Opinião

O mérito da oposição por demérito do poder

Ismael Mateus

Jornalista

Estamos a dez meses das eleições gerais e o panorama político é o mais complicado de sempre. A propalada Frente Patriótica vem, como se temia, acentuar ainda mais a tendência para a bipolarização do confronto eleitoral, já ela é apenas a integração do Bloco Democrático e do Pra Já nas listas da UNITA.

11/10/2021  Última atualização 09H27
Num cenário de bipolarização, as hipóteses de vitória aumentam para o MPLA, se até lá o partido no poder tiver capacidade para inverter a sucessão de erros estratégicos que têm sido os principais impulsionadores de uma dinâmica de vitória que se apossou da UNITA.
Um dos últimos erros estratégicos foi ter-se envolvido em comunicado público nos assuntos internos da UNITA pré-anunciando uma decisão do tribunal, o que acabou por oferecer o mote para a vitimização de Adalberto Costa Júnior e por colocar muitos indecisos contra o MPLA por solidariedade contra a alegada instrumentalização do Tribunal Constitucional. Mas não é apenas isso: toda esta confusão do tribunal acontece num momento em que o Presidente João Lourenço estava lentamente a inverter as péssimas expectativas dos últimos meses com um conjunto de visitas de campo, declarações e até um ou outro banho de multidão.

A manter-se a tendência das últimas eleições, seria expectável um desgaste natural do MPLA na ordem de menos 10 por cento dos votos, obtendo sucessivamente 81,6 por cento, 71 por cento e 61,7 já com João Lourenço. A situação agrava-se em 2022 porque, para além do  desgaste natural, acrescenta-se a difícil situa-ção económica do país, com a alta de preços e da pobreza, o desemprego e os efeitos da Covid-19.


Agravar ainda mais este cenário, com erros próprios (medidas fora do timing, problemas de comunicação ou desajustes com a vontade geral dos cidadãos), que favoreceram o crescimento dos adversários políticos e que levam dúvidas sobre a estratégia que vem sendo seguida. A vontade de mudança que se lê na sociedade não resulta de algo que a UNITA tenha oferecido, mas antes do facto de o MPLA não ter sido capaz de protagonizar tais mudanças, (ou pelo menos de as comunicar) motivando a intenção de voto de rejeição por desilusão ou por desajuste com o momento democrático do país.

Nestas circunstâncias, o ideal seria o MPLA abrir-se no seu Congresso de Dezembro a múltiplas candidaturas para possibilitar um debate aberto sobre a estratégia do partido no poder, incluindo outras visões e soluções para os mesmos problemas, como o combate à corrupção, a necessidade de rejuvenescimento das bases e as medidas de impacto na vida dos cidadãos.


Na estratégia de combate à corrupção muitos manifestam preocupação em relação ao impacto sobre o próprio partido não só em termos de coesão interna, mas também a ideia de que na gestão do MPLA o país dispôs de recursos suficientes para melhorar a vida dos cidadãos e o partido permitiu que alguns açambarcassem o erário para fins particulares.


No que toca à estratégia de rejuvenescimento, João Lourenço tem seguido uma política de corte e injecção de novos rostos, mas muitos questionam o facto de se estar a catapultar para os órgãos de direcção jovens sem suficiente percurso nas bases e sem experiência, afastando-se velhos militantes que, ao longo de anos, têm esperado pela oportunidade para ascender aos órgãos superiores.


Em relação às medidas económicas, há um entendimento generalizado de que ao Presidente não restam grandes alternativas, mas questiona-se sobretudo o alcance de medidas económicas para melhorar a vida dos cidadãos. A eventualidade de candidaturas de Irene Alexandra Neto e Álvaro Boavida Neto, como se aventa em círculos internos, seria também uma forma de reagrupamento da grande família, já que segmentos que se sentem marginalizados poderiam encontrar, nestes dois prováveis candidatos ou noutros, uma forma de voltarem a participar na vida do partido.


Uma palavra particular para Álvaro de Boavida Neto que, se decidir entrar na corrida, pode causar dificuldades a João Lourenço. ABN tem um percurso bastante sólido por todas as estruturas de base e é, ele próprio um grande mobilizador. Mesmo que seja pouco provável que vença João Lourenço, agora em Dezembro, permitiria ao menos apresentar-se como alternativa para 2026 e iniciar já agora uma sementeira de novas ideias, alternativas às de JL, quanto ao caminho que o partido deve seguir nos próximos anos.

Ao Presidente João Lourenço também faria bem ter que disputar a sua reeleição partidária com outros opositores e a ouvir as críticas dos que discordam da sua estratégia, medir o peso das ideias alternativas que serão apresentadas e a submeter-se a todo o processo democrático em si. Para ganhar o Congresso terá de fazer ajustes, acertos e negociações, ao contrário do que sempre ocorreu, onde a decisão do líder sempre prevaleceu.

Depois de 38 anos com um único líder e de uma liderança muito concentrada no chefe, nem o próprio Presidente João Lourenço, nem o MPLA conseguiram em quatro anos encontrar o passo certo para o equilíbrio. Um Congresso com múltiplas candidaturas poderia provocar um debate interno sobre os erros estratégicos que dão trunfos a Adalberto Costa Júnior e a UNITA e ter um efeito unificador de grupos que se sentem marginalizados, que se auto-excluíram ou dos que foram mesmo afastados.

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