Opinião

O filme “Filhos de Jó” de Rosemberg Cariri

Filipe Zau

Jornalista

Um olhar africano sobre o filme “Filhos de Jó” recai, em primeira instância, para a história de uma cidade onde o seu acervo arquitectónico se mistura com a memória de milhares de negros africanos arrancados à força das suas terras de origem, para serem transportados, como mão-de-obra escrava, para o outro lado do Atlântico, mais precisamente, para as minas de ouro de um povoamento, que, em 8 de Julho de 1711, começou por se chamar Vila Rica de Albuquerque.

20/07/2021  Última atualização 22H24
Os primeiros momentos do filme, da autoria do realizador brasileiro Rosemberg Cariri, começam, precisamente, com uma visita guiada a uma antiga mina de ouro, onde os visitantes tomam conhecimento das desumanas condições de trabalho escravo a que os negros foram sujeitos naquele povoamento, que, em 1721, se tornou na primeira capital do Estado de Minas Gerais.

Para além das catástrofes provocadas pela selvática destruição dos ameríndios – os verdadeiros autóctones das terras baptizadas de Vera Cruz – e das tragédias provocadas pelo tráfico negreiro, acrescem as actuais denúncias resultantes de um elevado número de episódios eivados pela descriminação e pela segregação racial. No fundo, dois dos maiores holocaustos da Humanidade, que os países das antigas sociedades escravocratas persistem em ocultar ou minimizar nas suas respectivas historiografias oficiais.

Assinalam-se, com pompa e circunstância, a exaltação de feitos gloriosos da parte dos vencedores e omite-se a resistência dos que, hoje, também cidadãos foram, durante séculos, oprimidos e massacrados. No entanto, qualquer um destes dois aspectos está intimamente ligado a uma mesma história comum: a do povo português, a do povo brasileiro e a de certos povos africanos e das suas diásporas.

Com a exploração do "ouro preto”, que depois de fundido se torna amarelo, Vila Rica alcançou o seu apogeu económico, entre 1730 e 1765, à custa do trabalho de negros africanos escravizados e se transformou rapidamente num centro urbano, com cerca de 25 mil habitantes. O legado arquitectónico de arte sacra de estilo barroco, da qual se destaca o nome de Antônio Francisco Lisboa, "o Aleijadinho”, é ilustrado no filme pela marca do luxo e da ostensão, que caracterizou o proselitismo religioso da época colonial, em tempo da desumana exploração da força de trabalho dos negros africanos, desembarcados em terras brasileiras e que hoje, na sua maioria, foram votados a viver nas favelas.

Um bispo português, nascido no Brasil, de nome D. José Joaquim da Cunha de Azevedo Coutinho (1742-1821), chegou a publicar um livro, em francês, que defendia o comércio de escravos da costa africana. Esta publicação foi editada, em Londres e foi impedida de sair em Portugal, por "não se poder aceitar que um bispo viesse a legitimar a prática do comércio negreiro e justificar a própria escravatura”, o que era diametralmente oposto aos princípios do cristianismo. Mas, em pleno século XVIII, a Europa ocidental estava totalmente envolvida no tráfico negreiro, onde se ganhavam avolumadas somas de dinheiro nas colónias. Então, o discurso da "raça” surgiu, para os Europeus, como uma justificação "moral” ou uma espécie de descargo de consciência.

Condorcet (1743-1794), escritor, polemista, sábio, matemático, político e educador francês, chegou a referir que de entre todas as injustiças, todas as crueldades herdadas do passado, nenhuma se lhe afigurava mais odiosa do que o tráfico de escravos. Passou a adoptar o pseudónimo de "Schwartz” e a autoproclamar-se "negro”, em 1781, como forma de solidariedade para com os africanos subjugados pela escravatura.

O filme "Filhos de Jó” também se refere ao Mestre Athaíde, um outro destacado artista de Vila Rica, que, à época, teve seis filhos com uma ex-escrava mestiça, sem que com ela ter casado ou coabitado. Todavia, essa escrava alforriada poderá tê-lo inspirado a pintar o painel "Assunção da Virgem”, na igreja de S. Francisco de Assis, com traços fisionómicos marcadamente africanos, onde se denota a existência de anjos brancos e outros aparentemente mestiços. Talvez uma estranha revelação de amor numa sociedade colonial marcada por falta de princípios de horizontalidade, que o realizador, ao transportar a mesma ausência de humanidade, faz apelos ao sentido de alteridade e faz emergir a atracção mútua de um rapaz negro e de uma moça branca, ambos funcionários numa escola de restauro de peças de arte sacra.

A recuperação dessas peças artísticas, em "Filhos de Jó”, parecer emergir como uma forma de dar a conhecer às gerações mais jovens, para o perigo da falta de sentido de empatia e ecumenismo, que, ao fazerem uso de narrativas demagógicas e populistas, podem conduzir a futuros holocaustos. Na II Guerra Mundial (1939-1945),através de uma narrativa assente na necropolítica, Adolfo Hitlerprocurou a exterminação de judeus, negros, ciganos... enfim, de todos os que não se identificassem com o falso conceito de "raça” ariana.

Sem aparentemente um fim à vista, hoje são os israelitas que, na mesma lógica de exclusão, levam a cabo a exterminação dos palestinos, recorrendo às estratégias da guerra, da fome e da pobreza extrema, sob olhar silencioso e cúmplice da Comunidade Internacional. Porém, o amor vence barreiras, porque a humanidade é incapaz de se reger por determinismos rígidos e, nem sempre, a vontade autocrática de políticos consegue contrariara solidariedade de povos de todo o mundo.

Há em Angola, uma máxima extraída da filosofia popular umbundu, que refere o seguinte: "K’owingi, l’owingi, kakasi eyau”. Traduzido para português, quer dizer que "entre os povos, há pontes”. As autoridades tradicionais, nas práticas de prevenção de conflitos, põem em prática os princípios de diálogo, tolerância, moderação, compromisso, consenso, espírito de abertura, união e solidariedade. Um outro exemplo está na filosofia Ubuntu, utilizada,entre outros, por Nelson Mandela.

Em "Filhos de Jó”, o restauro, como forma de preservação da memória, levou à atracção mútua de pessoas culturalmente diferentes e ao conhecimento de passados marcados pela tragédia dos seus respectivos povos. "Filhos de Jó”, do realizador brasileiro Rosemberg Cariri, é um despertar de consciências para a razãocom os olhos postos no futuro, através da arte de acordar emoções adormecidas pela cegueira doutrinária ou pelo obscurantismo da fé.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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