Cultura

O inesquecível intérprete de “Enquanto espero”

Manuel Albano

Jornalista

Como a carreira artística na esfera familiar não era bem vista, apenas em 1973 o autor que imortalizou o sucesso “Enquanto espero” decide romper o preconceito dos progenitores e definitivamente assumir a veia artística, numa época em que os músicos tinham a fama de “levianos e mulherengos”. Hoje, casado e pai de dois filhos, Carlos Baptista, por uma questão de carácter, conta que sempre foi um jovem bastante selectivo nas relações amorosas, para evitar ter um agregado familiar extenso.

06/06/2021  Última atualização 10H18
© Fotografia por: Vigas da Purificação | Edições Novembro
No estrangeiro, explicou, em entrevista ao Jornal de Angola, tem uma admiração muito especial pela trajectória artística e o romantismo assumido pelo cantor brasileiro Roberto Carlos. No país, aprecia os cantores Carlos Lamartine e Artur Nunes, pela originalidade.
 

"Enquanto espero”

Tema bastante aclamado nos espectáculos, farras de quintal e sentadas familiares, inclusive quase como uma obrigação nos ambientes festivos com a carga nostálgica do antigamente, "Enquanto espero”, de acordo com o autor, que está prestes a completar 70 anos, tem uma história engraçada. Recorda que a música foi feita em 15 minutos. "Foi um pedido da minha falecida prima Rosa, que na altura só tinha 16 anos. Não tinha inspiração para escrever a música, tinha muitas dificuldades para compor o tema, porque não me revia no mesmo”.

Com o passar do tempo, Carlos Baptista compôs o tema "Amar faz crescer” e pôs-se a terminar uma outra canção. Anos depois, em Agosto de 1984, a prima Rosa volta a cobrar. Foi assim que decidiu compor o tema em homenagem a ela. "Muitos pensam que é uma vivência pessoal, mas não. A música é o retrato da personalidade da Rosa, que era uma menina muito carinhosa e feminina. É aquela mulher que até tarde nos faz esperar, mesmo a madrugada”.
Para o cantor, a sua prima espelha a mulher que um homem desejaria ter como companheira. "É uma canção intemporal e acredito mesmo que vai ser recordada por muitos anos”, profetiza.


Os incentivos

Carlos Baptista é de opinião que a falta de incentivos e de políticas protecionistas para alavancar as actividades artísticas e culturais, de maneira sistematizada e consistente, tem sido um dos maiores entraves ao desenvolvimento da música no país. Com vários projectos em carteira, o músico diz que tem sido a falta de patrocinadores a condicionante para a materialização dos seus projectos artísticos. "Não lanço disco ao longo desses anos por falta de um patrocinador. Custear uma obra discográfica individualmente não tem sido fácil para os músicos no país, sobretudo os da antiga geração, que muito precisam de apoios institucionais”, alerta.


Na década de 1990, o encerramento dos centros recreativos e culturais em Luanda tornou-se um obstáculo para a carreira dos artistas, o que levou ao desemprego de muitos deles. "A falta de transmissão de conhecimento aos mais jovens deve-se também à falta de espaços para a troca de experiências no domínio artístico-cultural”, defende.

Aos 25 anos Carlos Baptista já era administrador de empresas privadas, chegando a ser director comercial e financeiro. Teve várias funções nas empresas por onde passou. Por causa da dificuldade de conciliar o trabalho e a música, em 1986 foi obrigado a abandonar o emprego e a  dedicar-se inteiramente à música. "Os patrões reclamavam sempre da minha ausência no local de trabalho, por causa das constantes saídas para as actuações, viagens e entrevistas”, afirma. "Optei pela música, que me dava um rendimento superior ao que ganhava como funcionário”.
Mas posteriormente, com a falta de espaços para a realização permanente de concertos e a falência das empresas privadas, Carlos Baptista garante ter ficado bastante prejudicado. "Aqueles colegas que trabalhavam para o Estado foram reconduzidos para outras empresas estatais e sempre tiveram uma garantia salarial. Nós que trabalhávamos no privado vivemos uma situação complicada”, explica.

Por causa dos constrangimentos da vida artística, sempre encorajou os filhos e netos a seguirem outras profissões. "Infelizmente estou sem qualquer motivação para incentivar um filho ou neto a seguir carreira artística, a desilusão é tão grande que não consigo aconselhar ninguém a seguir a carreira musical”, lamenta.
Apesar dos constrangimentos da vida, Carlos Baptista nunca se deixou ultrapassar no tempo e no espaço. Para melhorar a performance harmônica e vocal decidiu entrar na escola de música "Mimbo”, dando sequência na escola de música "Futurolândia”.



