Entrevista

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“O livro é uma revisitação crítica à História de Angola”

Manuel Albano

Jornalista

Com o romance “A Festa dos Porcos” o escritor Francisco Agostinho Dias Neto foi distinguido, este ano, com o Prémio Literário Sagrada Esperança, edição 2018. A obra, com 200 páginas, é uma ficção histórica centrada na era colonial, pondo em evidência as humilhações e as injustiças, bem como as crenças e as tradições das populações autóctones.

22/11/2020  Última atualização 17H04
Dias Neto autor de a festa dos porcos © Fotografia por: DR
Que importância teve a pesquisa oral para a construção da narrativa do livro "A Festa dos Porcos”?

A pesquisa oral foi a cereja no topo do bolo, sem a qual a obra não teria o mesmo impacto que teve. E não parei com o fim da escrita da obra. Continuo a recolher informações valiosas sobre o passado colonial de Icolo e Bengo.

Como e quando decidiu que "A Festa dos Porcos” seria o título do livro?

Felizmente a literatura permite várias interpretações a um texto literário e, neste diapasão, podemos também incluir este título. Como metáfora, o título casa perfeitamente com o enredo. Mas não foi este o propósito. Pode até parecer mentira, mas não é: a ideia de escrever o livro nasceu do título. Surgiu-me primeiro o título, depois só foi idealizar como chegar até ao mesmo.

O seu livro parece-nos intemporal, na medida em que aborda assuntos muito presentes na vida dos angolanos. A Independência Nacional é um facto, mas a independência económica ainda é uma realidade distante. Quer comentar?

Ficamos contentes por achar que a obra é intemporal, pois este é o maior desafio de quem abraça o ofício da escrita. E esta pergunta vem mesmo a calhar. Alguém, numa rede social, questionou por que se dá tanto crédito às obras literárias que abordam a era colonial. Para nós "A Festa dos Porcos” é uma revisitação crítica à nossa história, para mostrar que os propósitos da luta armada, hoje que estamos livres do jugo colonial, foram desviados. O anseio dos nativos foi frustrado. Precisamos de ir atrás da independência económica, com urgência.
 
Faz muitas vezes, no decorrer da narrativa, uma relação das diferenças entre a grande cidade e o campo, a tradição e o moderno...

O narrador procurou mostrar que estas diferenças continuam patentes até nos dias de hoje.
 
O livro parece transportar os leitores para um passado doloroso. É também o romance uma homenagem a todos aqueles que tombaram na Luta pela Independência Nacional?

É sim. A ideia é valorizar o grande sacrifício consentido, quer pelos nacionalistas nas matas, quer pelo povo nas sanzalas, para que nos tornássemos independentes. A nossa liberdade custou a vida de muita gente. Porém, preferimos, nesta homenagem, elevar cidadãos anónimos. E, se notou, estendemos a homenagem aos Kiezos, pelo papel que desempenharam na mobilização do povo para a luta, com as suas músicas.
 
A aldeia de Inácio parecia ser um bom lugar para se viver, não obstante as desgraças. A sensação com que se fica é que procurou recordar a máxima de Agostinho Neto "Aos nossos batuques, ao carnaval...” 

Já a obra estava editada, quando notei que a mesma cumpria cabalmente este desejo do Fundador da Nação. É das tais coisas que só o narrador saberia explicar...

O pequeno comércio e as profissões consideradas nobres também têm alguma relevância no romance. Procura chamar atenção para a maior valorização dessas artes e ofícios?

Sim, sim. Se reparar, hoje, quase não temos jovens costureiros, sapateiros... de oleiros então já nem se fala... é imperioso que resgatemos estas profissões, principalmente neste tempo de grandes dificuldades económicas. O pequeno comércio goza de um papel importante em qualquer economia. O processo migratório devia ser inverso, nos dias de hoje.
 
As personagens tio Chico dya Nguxi e tia Eva Capapa, seus avós, são as únicas verdadeiras na "Festa dos Porcos”?

Não. A maioria é. António Paciência e Emídio Dias, que são os "terroristas” que provocam a ida da tropa colonial à sanzala na noite do casamento, são pessoas reais, ainda vivas. Todos os familiares dos noivos são pessoas reais. Praticamente, as personagens criadas foram a Maria, sua família toda e o senhor Zeferino, que foi levado ao Posto Administrativo de Catete pelo Carrega-o-Tipo, este que foi uma figura real e grande carrasco dos aldeões de Icolo e Bengo, naquela era. Os comerciantes portugueses da sanzala são verdadeiros. Manuel Filho tem um filho a residir no Bairro Popular. Já o comerciante português de Luanda foi criado.

Sente que a juventude tem estado atenta e participativa nas grandes transformações em todos os segmentos da vida do país?

Sinto sim. Os jovens têm participado das grandes transformações na sociedade. Em vários sectores. E isto está visível a todos os olhos. No que à literatura diz respeito é bastante encorajador o que estão a fazer os jovens escritores. As últimas quatro edições do Prémio António Jacinto foram ganhas por jovens. Hoje fala-se mais de livros. Isto dá esperança para um país com mais gente com pensamento crítico.
 
Como jovem, tem utilizado a escrita para transmitir valores ou tem na escrita meramente um instrumento de diversão e lazer?
A diversão foi no princípio. Usava os textos para puro deleite dos meus amigos virtuais. Actualmente, procuro usar a escrita para ajudar a corrigir o que anda errado. Abracei este desafio e faço-o, principalmente, com os textos que publico semanalmente num jornal nacional, embora nunca falte a paródia nos meus escritos.
 
Quais os desafios que impõe a si próprio no mundo da literatura e quem são as suas referências literárias nacionais e internacionais?
O meu maior desafio na literatura é conseguir ser uma influência positiva na sociedade, poder contribuir para que tenhamos um país mais justo. Praticamente, na literatura, não tenho referências internacionais. Já nacionais são muitas. O nosso país tem bons escritores. Gosto de ler Fragata de Morais, Boaventura Cardoso, Pepetela, Roderick Nehone, etc. Mas tenho um olhar muito especial à escrita de Arnaldo Santos e Luís Fernando, porque sou um fiel sequaz do texto curto, especialmente crónicas. 

PERFIL
Dias Neto
nasceu em Luanda, em 1980. É funcionário público. Estudou Secretariado Executivo e Comunicação Empresarial na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto. Estreou-se na literatura em 2019, com o romance "O Taxista”, vencedor do Prémio Azul, concurso instituído pela Polícia Nacional. Tem textos publicados no Jornal de Angola, jornal Cultura e na revista digital Palavra & Arte. Textos seus estão insertos na colectânea "O Kandongueiro”, lançada pela Editora Massona, nos e-books "Escritos de Quarentena”, das Edições Handyman, e "Crónicas Tão Brancas de Azul”, da revista Palavra & Arte. Actualmente escreve aos domingos para o jornal O País. Tem no prelo o livro "O Capitão de Inácio e Outros Contos”.

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