Entrevista

Entrevista

O líder dos que sobrevivem do lixo

Ferraz Neto

Jornalista

Nuno Cruz trilhou um longo caminho até chegar onde está. Hoje é uma referência para muitos jovens no domínio do empreendedorismo ambiental e tornou-se presidente de uma cooperativa de catadores de lixo instalada na Centralidade do Kilamba. Depois de comer o pão que o diabo amassou, como soe dizer-se, Nuno Cruz, hoje, é um nome que dispensa apresentação. Dá palestras sobre meio ambiente até no exterior. É visto como professor de ecologia e cidadania.

14/11/2021  Última atualização 08H45
Nuno Cruz © Fotografia por: DR
Permita-me que comece a entrevista com uma charada. É conhecido como o líder dos que sobrevivem do lixo...

Sim. Realmente lidero um pequeno grupo de jovens "catadores” que exercem actividade de recolha de resíduos sólidos desde 2017.
Um dos principais problemas encontrados nas cidades, especialmente nas grandes como Luanda, são os resíduos sólidos resultantes de uma sociedade que a cada dia consome mais...
O problema dos resíduos sólidos urbanos deve-se muito ao crescimento populacional, à falta de educação ambiental e à ineficácia de uma política nacional de gestão de resíduos sólidos urbanos. O crescimento demográfico é um dos principais factores deste problema porque, na medida em que aumenta a população, aumentam as necessidades de consumo. Infelizmente este consumo não é efeito de forma racional, a sociedade tem se tornado cada vez mais consumista de produtos não biodegradáveis ou recicláveis.


Qual a diferença entre aterro sanitário e local de depósito de lixo? Os depósitos são locais adequados para armazenar o lixo?

Aterro sanitário é um local destinado à decomposição final de resíduos sólidos gerados pela actividade humana. Nele são dispostos resíduos domésticos, comerciais, da indústria de construção e também resíduos sólidos gerados em esgoto, ao passo que locais de depósito de resíduos são normalmente criados em zonas suburbanas e periurbanas, por exemplo, escavação de buracos ou locais baldios.

    
É comum em bairros não assistidos por empresas de recolha de resíduos o depósito em locais impróprios. Vozes há que sugerem que os municípios deveriam dispor de espaço físico para aterros. Concorda?

Infelizmente ainda assistimos isso em bairros, sobretudo periféricos sem os serviços de limpeza e recolha de resíduos, facto que coloca muitas pessoas em risco constante de contaminação de doenças. Nós entendemos que os serviços de limpeza e recolha de resíduos sólidos urbanos deveriam ser municipalizados; não concordo com a construção de aterros, tendo em conta a existência de meios tecnologicamente avançados para o tratamento de resíduos. Na minha visão, temos de investir em usinas com capacidade de gerar energia térmica e gás, uma vez que Angola comprometeu-se, recentemente na COP-26, a apostar na transição energética até 2025.


Uma das propostas da Nação Verde, da qual é líder, é a implantação de ecopontos em diferentes partes da cidade de Luanda. Quantos municípios foram contemplados? Como é que o processo está a ser desenvolvido?

A Associação Nação Verde lançou em Novembro do ano passado a experiência piloto na Centralidade do Distrito Urbano do Kilamba com seis ecopontos e em duas escolas do Distrito Urbano da Maianga. O projecto conta com o apoio institucional da Agência Nacional de Resíduos e pretendemos levá-lo para outros municípios, mas por enquanto o nosso foco é cobrir toda a Centralidade do Kilamba, atendendo o número de resíduos gerados naquela circunscrição. O processo decorre a bom ritmo, temos sensibilizado cada vez mais pessoas a separarem os seus resíduos a partir de casa e os entregar nos nossos ecopontos.

 
Não acha que a educação ambiental passa também por uma perspectiva económica?

A educação ambiental está consagrada no Artigo 20 da Lei nº 5/98 de 19 de Junho – Lei de Bases do Ambiente, cujo número 1 do referido Artigo estabelece o seguinte: "A educação ambiental é a medida de protecção ambiental que deve acelerar e facilitar a implementação do Programa Nacional de Gestão Ambiental, através do aumento progressivo de conhecimento da população sobre os fenómenos ecológicos, sociais e económicos que regem a sociedade humana”. Não será possível falar em desenvolvimento sustentável se não tivermos como base a educação ambiental. O Ambiente é transversal e a sua transversalidade não pode estar desassociada da educação ambiental e da perspectiva económica.


Além da dificuldade financeira, por quais motivos os munícipes têm dificuldade de aderir aos ecopontos?

A dificuldade prende-se com o conhecimento por parte de muitos cidadãos, que nunca sequer ouviram falar em ecopontos, muito menos em recolha selectiva. A implementação deste sistema requer um investimento quer na educação ambiental formal, quer informal. É urgente um investimento neste sector no sentido de entrarmos, de facto, na rota do desenvolvimento sustentável.


