos ajudam acompreender a Angola de hoje e quiçá, em muitos sentidos, antever o futuro que nos espera. 


O mais provável é que o Manuel Rui não saiba que o Israel Campos adora e admira o seu livro "Quem me dera ser onda” e pode ser que até nem conheça o jovem jornalista e escritor. O que é significativo entre um e outro, com uma diferença de idade de cinquenta e nove anos, é que,o que os distingue é muito menos interessante do que aquilo que os une: une-lhes o "pensar fora de caixa” e a irreverência, une-lhes um interesse genuíno por uma Angola melhor e, ao que me parece,une-lhes também a convicção de que, sem mais delongas, neste país se necessitam mudanças radicais, mesmo. 

Para que haja mudanças que permitam que o novo e amplo movimento se cristalize, de facto, e as suas melhores ideias se disseminem na sociedade, preciso é que alguma ou várias forças políticas os interprete, dê forma e assumam - com mais ou menos eficiência -, as ideias que há muito estão na sociedade, mas que precisam de uma dimensão política efectiva. 

Nenhum partido político que, nos próximos anos, mantenha o poder ou que aceda a ele ganhará algo transcendental se não conseguir utilizar os recursos de que o país dispõe ou poder aceder á eles, - população jovem, matérias primas e os avanços científicos e tecnológicos mais importantes -, para transformar a vida dos angolanos, se não se situar do lado correcto da história que os cidadãos preferem ver escrita e contribuir a escrevê-la bem, já. 

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