Entrevista

“O mais difícil é não fazer nada”

Arão Martins | Lubango

Jornalista

Nasceu na província do Cunene, e, logo de seguida, aos dois meses de vida, mudou-se com os pais para a cidade do Lubango. Mulher de trato fácil, humilde e guerreira, Gracinda Ndaendelao Gonçalves, além de docente universitária, já foi coordenadora do Fórum Angolano dos Jovens Empreendedores (FAJE). Actualmente, é a directora do Gabinete Provincial dos Transportes e Tráfego Urbano da Huíla.

10/04/2022  Última atualização 10H15
Gracinda Ndaendelao Gonçalves, directora do Gabinete Provincial dos Transportes e Tráfego Urbano da Huíla © Fotografia por: Arão Martins | Edições Novembro – Huíla

É fonte de inspiração de muitos jovens que enveredaram para o mundo do empreendedorismo. Está satisfeita com o sucesso de muitos jovens a quem motivou?

De facto, estou satisfeita. Quando olho para aqueles jovens e olho para as suas lutas e sucessos, dá-me satisfação. Mas em contrapartida fico um pouco preocupada, porque há também muitos jovens que reclamam mais ao invés de começarem a fazer acontecer. Sabemos que nada é fácil para ninguém. Ainda assim, acho que o mais difícil é não fazer nada. Temos que escolher o caminho a fazer. Vamos tentar quantas vezes forem necessárias, para quando olharmos para trás dizer "tentei, não deu certo, mas não foi por falta de tentativa, ao contrário de ficar sentada e esperar que o Estado venha resolver os meus problemas”. Mesmo assim, há muitos jovens empenhados, preocupados com a sua formação.

 É quadro do Ministério dos Transportes na Huíla?

Vim para cá em comissão de serviço. Sou quadro do Instituto Superior Politécnico da Huíla (ISPH). Quando vim para este sector éramos 15 funcionários, dois dos quais já foram à reforma. O Gabinete dos Transportes é pequeno. Apesar de termos défice de quadros, já que dependemos das vagas que são abertas a nível do Governo Provincial, ainda assim, temos estado a trabalhar em conjunto para atingir os objectivos preconizados.

Sabemos que era uma empresária de muito sucesso. Foi difícil abdicar desta veia com a qual inspirou muitos jovens?

Tem se dito que as mulheres são de mil ofícios. Sou mulher, mãe, funcionária pública. Ao tornar-me gestora tive de abdicar de algumas coisas. Mas a veia empreendedora continua. Além de docente universitária, fui coordenadora do Fórum Angolano dos Jovens Empreendedores (FAJE). Tenho estado a partilhar matérias deste ramo com os jovens daquela organização, a quem ainda considero colegas. Não tenho estado a exercer a vida empresarial a 100 por cento, mas acompanho muito o FAJE. Tenho estado por dentro. O sucesso de um empreendedor não tem preço. Por isso, tenho a tarefa de orientar o meu filho, afilhado e sobrinha para que enveredem por esta área empresarial, que é um campo muito desafiante e bonito. Trabalhar para o Estado é desafiante, mas tem algumas limitações. Já ser empresário é diferente, é como um voo. Uma vez começado já não se consegue parar. 

Existem muitas oportunidades de formação no Gabinete que dirige?

Temos o Programa de Reconversão da Economia Informal (PREI) e estamos a fazer formações em parceria com o Instituto Nacional do Emprego e de Formação Profissional (INEFOP). Mas há problema para fazer a constituição das turmas, porque os moto-taxistas e os taxistas não aderem ao processo. Na Huíla, temos uma média de 2 mil taxistas de azul e branco. É o segundo maior parque automóvel do país. Apesar deste número elevado, na primeira fase, temos uma equipa constituída por apenas entre 16 e 30 formandos. É um número exíguo. As pessoas deviam se interessar mais, já que o saber não ocupa lugar, e conversar mais com quem empreende para aprender as técnicas e dar passos para frente. 

Como é que foi a sua infância?

Continuamos atrás do sucesso. Aliás, é preciso trabalhar todos os dias para ver se conseguimos atingir o sucesso. Mas, dizer que a minha infância foi muito boa.

Onde cresceu?