Apesar da sua juventude em termos etários, é um homem comprometido com um ambiente sadio. Fale-nos do projecto "Meu Resíduo, Minha Responsabilidade”?

O projecto "Meu Resíduo, Minha Responsabilidade” é da Associação Nação Verde, que tem como objectivo ajudar na melhoria da qualidade ambiental do nosso país através de programas de sensibilização e educação ambiental nas comunidades. Temos como propósito implementar ecopontos em todas as escolas do I e II ciclo da nossa capital, numa primeira fase. O projecto está a ajudar significativamente no aumento da renda de inúmeras famílias que vêm na actividade de recolha de resíduos sólidos urbanos o seu meio de subsistência. Desde o lançamento do projecto foi possível integrar 90 mulheres que outrora exerciam esta actividade em contentores de lixo comuns.


É possível perceber melhorias desde o lançamento do projecto em 2020?

Sim, desde o lançamento do projecto foram sensibilizados um número aproximado de 10 mil pessoas com idades compreendidas entre os 5 e os 60 anos de idade. Foi possível de igual modo recolher dos nossos ecopontos, da limpeza de praias e ao domicílio acima de 20 toneladas de resíduos sólidos, que posteriormente foram entregues às fabricas e indústrias recicladoras.


Concorda com a frase: "O lixo pode ser reciclado. O lixo é dinheiro”? Há empresas que deveriam adoptar este lema, não acha?

Concordo! Os resíduos sólidos urbanos quando valorizados geram valores económicos para qualquer país. Hoje é possível assistir uma franja da sociedade a fazer da actividade de recolha de resíduos sólidos a sua fonte principal de rendimentos. Acredito que daqui a 10 anos este sector poderá ser o principal contribuinte do Produto Interno Bruto (PIB). As empresas produtoras de resíduos no âmbito da sua responsabilidade coorporativa não só deveriam adoptar o referido lema como devem contribuir mais para a promoção da logística reversa e da economia circular.


Quais os desafios do projecto "Meu Resíduo, Minha Responsabilidade”?

Um dos principais desafios é sensibilizar 1/3 da população de Luanda até 2022 sobre a necessidade de se reduzir o consumo de produtos que não sejam biodegradáveis ou recicláveis, bem como colocar ecopontos em todas as escolas da capital até 2023.


Como dar conta dos resíduos gerados numa época em que a obsolescência tecnológica e o consumo de produtos embalados imperam e, obviamente, se descartam mais resíduos sólidos com destaque para o plástico, de modo geral?

A solução passa por sensibilizar e educar os cidadãos, criar uma política nacional de gestão de resíduos sólidos urbanos, adoptar padrões de consumo sustentáveis bem como a criação de normas eficazes que visam punir os poluidores.


Como avalia a polémica em torno da não distribuição de sacolas plásticas em alguns supermercados? Essa medida pode contribuir para diminuir a produção de resíduos plásticos?

Está mais do que provado que é urgente mudar este paradigma, atendendo aos estudos científicos que apontam que este tipo de resíduo leva mais de 400 anos para se degradar na natureza, causando impactos negativos ao equilíbrio ambiental. Este tipo de resíduo é a principal ameaça para a biodiversidade marinha. Conforme alerta da ONU "até 2050 teremos mais plásticos do que peixes nos oceanos”, caso não se reduza o consumo, imediatamente, do plástico de uso único, razão pela qual muitos são os países que já baniram a entrada deste tipo de resíduos, como é o caso do Ruanda.


O senhor é um homem com olhar frequente para o chão. Está atento a quase tudo que é lata, plástico ou objectos ferrosos. É possível viver como catador em Luanda?

Apesar da crise financeira que assola o nosso país, sobretudo agudizada pela Covid-19, vai se assistindo ao aparecimento de cada vez mais empresas no sector da reciclagem, facto que influencia na procura e oferta dos resíduos sólidos urbanos. Ainda não é satisfatório para o muito que se ganha com a venda de resíduos sólidos urbanos. Para tornar esta actividade satisfatória, o Executivo deve criar políticas atractivas para quem pretende investir neste sector, concedendo isenções fiscais aos empresários.  


PERFIL

Nome completo : Nuno Alexandre Francisca da Cruz

Data de nascimento - 12 de Dezembro de 1990

Naturalidade: Angola

Filiação - Alexandre da Cruz e Conceição Ângela Francisco

Estado civil -Solteiro

Nome do cônjuge -Rebela Botes

Filhos - Evan Cruz, Kimora Cruz e Cattleya Cruz

Cor predilecta - Verde

Defeito - Teimoso

Prato preferido - Massa com atum

Passatempo - Ler

Local para férias -Cabo-Verde

Cidade predilecta -Huambo

Tem casa própria? -Sim

Tem carro próprio?-  Não

Sente-se realizado?- Sim

Sonho -Ter uma indústria de reciclagem de resíduos

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