Opinião

O mal dos excessos

Caetano Júnior

Jornalista

O Presidente Francês, Emmanuel Macron, sofreu, há cerca de duas semanas, uma agressão física. Foi atingido por uma bofetada na face direita, ofensa que lhe dirigiu um cidadão anónimo, um compatriota. Na ocasião, o dignatário da França visitava o Sul do País e, no momento, saudava populares que lhe tinham acabado de acenar.

20/06/2021  Última atualização 04H20
Episódios de agressão a Chefes de Estado, a governantes e a outras altas autoridades não são novidade pelo mundo. Logo, não começaram com a atitude do compatriota (nem merece assim ser tratado) que optou por se tornar célebre à custa de um gesto inqualificável sobre a figura do Presidente. Atitudes destas vêm do passado longínquo. Nos últimos anos, um dos eventos mais marcantes desta natureza foi o ataque ao então líder norte-americano George Bush, numa conferência de Imprensa, em Bagdad (Iraque), por um jornalista iraniano, em Dezembro de 2008.


Os gestos de desrespeito a Chefes de Estado, governantes e a outras figuras de relevo, sobretudo políticas, parecem mais afivelados nas principais democracias. Por se tratar de Nações nas quais o cumprimento dos deveres cívicos, o pluralismo de ideias, o exercício da cidadania são avaliados como inalienáveis, inegociáveis, e fundados para prosperar, cidadãos chegam a exceder-se nos contextos de os fazer vingar. Para estes, não existem limites no acto de fazer valer direitos, entre os quais a liberdade de expressão. Sequer a educação, o respeito pelas pessoas e instituições, a preservação da integridade física e moral alheias e do princípio da coabitação "Eu” e "Nós” são levados em consideração.

Porém, atitudes de desrespeito e afronta a figuras do poder são, igualmente, testemunhadas em realidades geográficas mais perto de nós, angolanos, do que muitos podíamos supor. À guisa de exemplo: nas eleições presidenciais de 2016, em São Tomé e Príncipe (a 1 hora e 45 minutos de distância de avião), Pinto da Costa, então candidato à reeleição, chegou a sentir a deselegância e até falta de respeito de compatriotas. Quando foi votar, no bairro Pantufo, distrito de Água Grande, na cidade capital, eleitores na fila para exercer o direito ao voto negaram-lhe prioridade. Disseram-lhe para cumprir a ordem de chegada. E nos piores modos que se pode imaginar. O episódio foi encarado com incredulidade pelos jornalistas angolanos que cobriam o evento. Já para os locais… Nada mais natural.

No rescaldo do ataque a Macron, um humorista angolano divulgou um vídeo no qual "brinca” com a situação. E fechou a chalaça com a tirada "se fosse em Angola …”.  Pois bem, entre nós, episódio semelhante dificilmente ocorreria. Os angolanos têm forte tradição de respeito pelas pessoas, independentemente de estarem revestidas da autoridade de um Chefe de Estado ou de um governante. É um legado cultural e está alicerçado nos valores da família, na veneração que inspiram os mais velhos. Trazemos desde tenra idade os ensinamentos que nos orientam para a consideração e o respeito que nos merecem os outros.

Da esteira, do luando ou da tosca cama sobre a qual chegámos a nos deitar, em grupos, irmãos, primos e amigos, da mesa humilde, mas unificadora, portamos as lições que nos tornaram, muito cedo, tementes a Deus, obedientes aos pais, tios e vizinhos. Portanto, as nossas mãos muito dificilmente se deslocariam para ofender a integridade física de um Presidente. É verdade que estamos a perder o controlo de alguns valores, num processo capaz de desembocar no declínio moral da sociedade. Daí que, vez por outra, testemunhamos episódios que deslizam para actos condenáveis, consequências, também, da confusão que se chega a estabelecer entre liberdades, democracia e respeito. Sobretudo nestes tempos globalizados, em que nem sempre sobressai a consciência para o decente, o correcto, o moral, o inadequado.


Pode ser ainda da imitação, pura e simples, da barbárie conhecida de outros lugares; da importação indiscriminada de usos, hábitos e costumes, toscamente adoptados em realidades muito diferentes; da adaptação de modelos alheios, nada coincidentes, em contextos sociais e culturais. Pode, enfim, ser do acolhimento de formas de ser e estar de outros povos, num país que se guia por paradigmas comportamentais próprios. A agressão física, a ofensa verbal ou o ataque à integridade de um Chefe de Estado não podem ser expressão da diferença de pensamento; não podem reflectir avanço democrático, nem a consumação de um dever cívico. É comportamento que comprova a selva para onde sociedades retornam, sem sequer se darem conta do caminho de volta que empreendem.

O eleitor, é preciso reiterar, é hoje a sentinela de quem governa: avalia-lhe as promessas, fiscaliza-lhe as realizações; controla-lhe a gestão, cerca-lhe os passos, vigia-lhe os movimentos, escrutina-lhe a actividade, enfim, ronda-lhe a vida. E, no final, pode sentir-se defraudado, daí o direito à exasperação, a razão para o inconformismo, o que, entretanto, não deve justificar uma resposta violenta; o recurso à sevícia.
Democracia também pressupõe tolerância e justiça e alerta para o mal dos excessos. Liberdade de expressão opõe-se à barbárie. Em tudo deve haver contenção! 

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