Opinião

O herói e o vilão nas presidenciais brasileiras

As eleições presidenciais de domingo, no Brasil, que ditaram o regresso vitorioso de Lula da Silva ao poder e a derrota de Jair Bolsonaro, reúnem todos os ingredientes de um conto de fadas, apesar da dureza das batalhas travadas pelo ex-Presidente, que, ao conquistar o direito de residir novamente no Palácio da Alvorada, vê restaurado na plenitude, diante de tudo por que passou, o tratamento com sentido de justiça que lhe é devido.

04/11/2022  Última atualização 06H30

Aliás, a trajectória política do ex-sindicalista metalúrgico é, ela própria, uma epopeia. Mas são os acontecimentos desta última meia década e tanto de vida de Luís Inácio Lula da Silva, já com 77 anos de idade, que reforçam o seu estatuto de lenda viva da política brasileira.

Depois de ter dirigido com sucesso a luta sindical, Lula cumpriu de forma brilhante dois mandatos no comando dos destinos do Brasil (de 2003 a 2006 e de 2007 a 2011). As políticas de crédito implementadas pelo seu Governo tiveram como resultado positivo fazer emergir uma nova classe média, geraram anos de crescimento económico e o aumento do consumo. O compromisso com as regras da economia de mercado consolidou as alianças com as forças do centro e da direita e o seu prestígio político cresceu ainda mais. Tanto que, no final do mandato, Lula deixou o cargo com uma taxa de popularidade elevada, acima dos 70 por cento.

Em 2011 Lula da Silva afasta-se para dar lugar a outros actores políticos. Ainda nesse ano é diagnosticado com um cancro na laringe, sendo submetido a um longo tratamento para debelar a enfermidade. Longe dos palcos, intervindo entretanto nos bastidores e colocando a sua experiência à disposição dos seus correligionários do Partido dos Trabalhadores (PT), vai acompanhando os acontecimentos.

O seu legado (reformas económicas e sociais e pacto com as forças conservadoras de direita) é forte e, apesar de sinais de esgotamento do modelo, é uma construção que deu frutos e pode ser aperfeiçoada na perspectiva de um Brasil mais equilibrado, social e economicamente, e mais plural, garante da paz social e política que o país precisa para prosperar.

Todavia, no horizonte começaram a desenhar-se os sinais de acérrima confrontação política.  Em 2015 a "Operação Lava Jato” investiga figuras de destaque do seu Governo. Lula é chamado a depôr como testemunha em casos em que aliados seus foram, primeiro, acusados, e, depois, presos e condenados por corrupção. Em Agosto de 2016 Dilma Rousseff é afastada do cargo de Presidente da República.

Em Fevereiro de 2017 Lula da Silva perde a esposa, Marisa Letícia Lula da Silva, depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral. Em Julho de 2017 o juiz federal Sérgio Moro condena o ex-Presidente a nove anos e seis meses de prisão por alegada corrupção na recepção de um apartamento em São Paulo em troca da promoção de interesses da Odebrecht junto à Petrobrás. Em Março de 2018 o Tribunal Regional Federal da 4ª Região rejeitou por unanimidade os recursos apresentados pela defesa. Em Abril de 2018 o Supremo Tribunal Federal recusa o pedido de "habeas corpus” a seu favor e Lula vê, então, decretada a sua prisão, numa altura em que as sondagens davam-no como líder nas intenções de voto.

Embora tenha sido registado como candidato oficial do PT, não pode concorrer e foi substituído por Fernando Haddad, entretanto derrotado, na segunda volta, por Jair Bolsonaro.

Lula só foi solto a 8 de Novembro de 2019, depois de permanecer 580 dias na prisão,  depois de uma nova decisão do Supremo Tribunal Federal considerar que o seu encarceramento, após condenação em segunda instância, era inconstitucional e que os réus só podem ser presos após trânsito em julgado da sentença, ou seja, depois de esgotadas todas as possibilidades de recurso. O STF acabou por encontrar uma série de irregularidades - os processos não deveriam ter corrido na Justiça de Curitiba e que o julgamento não foi imparcial - que levaram a considerar nulas as condenações ditadas contra o ex-Chefe de Estado.

Lula não esteve só na travessia desse calvário e na luta para provar a sua inocência em relação aos casos de corrupção, alguns cometidos por pessoal da sua entourage mas que desconhecia, tendo-se mesmo declarado "traído” quando, em 2005, veio a público o caso "mensalão”, esquema da compra de votos no Congresso.

Os apoios que recebeu de companheiros de caminhada política, de vários estadistas e o papel jogado pela socióloga e militante do PT Rosângela Silva (Janja), com quem contraiu matrimónio em Maio deste ano, foram determinantes para que o ex-operário metalúrgico, que se tornou Presidente de um dos maiores países da América do Sul, que governou com sucesso durante dois mandatos, que terminou funções com elevada taxa de popularidade, que foi constituído presidiário à margem da lei, lutasse com todas as forças para impedir o seu enterro político.

O destino está a encarregar-se de dourar com as marcas da ficção o percurso de vida de Luiz Inácio Lula da Silva, que, ao vencer, por margem apertada - 51 por cento contra 49 -, as eleições de domingo, ressurge como o reformador, o salvador dos valores do Brasil democrático.

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