Sociedade

O mais antigo engraxador de Angola ainda no activo

Guilhermino Alberto

Aos 85 anos, Faustino Tchinduamba, mais conhecido como “Jovito”, é, seguramente, o mais antigo engraxador do país no activo. Algumas pessoas arriscam a indicar que se trata do mais velho engraxador do mundo no activo. Mas, essas, são coisas por provar pelo “The Guinness World Records”.

18/10/2021  Última atualização 05H05
Aos 85 anos, Faustino “Jovito” Tchinduamba trabalha num lugar estratégico de Moçâmedes © Fotografia por: Guilhermino Alberto| Edições Novembro
Faustino Tchinduamba, que nasceu no dia 2 de Fevereiro de 1936, em Quilengues, no então distrito de Sá da Bandeira, actual província da Huíla, conta que começou a engraxar sapatos no longínquo ano de 1972, em Moçâmedes, actual capital da província do Namibe, quando tinha 36 anos, depois de ter deixado a terra natal, que hoje, devido à idade avançada e às dificuldades económicas, visita mais esporadicamente.

Morador no Forte de Santa Rita, distrito urbano de Moçâmedes, o mais velho Jovito, nome por que é conhecido, devido ao discernimento e à boa forma física, conta, com a voz embargada de dor e lágrimas nos olhos, que teve nove filhos, mas hoje só lhe resta uma, depois dos outros oito terem morrido em circunstâncias trágicas, um dos quais quando já andava no 3º ano da universidade.

"Era o meu orgulho e o meu porto seguro, com quem eu contava para levar o caixão, quando Deus me chamasse para junto Dele, para o repouso eterno”, disse consternado, num misto de português e nyaneka.

Sem qualquer subsídio de velhice, o mais velho Jovito disse que deixa o Forte de Santa Rita muito cedo para instalar o seu posto de trabalho, uma cadeira e uma pequena caixa de madeira muito bem cuidadas, num ponto estratégico da cidade de Moçâmedes, no cruzamento entre as ruas Kahumba e José F. Vieira.

Cobra por cada graxa 150 kwanzas, mas nos melhores dias chega a levar para casa cerca de dois mil kwanzas, contando com a solidariedade de alguns clientes e amigos de longa data, que acabam sempre por dar algumas gorjetas.

Reconhecido, diz que já teve ajudas regulares do antigo administrador de Moçâmedes João Guerra, mas devido à Covid-19, que a todos afectou, vai fazendo pela vida, utilizando as poucas forças que ainda lhe restam para não andar a mendigar.

Mostra, com orgulho, o cartão branco de vacinação, a confirmar que já tomou as duas doses de AstraZeneca, para não apanhar a Covid-19, aconselhando os mais novos a seguirem-lhe o exemplo, porque "esta doença está a matar muita gente no mundo inteiro”.

Aos mais novos, o mais velho Jovito insiste que de-vem tomar a vacina, sublinhando que a vacina veio para salvar vidas.
Faustino "Jovito” Tchinduamba a crescenta que, mesmo com as adversidades, vale a pena não desesperar, me-lhores dias virão, a Covid-19 vai acabar e o mundo vai voltar à normalidade. Sublinha que o mundo desde que é mundo já passou por muitas tragédias, mas não há mal que sempre dure, tudo vai passar.

No cimo dos seus 85 cacimbos, o mais velho Jovito lembra que nasceu em 2 de Fevereiro de 1936, três anos antes da Segunda Guerra Mundial, que terminou em Julho de 1945 e matou mais de 20 milhões de pessoas, mas no fim acabou e ele continua vivo. "Os jovens devem continuar a acreditar, não devem desistir diante das dificuldades”, rematou.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Sociedade