Reconhecimento

Bonga é, para Carlos Baptista, uma das maiores referências da música angolana e o maior representante de Angola na diáspora, enquanto Matias Damásio e Paulo Flores estão entre os melhores compositores nacionais, tal como   Anselmo Ralph, pelo seu valor artístico. "O nosso mercado é fértil em bons compositores e intérpretes e isso é bom para ajudar a tornar o mercado muito mais competitivo”, ressalta.
 

Aceitar os erros

Profundo observador e conhecedor da matéria, Carlos Baptista reconhece que existem ainda muitas coisas por se fazer em prol do crescimento da música no país. Afirma que em todo esse processo, ao longo dos anos, "existiram erros que o Estado angolano deve assumir”, mesmo que tenham acontecido por questões conjunturais.
Na sua visão, deve-se encontrar consensos e arranjar forma de recompensar os músicos da antiga geração que muito contribuíram para que o país fosse livre da opressão colonial, levando mensagens de encorajamento, por via da música, ali onde os discursos políticos não chegavam. "Os nossos jovens são bons no que fazem, mas estão muito distantes da realidade angolana”.

A função do Estado, recorda, é criar um ambiente salutar, capaz de ser atractivo, no sentido de ajudar o cidadão facilmente a conseguir um emprego, "o que tem sido um processo muito moroso e constrangedor”. Recorda que no passado aproximadamente 300 músicos, em todo o país, beneficiaram de programas culturais bem elaborados. Isto nas décadas de 70 e 80, por iniciativa do então director nacional da Massificação Cultural da antiga Secretaria de Estado da Cultura, o saudoso André Mingas.

Na sua perspectiva, o Estado, através do Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, deve criar políticas de recuperação dos músicos da antiga geração. "É importante que se criem parcerias com os centros culturais, por forma a ajudar a manter os músicos sempre no activo. Nós girávamos por todos os centros culturais e isso possibilitava que os artistas estivessem sempre no activos”.
Quando não está directamente ligado à criação musical, Carlos Baptista gosta de assistir televisão, jogar sueca e estudar música. E aprecia muito o futebol. "Tenho uma simpatia pelo Barcelona e o Manchester City. Internamente pelo Petro de Luanda e o 1º de Agosto”.
Os constrangimentos financeiros têm estado a afastá-lo dos filhos e da família, o que o incomoda bastante. Diz mesmo que a crise financeira, actualmente, tem sido a causa da destruição de muitas famílias angolanas. "Sobrevivo com o dinheiro de reformado pela União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-SA), que não chega para suprir as minhas necessidades, e de alguns convites para actuações”, diz.
Biografia

Filho de Joaquim Domingos Baptista e de Maria Domingos, Carlos Baptista gravou em 1979 as canções "Kuzuelesa” e o "Tempo aliado da razão”, na Rádio Nacional de Angola (RNA), altura em que começou a colaborar com o agrupamento musical "Diamantes Negros”, com Zecax, Dina Santos, Mamukueno e Santocas (vozes), Baião (guitarra solo), Betinho Feijó (guitarra ritmo), Zeca Pilhas Secas (guitarra baixo), Massikoca (teclados), Robertinho (voz e bateria), Jesus (tumbas), Domé Mputo, Conceição e Jesus Diogo (metais).

Em 1980, Carlos Baptista venceu o concurso do programa radiofónico "Para Jovens”, da RNA. Nesse mesmo ano viajou com o agrupamento "Diamantes Negros”, da então Secretaria de Estado da Cultura, a São Tomé, Portugal, Polónia, República Democrática Alemã e União Soviética.
Em 1986, Carlos Baptista gravou o seu primeiro álbum, "Esboço”, pela Sonovox, tendo obtido o segundo lugar no Top dos Mais Queridos com a canção "Enquanto espero”. Em 1987, obteve o sexto lugar no Top dos Mais Queridos com a canção "Imaginação”.

O seu segundo disco, "A Promessa”, surgiu em 1992, pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD). No dia 11 de Novembro de 2010, lançou o terceiro disco "Sempre Amigos”, com a chancela da LS Produções e apoio financeiro do então Ministério da Cultura.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Cultura