Opinião

O lado negro de Portugal

João Melo*

Jornalista e Escritor

O jornalista angolano Carlos Gonçalves, radicado em Lisboa, onde colabora com a RDP-África, publicou no passado domingo, 9, um post no seu Instagram manifestando a sua indignação com o silêncio da imprensa portuguesa em relação ao Campeonato Africano de Futebol (CAN), cuja 33ª edição começou nesse dia em Yaoundé, capital dos Camarões, com uma vitória da selecção da casa por 2 a 1 contra o Burkina Faso.Participam no torneio 24 selecções, entre as quais duas de países de língua portuguesa: Cabo Verde e Guiné-Bissau.

12/01/2022  Última atualização 06H45
Escreveu ele: -"É no mínimo uma tremenda falta de consideração pelos milhões de afrodescendentes que vivem em Portugal, amam o futebol e subscrevem os canais desportivos.” Depois de recordar o protagonismo histórico de numerosos futebolistas africanos em Portugal, Gonçalves acrescentou que o silêncio da imprensa local "deita por terra toda a lengalenga” acerca da importância de África para a sociedade portuguesa.

A verdade é que a postura geral da imprensa portuguesa, incluindo a pública, sobre a actualidade africana é, normalmente, de ignorância e desprezo, o que – isso tem de ser dito – é uma atitude ideológica, pois todos os dias há uma série de factos que ocorrem no continente africano e cujo interesse jornalístico é inegável. Se, por exemplo, compararmos a cobertura de África feita por dois jornais europeus como o Le Monde e o El Pais com o tratamento dado pelos jornais e televisões portuguesas, a conclusão será vergonhosa para estes últimos. E, por favor, não invoquem a RTP e a RDP África. Com o devido respeito pelos seus profissionais, tais veículos correspondem à visão de que o gueto é o lugar indicado para África e os africanos. Preciso de adjectivar tal visão?

Para reconfirmar todas estas impressões, fiz um pequeno exercício no início desta semana: li as edições online do Le Monde e do El Pais da última segunda-feira, 10. Além da cobertura do CAN, que foi manchete em ambos os jornais, li um considerável volume de notícias sobre África, as quais, entretanto, não mereceram uma linha da imprensa portuguesa. Abaixo, um pequeno resumo dessas notícias.

O activista egípcio de origem palestina, Ramy Shaat, detido em sua casa no Cairo no dia 5 de Julho de 2019, foi libertado pelas autoridades egípcias e chegou a Paris no passado sábado, 8, com uma condição: teve de renunciar à sua nacionalidade egípcia. Shaat foi uma das figuras de destaque na fracassada "Primavera Árabe” no Egipto e é igualmente conhecido pela sua militância a favor de uma Palestina "independente e estável”.

Os presidentes da Comunidade de Desenvolvimento da África Ocidental (CEDEAO) fecharam as fronteiras dos seus países com o Mali e suspenderam todas as transacções comerciais com este último, até que as autoridades malianas aprovem e divulguem um calendário eleitoral confiável. O Mali é governado desde Maio de 2021 por uma junta militar chefiada pelo coronel Assimi Goita, que pretende realizar eleições apenas dentro de cinco anos (depois de ter prometido fazê-las no presente ano).

Na Etiópia, o Primeiro-Ministro, Abiy Ahmed, anunciou no dia 7 deste mês, data do Natal etíope, uma amnistia para 37 figuras da oposição, surpreendendo a maioria dos políticos locais. O país, recorde-se, vive há 14 meses uma guerra civil. A intenção de Ahmed, depois que as autoridades conseguiram, em Novembro do ano findo, rechaçar uma ofensiva das forças rebeldes, é reaver a iniciativa política, jogando a cartada do "equilíbrio”. Para isso, propôs um "diálogo nacional”, no qual deverão participar algumas das figuras amnistiadas.

Uma experiência de vacinação contra a malária em três países africanos poderá ser estendida a partir deste ano para o resto do continente. A Mosquirix tem sido utilizada em áreas endémicas do Quénia, Gana e Malawi desde 2019. Até agora, os resultados são esperançosos. Nos três países, reduziram-se os casos de malária entre crianças menores de cinco anos, assim como as complicações decorrentes da doença, como a anemia.

Na Tunísia, as autoridades têm recorrido cada vez mais à repressão, como não se via desde o fim da ditadura, em 2011. O vice-presidente do partido islamita Ennahda e antigo ministro da Justiça (2011-2013), Nordin Biri, foi detido no último dia do ano passado por agentes à paisana, sem qualquer ordem judicial. "Isto recorda a época das desaparições forçadas, das detenções secretas, dos julgamentos injustos perante tribunais militares e do uso indevido de medidas de excepção”, acusou Said Bernabia, da ONG Comissão Internacional de Juristas.

Termino com uma constatação necessária: o discurso institucional (que é muito mais do que "oficial”) português sobre as relações com África é uma grande mistificação. Os africanos estão em Portugal desde o século VII (primeiro os mouros e berberes e depois, a partir do século XV, os originários da Região Subsaariana) e o referido país foi a nação europeia que durante mais tempo manteve as suas colónias em África. Mas a sociedade tem dificuldades em assumir o seu lado negro (com ou sem trocadilhos, como quiserem os leitores).

*Jornalista e escritor

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