Cresci no bairro Benfica, na cidade do Lubango. Tive uma infância de muita brincadeira. Fiz o meu ensino primário na escola nº 60.

É desafiante dirigir o Sector dos Transportes na província da Huíla?

É um desafio muito grande. Temos estado a acompanhar as preocupações das pessoas. Queremos oferecer dignidade aos nossos utentes, por exemplo, ter uma paragem com abrigo, uma paragem onde possamos encontrar informação sobre o tipo de autocarro e hora de embarque. Temos muitos desafios, dentre os quais implementar um projecto de transporte regular de passageiros. Definimos horários, paragens e as rotas. Mas os autocarros encontram muitos constrangimentos na via. Os autocarros têm que partilhar a mesma via com os automóveis particulares e os táxis azuis e brancos. Por isso não têm como cumprir o horário previamente definido. Se houver um acidente complica muito mais a situação. O outro ponto tem a ver com o facto de, às vezes, outros automóveis  estacionavam nas paragens definidas para autocarros. E também as vias são estreitas. São desafios a vencer.

Relativamente aos meios rolantes há ou não exiguidade?

Há exiguidade de meios. Ainda só operamos em termos de transportes rodoviários urbanos na cidade do Lubango e nos municípios da Humpata e Chibia. Como é sabido, temos 14 municípios. Precisamos de atingir os restantes 11. Os desafios são grandes. 

Quantos autocarros o sector controla na Huíla?

A Huíla tem autocarros privados. Os autocarros que vieram dentro do programa dos transportes regulares são 40. Recebemos mais 22 autocarros e está em curso a planificação para a sua distribuição para o Lubango e os demais municípios.

Qual é o número de autocarros que seriam necessários para cobrir a demanda na província?

O crescimento populacional é dinâmico. Às vezes, contamos com um determinado número de habitantes numa localidade, quando, na verdade, aparece outro.  Mas, para já, no município sede (Lubango), gostaríamos de contar com 75 autocarros e 100 para serem distribuídos nas rotas que ligam os outros municípios. Nem todos os municípios têm condições de fazer o transporte urbano.

A procura dos autocarros por parte dos moradores da centralidade da Quilemba está minimizada?

Está minimizada. Sabemos que a centralidade da Quilemba tem 8 mil habitações, mas não está habitada na totalidade. Nem 50 por cento dos habitantes estão na centralidade. A Quilemba continua sendo uma preocupação para nós. 

Qual será a mais-valia com a criação do parque intermodal de passageiros?

Será um parque funcional, onde estarão os autocarros, táxis e moto-táxis com manobras e rotas muito bem definidas. O ganho vai consistir na melhoria da qualidade de vida da população. A partir do parque vai se ter um controlo e melhor direccionamento de qualquer pessoa que queira viajar para qualquer ponto. O ganho é também a responsabilidade do município. Mas o Gabinete Provincial dos Transportes e Mobilidade Urbana é que está a encabeçar este projecto.

Quantos hectares terá o terminal?

Apenas garantir que o terreno tem dimensões internacionalmente aceites, está legalizado e não haverá carregamento desordenado, todos os autocarros irão para lá e o passageiro encontrará no parque transporte para qualquer ponto do país. O objectivo, tal como já fiz referência, é fazer um terminal de passageiros funcional, onde, mesmo estando em casa ou noutro ponto qualquer, o utente, a partir da internet, vai saber a hora da partida e chegada do transporte da sua preferência. É um projecto a ser concretizado. O importante é que o projecto está a ser criado, as ideias existem, são obras, o importante é caminhar. Tarde ou cedo, será possível. O que podemos adiantar é que o projecto está em carteira. O parque vai ser instalado no antigo mercado do Chioco. 

Como viveu o Março Mulher?

O Março Mulher é nosso, mas todos os meses devem ser dedicados às mulheres. Março é o período em que se dedica maior atenção às mulheres. É também o período em que lembramos os homens do nosso mês. É um mês que serve para muita reflexão, em que as mulheres reúnem-se mais e falam mais do empoderamento. É nessa altura nós, mulheres, apelamos mais à solidariedade. É um mês de muita reflexão. 

Há quem diga que é natural da província da Huíla. Até que ponto esta afirmação é verídica?

