Cultura

O “mwadiakimi” da Kizomba

Analtino Santos

Jornalista

Salú Gonçalves esteve na condução de um painel onde estavam Daniel do Nascimento, João Reis, Rui - responsável de uma plataforma de divulgação da Kizomba – e, imaginem, o “desaparecido” Simmons Mancini, parceiro musical de Eduardo Paim e guitarrista dos seus principais sucessos.

30/05/2021  Última atualização 11H23
© Fotografia por: DR
Lumony, a diva Ary e Daniel Nascimento (outrora Danny L. Nascimento) cantaram e partilharam o palco com Kambuengo, aliás Eduardo Paim, agora promovido a Marechal.

O homem em destaque recuou aos primórdios do movimento da Kizomba, quando tinha como alguns dos seus parceiros Paulo Flores, Ruca Van-Dúnem e, bem na sua génese, o   conjunto S.O.S.É verdade que muitos fizeram uma viagem ao passado, mas poucos o fizeram como Simmons Mancini. O virtuoso guitarrista, vezes sem conta, levantava-se do painel quando um dos seus registos de guitarra era reproduzido pela dupla Mário Gomes e Johnny Master, dois putos que o têm como mestre.

Para o fecho do concerto foi escolhido o  tema "Esse Mwadié”, que, segundo João Reis, foi gravado quando Eduardo Paim e Simmons Mancini estavam de costas viradas, apesar de partilharem o mesmo tecto e estúdio. Depois de ter produzido a música, Paim tentou solar mas não chegava lá e foi João Reis quem pediu para Simmons dar o toque final no solo que eternizou "Esse Mwadié”. João Reis é o responsável pela ida de Simmons Mancini ao Show do Mês Live, passados cerca de oito anos sem tocar em público e cerca de duas décadas sem partilhar o palco com Eduardo Paim.

Foi uma actuação inesperada. A banda teve que fazer uma paragem, enquanto o miúdo Mário Gomes entregava a guitarra ao agora kota Simmons. Este fez os primeiros acordes, mas como não estava satisfeito com as unhas (prova de que não pegava numa guitarra há muito) arrancou com os dentes e depois deslizou pelas cordas como no passado, fazendo a surpresa. Simmons Mancini afirmou que valeu a pena ter saído de casa e que apenas soube que o convite era para participar no painel do concerto de Eduardo Paim só já no local. João Reis foi o amigo usado para o tirar de casa, pois Mancini, nas suas próprias palavras, não tem "muita motivação para sair”.


Lumony, Ary e Daniel Nascimento também soltaram as vozes e suscitaram muito carinho e muito respeito. Deslumbrante, Lumony cantou "Quarto Quintal”, tema em que aborda a violência doméstica e é o seu principal sucesso. Ary fez dueto com Eduardo Paim  em "Vem Meu Amor”, depois  de exaltar o mesmo  amor em "É Tão bom”.
Como tem sido habitual, quando um cantor está no painel, Daniel Nascimento mostrou os seus dons artísticos, partindo para um dueto com o anfitrião em "Ilha Maravilha”, para depois passear-se numa cadência latinizada em "Lamento de Mãe”. Fechou a actuação com "Kissonde”, primeiro single do álbum "Tá Bater", uma produção de Eduardo Paim, que, na época, deu muitas voltas ao então aspirante a cantor Danny L. Nascimento.
Ketas da saudade, show do kayayaTudo começou com o slow "Perdão”. Logo a seguir o baixinho do chapéu, o próprio Eduardo Paim, recordou a barona que dava tampa em "Essa Mulata”. Começou a motivar para um pé de dança em "Som da Banda” e recordou coisas do passado de uma geração em "São Saudades”. O jovem Mário Gomes quase chegou ao solo que, segundo Yuri Simão, é o dedilhar da saudade de uma Nação.

No bloco seguinte, Eduardo Paim tirou a patriótica e não panfletária "O que sonhei”, inspirada na guerra civil de triste memória e no desejo de paz. Ainda na levada de canções lentas deu mais uma para os românticos ao cantar "Coração Partido”. A Nova Energia aproveitou "Sem Kigila” para uma rapsódia, contando a história de "Chikitita”, uma beleza de mulher, os problemas da vida de dois amigos em "Processos da Banda”, a súplica ao criador em "Nzambi Za” e os pensamentos libidinosos em "Minha Vizinha” e "Ai se eu te pego Maria”.

