Opinião

O mundo não tem avesso

Manuel Rui

Escritor

Durante cerca de uma semana, ficava difícil encontrar um canal de televisão em que o écran não estivesse marcado pelas exéquias fúnebres daquela que reinou durante sete décadas os destinos do Reino Unido.

22/09/2022  Última atualização 06H05

Homens, rigorosamente fardados, cerimónias de luto e mais cerimónias, presença de muitos estadistas do mundo com a ausência do rei da maior monarquia do planeta: Arábia Saudita.

Claro que cada televisão tratou uns do caixão outros, mais assertivos, da urna, fizeram-se filas de quilómetros e a média foi explorada como legitimação e propaganda da monarquia inglesa. Houve repórteres que asneiraram no exagero de quererem pôr o mundo todo a chorar. Outros exageraram no elogio à democracia inglesa (paradoxo porque a democracia mais recente, antes da romana do século VI a.C, começou com a Revolução Francesa, derrubando com violência a monarquia.)

No mundo existem 28 monarquias: Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Emiratos Árabes, Suazilândia, Brunei, Omã, Bahrein, Jordânia, Marrocos, Vaticano (O Papa é considerado um monarca de uma monarquia absolutista eletiva da teocracia católica romana), Mónaco, Tailândia, Império Britânico ( A rainha ou o rei é considerado chefe de estado de 16 monarquias constitucionais do Império Britânico), Liechtenstein, Tonga, Butão, Noruega, Suécia, Holanda, Espanha, Dinamarca, Luxemburgo, Bélgica, Lesoto, Camboja, Malásia e Japão.

Óbvio que há mais repúblicas (variadas) do que monarquias.

O Sovereign Grant representa a principal fonte de renda e é usado para suportar as despesas com segurança, alimentação, viagens e pessoal pago pelo governo do Reino Unido Cerca de 86,3 milhões de libras foi o valor pago pelo governo à família real entre março de 2021 e março se 2022. Estes valores colocam a realeza britânica como a 5ª mais rica do mundo. Até então, o membro mais rico da família era a rainha Elizabeth 2ª que acumulava 350 milhões de libras.Aqueles 86,3, no último ano subiram para 102,4 milhões de libras. Mais de 60% das  despesas referem-se  à manutenção de propriedades. Repare-se que a coroa tem imensas propriedade e até cavalos que participam em provas equestres. A folha de pagamento de salários dos funcionários da família real chega a 24,1 milhões de libras.E em viagens nem se fala. O príncipe deGales William e Kate viajaram pelo Caribe gastando 226,4 mil libras.

Um detalhe: o rei Harald da Noruega não paga impostos sobre sua riqueza e gastou parte do que ganha na compra de um iate real…

 Nos 70 anos de reinado, a rainha agora falecida, protagonizou os atos mais vis do Império Britânico com os pés assentes na escravidão. A grande maioria da documentação sobre massacres e genocídios cometidos foi escondida, arquivos foram queimados e muitos deitados no mar. No Quénia, há campos de concentração com trabalho forçado, onde surgem testemunhos de castração ou mutilação. As colónias britânicas começaram a tornar-se independentes em 1957 mas o regime de trabalho forçado manteve-se em muitos desses países.

A dominação sobre o que hoje são 18 países sem incluir Hong Kong, foi marcada por todo o tipo de violações do ser humano, como aconteceu no Tibete entre 1903 e 1904. O império dominava cerca de mais de 400 milhões de pessoas. Foi o tempo das Companhias Majestáticas e as duas acumulações primárias de capital teve por base o negócio dos escravos. Vou citar  a Dra. Andrea Major da Universidade de Leeds: " Há uma amnésia coletiva sobre os níveis de violência, exploração e racismo envolvidos em muitos aspectos do imperialismo, para não mencionar as várias atrocidades e catástrofes que foram perpretadas, causadas ou agravadas pela politica colonial britânica.”

Paradigmática foi a dominação da India, governada por um vice-rei. O jovem advogado Ghandi, licenciado em Inglaterra, protagoniza na África do Sul uma luta pacífica contra o apartheid. Depois decide voltar à sua terra de origem  e começa a liderar uma oposição pacifica de desobediência civil. O regime britânico assusta-se. O vice-rei, com exército bem armado não quer o pacifismo de Ghandi, arma fantoches contra quem poderá disparar. Os indianos não podiam explorar o seu sal marinho. Só os ingleses que depois vendiam aos indianos. A marcha de Ghandi para o mar, os disparos contra os pacifistas que mesmo assim conseguem juntar 60.000 indianos, desarmados, a fazerem salinas do mar da terra que lhes pertencia. Outra guerra foi a do pano. Os ingleses proibiam que os indianos fizessem panos para serem obrigados a comprar pano inglês. Ghandi, ele próprio, começou a fazer as suas túnicas brancas. No desespero do fim do império é chamado a Londres. Viaja num barco com a sua túnica, as sandálias e a sua vara de apoio. Só depois há a independência da India com o reinar para dividir, separando o Paquistão, depois, de propósito, arranjando conflitos dentro do Paquistão…tudo dividindo para reinar…

Mas não é tudo nesta crónica que não é opinião mas o tratamento literário da vida. Vejam bem. Um feto está num ventre e quando sai nunca se sabe se vai ser um grande futebolista ou um Che ou um Pablo Escobar. Mas se ele já pessoa sai de um ventre real ele já é diferente dos outros, vai ser educado segundo padrões. Faz serviço militar. Aprende a montar cavalos, faz aprendizado para ser real. Aqui não conta aquele princípio fundamentam de que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Ele não é igual. Ele é real e, obrigatoriamente, quando for adulto, vai ter ao peito medalhas. Vai ter uma remuneração soberba. E assim se constroem mitos para enganar a história, principalmente das vitimas que não podem ver a mistificação do povo. Hitler também tinha o povão atrás dele. No funeral não. Porque se suicidou.

Mas cuidado com estas mitologias britânicas nos funerais com a maior segurança jamais estabelecida no reino unido para a consagração.

Cuidado. É a terra do almirante Churchill. Dos charutos, que recebeu a fuga do presidente francês De Gaulle, organizou o desembarque na Flandres onde os nazis começaram a ser derrotados a ocidente eengarrafadosa oriente pelos soviéticos. É o país de Shakespeare e dos Betles. Parafraseando ArethaFranklin, respeito!

Um amigo brasileiro, já tomado, os americanos dizem não sóbrio, fez-me uma ligada, "olha Manuel, depois da mulata casada com um príncipe, depois do Hamilton fórmula um ganhar o título de Sir, finalmente, o grande artista cego, tocando piano e cantando blues, chega à corte americana!”

"Como assim?”

"É o Ray Charles., ah! Ah! Ah!”

Desliguei o telefone. Meditei sobre uma concessão diamantífera à nossa rainha quioca, thokué ou côkwe ou chokwe…

E o mundo não tem avesso. Não podemos virar isto do avesso e vamos então fazer como assim?

Faço um refogado de peixe tuqueia com jiló (que no Huambo é lossaca), bato um xima de boa fuba, tomo um xiquelei, dou uma passa na minha mutopa onde o fumo da liamba passa pela água e grito em voz alta: Viva a rainha Nhakatolo!

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião