Opinião

O machismo como critério

Caetano Júnior

Jornalista

Por saber está o que fizeram, de tão grave, as mulheres, as nossas, as angolanas, para merecer a raiva e a agressividade de homens.

26/09/2021  Última atualização 09H09
Que mal terão encabeçado, para que sobre elas recaia tanta ofensa e toda a sorte de abusos que se consiga imaginar? Uma espreitadela nas Redes Sociais é suficiente para nos darmos conta da forma abjecta como as senhoras são tratadas; um olhar, por mais fugaz que seja, às plataformas digitais, é demasiado, para que se conheça a (des)consideração que a sociedade, em geral, lhes atribui.

Angola é um país fundado na base do respeito mútuo; construído sobre a consideração e a atenção que merece cada cidadão. É verdade que os valores morais já estiveram mais acentuados e foram evidentes no passado, quando as tradições ou elementos culturais e identitários guarneciam a educação e eram os alicerces da família. Hoje, a globalização e a modernidade devastaram muitos dos elementos positivos da sociedade e quase tudo modificaram para o lado negativo; romperam fronteiras, deturparam hábitos e costumes. Nações antes guiadas pela correcção são agora exemplos negativos, enquanto condutoras de cidadãos.

E a globalização, a modernidade, as novas tecnologias, enfim, o génio do Homem trouxeram a Internet, um advento que se celebra todos os dias, mas que é, também e infelizmente, usada para dilacerar, maltratar, ofender, susceptibilizar ou condicionar o próximo. É, pois, nas Redes Sociais e nas Plataformas Digitais que a imagem da mulher sofre dos mais vis ataques, da parte de quem a tem em muito baixo conceito; de quem a vê de uma perspectiva enviesada; de quem a despreza simplesmente, sabe-se lá por que razão.

Somos todos testemunhas da degradação moral da nossa sociedade, que vem de um longo processo de subalternização dos valores inalienáveis na convivência entre as pessoas. No mundo, nem todos os cidadãos - homens e mulheres - levam a vida pelos caminhos mais aconselháveis do ponto de vista da decência. Aliás, a própria existência configura um percurso íngreme, exigente, tão difícil, que nem todos são capazes de o fazer dentro dos padrões. Fatalidades, acasos, azares, negligências, distrações, desastres, desgraças, incumprimentos estendem-se pela frente, erguendo obstáculos a quem quer apenas atingir as metas ou realizar-se.

Neste contexto, existe aquele que segue outros expedientes para acompanhar o curso da vida, que "não é meiga”, como alguém o dissera já. São homens e mulheres que buscam a sobrevivência por outros caminhos, às vezes não tão puros, mas nem por isso criminosos. São homens e mulheres - é preciso repetir - e não apenas senhoras, que agora parecem a ponta mais visível da degradação da sociedade, pela forma como são vilipendiadas nas Redes Sociais e nas plataformas digitais. Há, pois, representantes de ambos os grupos a seguir por caminhos "ínvios”.

Os "memes” com imagens e dizeres de baixo jaez, referindo-se às mulheres, já há muito tempo passaram o território do humor e do entretenimento. É o desrespeito puro e simples; é a desonra no seu mais alto esplendor; é a humilhação à figura da mãe, à imagem da cidadã, quantas vezes heroína, a combatente incansável das batalhas de todos os dias. É preciso algum pudor; urge contenção na hora de conceber e divulgar tão grotescas caricaturas que oferecem à sociedade um falso perfil da angolana. Felizmente, dela sobra ainda muito de edificante: também é trabalhadora, honesta, compreensiva, tolerante, companheira, resiliente. Existem sempre duas facetas de um mesmo ser humano, uma precisa de repreensão e correcção e outra serve de modelo; é para aplaudir, encorajar e trazer como exemplo.

Portanto, se é humor que perseguimos com a figura feminina, que o façamos com decência; que as desenhemos com decoro, que as descrevamos com equilíbrio; que com ela brinquemos, sim senhor, mas com moderação, sem que a deslustremos ou embaciemos. Não é aceitável o que as Redes Sociais e as  plataformas digitais nos dão a conhecer sobre as mulheres, as nossas, as angolanas. Não há dúvidas de que estas companheiras são, no conjunto da obra do Senhor, muito melhores do que mostra a caricatura que delas é disseminada na Internet.

Há como exercitar a crítica sem a ofensa moral; há como apontar condutas indecorosas sem injuriar, sem condicionar psicologicamente. E tem sido feito! Vivemos também numa sociedade demasiado intolerante para os deslizes da mulher, mas excessivamente permissiva e silenciosa para as imoralidades do homem. O machismo talvez seja o critério que leva a esta diferença de tratamento. 

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