Paim levou mentalmente todos à festa em "Kutonoka” (Kabetula), recordou e cantou os ambientes porreiros em "Luanda Minha Banda” e glorificou a beleza das angolanas em "Morena de Angola”. Em "Zé Kiwaya” teve a paciência e pegou no baixo para mostrar o seu groove, brincando com o jovem Berlim. Este fez um concerto interessante, mostrou que tem um dos melhores grooves da sua geração na partilha de "Zé Kiwaya” e outros momentos onde a marcação do baixo tem força.
Paim descreveu os cantos de Luanda em "Curtir Lisboa” e fez um passeio nostálgico pelos ambientes africanos das noites de Lisboa, cidade que o acolheu e onde foram produzidos os seus principais sucessos. "Rosa Baila”, composição que surgiu da pena de Filipe Zau, serviu de antecâmara para o convite para a "Nguenda”, a variante angolana de "Curtir Lisboa”. Bem na parte final, o agora Marechal Kambuengo recordou "Xinguila” e "Riqueza e Valor”. Do seu S.O.S retomou "Carnaval” e as danças que marcaram os anos 80, como a Katebula, Bungula e Vaiola.  

Os putos da banda
O percussionista Xiko Santos foi o mais-velho da banda constituída por jovens instrumentistas. Os guitarristas Mário Santos e Johnny Master foram os responsáveis pelo solar e o pegar na malha rítmica de sucessos como "Nzambi Za”, "Saudades”, "Esse Mwadié”, "O que eu sonhei” e outros criados por Simmons Mancini. Os dois jovens afirmaram que foi um momento histórico, porque estavam a tocar diante do autor e sentiam que estavam a ser avaliados. Nota importante: depois do concerto, Simmons Mansini chamou os putos e fez algumas correcções na forma como executaram alguns temas. Mas aprovou a sua actuação.
O trompetista Eufraim La Trompa brilhou em "Processos da Banda”, assim como Luís, Chinguma e Rigoberto, outros elementos dos metais de sopro. Genial e Benny sacaram, nos respectivos teclados, o que Eduardo Paim produziu, programou e tocou nos seus principais sucessos. Completaram esta legião de instrumentistas Jack Spin (bateria), Alexandre (percussão), a dupla de coristas Raquel Lisboa e Neide da Luz, assim como a secção de cordas.
Teddy Nsingui e Simmons Mancini revelaram que o solo de  "São Saudades” foi inspirado no de  "Zito Monami”, tema de Clara Monteiro, num momento de inspiração de Teddy Nsingui. Eduardo Paim afirmou que rendeu-se à voz de Dadi Rodrigues, então corista, em "É Tão Bom”. Em companhia do amigo Fernando Quental, quando ouviu-a cantarolar, depois de já ter gravado o tema e em fase de pós-produção, desafiou-a e ficou o registo que hoje é a base das versões que têm surgido.


Ele agora é Marechal
Eduardo Paim nasceu a 14 de Abril de 1964, em Brazzaville, República do Congo. Foi em Cabinda, ainda criança, que aprimorou os dotes musicais. Conhecido como homem dos teclados, tem no baixo, todavia, o seu instrumento de eleição.
Como produtor foi um revolucionário, ao contribuir na mudança de paradigma da música angolana. Nome obrigatório quando se fala da Kizomba, também é conhecido como General Kambuengo (agora é Marechal). Está na base do sucesso de referências da nossa música, como Jacinto Tchipa, Dyabick, Paulo Flores, Maya Kool, Mito Gaspar, Simmons Mancini, Nelo Paim e tantos outros. 

Antigo colaborador nos estúdios de gravação da Rádio Nacional, em 1991 emigra para Portugal e torna-se um dos principais produtores africanos. Na sua discografia constam os seguintes álbuns: "Luanda, Minha Banda”, "Do Kayaya”, "Kambuengo”, "Kanela”, "Ainda a Tempo”, "Mujimbos”, "Maruvo na Taça”, etc., etc.


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