Opinião

“O largo da peça”, o texto e a encenação

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Quem ainda não viu “O Largo da Peça”, a obra de teatro escrita por Ana Andrade, vencedora do 1º Prémio da Primeira Edição do Concurso Nacional de Dramaturgia-Leituras Assistidas (2021), - por isso, uma autora a acompanhar -, organizado pelo Centro Cultural Brasil Angola e que, faz cerca de um mês, vem sendo apresentada no Teatro Elinga, é melhor ir ver: depois não digam que eu não avisei!

09/11/2021  Última atualização 09H55
Se, por acaso, não poderem ir mesmo, - coisa que, de certeza, lamentarão -, ao menos, tentem ler a obra: pela forma em que está escrita, pelo paradoxo de, em determinadas cenas, ser também um esforço de entender (sem desculpar-se de ninguém) a dor e os traumas da colonização, incluindo pela frescura com que recria um segmento da nossa história recente é, quiçá, uma das leituras mais gratas que terei feito, ultimamente: é, desde já, pela época que retrata uma contribuição singular à História do teatro em Angola.

Para aqueles que ainda não a foram ver, não vale a desculpa de que não têm tempo: por um lado, ela continua em cartaz e poderá ser vista ainda nos próximos dias 11, 12, 18 e 19 de Novembro. E, por outro, a obra, uma edição da Handyman (2021) está disponível nas bibliotecas do Centro Cultural Brasil Angola e na do Centro Cultural Português. Também não vale evocarem como desculpa o preço da entrada, que custa cinco mil kwanzas para o público em geral, mas os estudantes têm desconto; apresentando o cartão, o preço é de mil e quinhentos kwanzas.

Sem intenção de fazer spoiler, qualquer coisa que vos permita saber o que acontece antes dos leitores interessados irem ver a peça de teatro direi, apenas, que a história que "O Largo da Peça” conta, ocorre nos anos 70 do século passado, num quintal em Benguela: a obra foi encenada por José Mena Abrantes, a direcção e a produção é de  Orlando Sérgio.

No entanto, faço aqui constar: quando, no dia da estreia, vi a peça fiquei impressionado, porventura até mesmo impactado, com uma personagem que aparece pouco, ouvimo-la muito mais, sabemos que está aí e que é o fantasma do colono, da colonização e dos estragos de um e de outro, no tecido social.

Têm passado em cena, no Elinga Teatro, ao longo destas semanas: Amor de Fátima Luzolo, Yolanda Viegas, Luz Feliz, João Paulo Eleveny, Madaleno Fonseca e Honório Santos. As belas fotografias da peça para a comunicação e divulgação foram feitas pela fotógrafa Mwana Pwo, imagens estas que vocês as podem ver nas páginas do Elinga Teatro, nas redes sociais.

Se importa frisar aqui a importância da leitura do texto de "O Largo da Peça” é porque, na verdade, ao teatro sério que não é nada parecido nem ao labor dos simples declamadores, nem àqueles cultores desketches em que se distribuem diferentes papéis para fazer passar uma mensagem cívica ou moral rápida, nem muito menos uma (quase) brincadeira inocente em que, de modo espontâneo, gente aficionada repete a fala de personagens sem encarnar realmente o papel que deve representar.

A este tipo de teatro bem pensado, coerente, elevado, profissional e esteticamente bem concebido e encenado cheguei antes, ainda no início da idade adulta e por via da leitura, ao texto do que a encenação: fi-lo através de peças clássicas do teatro grego, num tempo em que eu adorava especialmente o "Édipo Rei” de Sófocles, uma tragédia que não deixa indiferente a ninguém.

 É, por isso, que sempre que possível gosto de ler a peça de teatro antes mesmo de ir vê-la, a ser encenada, numa sala de teatro; é, também, por isso, que há duas semanas, depois de ter assistido a estreia de "O Largo da Peça”, no Teatro Elinga, sem a ter lido antes e ficar com desejo de saber mais da história que nos contam, achei por bem localizar o texto.

Querer  ler a peça de teatro antes de ir assistir  a  sua representação no teatro é um mau hábito meu, uma vez que a encenação de uma peça resulta de múltiplas e infinitas interpretações e actualizações, de diferentes directores de texto, do texto que lhe dá origem. Ainda bem que o fiz, porque só senti-me realmente pleno e com a sensação de ter desfrutado de um prazer redobrado ao ler a peça de teatro; é como se só depois da revisitação de toda a história, tudo o que vira no dia da estreia e tudo o que vivo, no mundo real, fizesse mais sentido.

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