Opinião

O glorioso regresso do sabão azul

João Dias

Jornalista

Acantonado, perdão, isolado em casa desde antes da entrada em vigor do primeiro período de Estado de Emergência, “através” do Covid-19, tenho pensado muito no sabão azul.

15/04/2020  Última atualização 06H00

 Não faço a menor ideia se ele já regressou a todas as nossas casas, mas espero bem que sim. À falta (por enquanto) de um tratamento ou de uma vacina para enfrentar o inimigo invisível que surpreendeu a humanidade inteira desde o fim do ano passado, a higiene, a par do isolamento social e da etiqueta pessoal, é o melhor remédio para não perdermos o controlo da pandemia.
Imagino que, embora o novo coronavírus pareça altamente democrático, na medida em que não distingue países, raças, classes sociais, idade, género, ideologia e outros factores que estão por detrás dos vários ismos que nos separam, a maneira como cada um está a fazer-lhe frente está longe de sê-lo. Óbvia e previsivelmente, quanto mais alto se sobe na escala social, em todo o mundo, melhor os diferentes grupos sociais resistem ao Covid 19.
O raciocínio acima explica, no caso dos países pobres, a tese quase unânime de que, neles, a paralisação total das actividades económicas pode ser mais prejudicial do que benéfica para a imensa maioria de cidadãos, que vivem do trabalho informal. Não sendo isso, porém, o que pretendo abordar hoje nesta coluna, não posso deixar de manifestar dois pontos de vista: primeiro, a grande prioridade parece-me ser salvar vidas, pois, sem pessoas não há economia; segundo, quando mais cedo forem tomadas medidas para salvar vidas, mais cedo, igualmente, a economia poderá ser retomada, de preferência de maneira gradual e segura.
Dito isso, reitero as saudades que tenho experimentado do velhinho sabão azul. A classe média certamente há muito deixou de usá-lo, substituindo-o por outros produtos baptizados com marcas glamorosas, que, não apenas por ignorância, mas também por recato, evitarei nomear. E os pobres? Será que estão a usá-lo, como recomendado pelas autoridades sanitárias em quase todo o mundo, excepto em dois ou três países actualmente submetidos a lideranças delirantes?
Não o sei, claro. Mas essa é uma das minhas expectativas: que, no pós-Covid 19, o hábito de lavar as mãos e manter a higiene pessoal a todo o custo se torne ainda mais generalizado, passando, em sociedades como a nossa, infelizmente dominadas pela pobreza e a ignorância (por detrás dos fatos de três peças e do respectivo laçarote), seja ensinado em todas as escolas.
A sugestão pode parecer pueril, mas, pelo menos pela parte que me cabe, há muito, antes mesmo do surgimento da actual pandemia, que eu vinha reparando num facto que me deixava estupefacto e perturbado: muita gente usava os W.C.s de determinados locais públicos, como shoppings, cinemas e outros, em várias cidades do mundo por onde eu passava, e simplesmente saía dos referidos recintos sem lavar as mãos. Confesso que eu ficava aterrorizado com tamanha displicência.
Recordo que desde o século XIX que está demonstrado cientificamente que lavar as mãos é uma medida de saúde pública fundamental. Descobriu-o o médico húngaro Ignaz Semmelweis, nascido em 1818, e que, em 1847, conseguiu interromper a propagação de uma infecção na maternidade de Viena, onde trabalhava, apenas por recomendar a lavagem das mãos pelo pessoal hospitalar.
Com efeito, Semmelweis sentia-se muito perturbado, na época, por causa da elevada taxa de mortalidade materna numa das enfermarias da maternidade. Após ter pesquisado o assunto, com base, principalmente, na observação dos procedimentos usados na altura, chegou a uma conclusão: os médicos eram os responsáveis por esse facto, pois não se preocupavam com a higiene das suas próprias mãos; dissecavam cadáveres infectados com as mãos nuas e desprotegidas e, depois, iam fazer partos. O médico passou então a pedir a todas as pessoas que fossem examinar alguma mulher na sala de partos a, antes de entrarem, lavarem as mãos com uma solução de lixívia. Em pouco tempo, os resultados foram espectaculares.
O curioso é que a maioria dos médicos contemporâneos de Semmelweis não ouviu os seus avisos. O próprio médico acabou os seus dias num manicómio. Mas as gerações seguintes, influenciadas por ele, aperceberam-se que lavar as mãos é uma das formas mais eficazes de prevenir a disseminação das doenças, como o Covid 19 veio lembrar-nos mais uma vez.
Portanto, se posso dar-lhes um conselho, sugiro que sigam o alerta do velho médico húngaro. Não precisam usar sabão de marca ou açambarcar todo o álcool em gel das farmácias vizinhas. Inspirem-se no exemplo dos jovens que, um pouco por todo o país, estão a encontrar soluções criativas e baratas para pôr os moradores dos bairros pobres a lavar as mãos com mais frequência.
Uma barra de sabão azul, certamente, resolverá o problema.

*Jornalista e escritor

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