Nasci na província do Cunene e logo a seguir, com dois meses de vida, vim para a Huíla, onde vivo na cidade do Lubango. Considero-me huilana. Várias vezes já me foi solicitado para falar do Cunene e, praticamente, não sei nada, tirando o que lemos em livros. Sei mais da Huíla porque a minha infância e juventude toda foi e continua sendo feita nas terras altas da Chela.

Qual é o Lubango que encara hoje?

Encaro um Lubango completamente diferente. Quando me encontro com as minhas amigas de infância, uma das coisas que me deixam muito contente é a requalificação do rio Mukufi e do respectivo perímetro. É um rio onde brincávamos no tempo da infância. Brincámos muito neste rio e hoje está muito bonito e diferente. A zona é cativante. Acho que o Lubango está a tomar caminhos muito bonitos, e, actualmente, é uma das cidades mais limpas de Angola. A natureza é muito generosa connosco. Temos um Cristo Rei a abençoar a nossa linda cidade. Temos que nos sentir privilegiados por viver na cidade do Lubango, em particular, porque além das suas características geográficas tem um clima lindo. Estamos de parabéns.

Qual deve ser o contributo dos utentes de viaturas na preservação daquilo que já foi conquistado no Lubango?

Cada um deve fazer a sua parte. Muitos de nós atiramos lixo ao chão e no dia seguinte reclamamos que a cidade está suja e ficamos à espera que o Governo venha tirar o lixo. Devemos, sim, fazer aquilo que é correcto. Cada um na sua parte e naquilo que pode, deve contribuir. Temos estado a verificar uma onda de vandalização de bens públicos. Não sabemos se existe algum objectivo inconfesso, mas este não é o caminho certo. Uma atitude mal pensada de atirar pedra para uma viatura ou o comboio acaba por afectar milhares de pessoas que utilizam aquele meio para a sua mobilidade. Os meios vieram para estarem à disposição da população, de modo a que todos possam usufruir. Quem fala dos transportes também pode falar dos jardins da cidade do Lubango, que continuam a ser destruídos. Planta-se e no dia seguinte encontra-se as plantas retiradas. Alguns passam e sentam-se por cima das plantas dos jardins. É uma conduta reprovável. É preciso sensibilizar as famílias para mudança de atitude. Queremos uma Angola melhor. Para tal, temos que começar a fazer o que podemos, a nosso nível.

PERFIL

Nome: Gracinda Ndaendelao Gonçalves

Filiação: Henriques Pedro Gonçalves e de Lídia Manuel Antónia

Data de nascimento: 5 de Abril de 1975

Naturalidade: Cunene

Estado civil: Vive maritalmente há 26 anos

Defeito: Teimosa e exigente
Virtude: Amiga dos seus amigos e conselheira

Religião: Católica

Traje durante a semana: Formal por causa da profissão

Aos fins-de-semana: Informal

Socialmente sente-se realizada?  Sim, por tudo que consegui. Pouco ou muito é o que Deus permitiu 

Perfume: Versátil. Quando vou ao shopping, sinto o cheiro. Se gostar levo

Cidade de Angola que mais ama: Amo a cidade do Lubango, mas gosto de estar em Benguela, por me receber bem

Cidade em África  Viajei pouco. Se calhar tenho que viajar mais para fazer melhor a escolha

Já viajou de comboio? Sim. Para a província do Namibe e município do Cuvango, ido do Lubango. É maravilhoso

Tipo de desporto  Já pratiquei andebol. Agora fico em casa e o que a família assiste, também sigo. Normalmente, quando o meu marido e filho acompanham um jogo, apoio quem ganha

Já foi enganada? Todos nós já fomos enganados. Para mim, é algo que não foi relevante e já apaguei da memória. Olho mais para frente do que para trás

Sonho: Ver Angola mais desenvolvida, onde cada um faça a sua parte, onde os sectores do Turismo e dos Transportes funcionem e haja preservação do meio ambiente e melhor aproveitamento dos recursos naturais e formação profissional adequada para desenvolver projectos

Opinião sobre a inveja: Não olho muito para esse tipo de pessoa. Apelo à união entre as mulheres. Se separadas já somos fortes, unidas seremos mais e poderemos fazer acontecer coisas boas, não só para nós, mas também para os nossos filhos e para Angola.

 

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