Entrevista

“O estado psicológico dos efectivos é uma prioridade”

André da Costa

Jornalista

O director de Educação Patriótica do Comando Geral da Polícia Nacional, António Vicente Gimbe, considera que algumas falhas e erros cometidos pelos efectivos resultam de alguns processos menos conseguidos, relacionados com a psicologia do indivíduos. “Temos que trabalhar o indivíduo. Por isso é que a área de acção psicológica é fundamental, porque ela ajuda na qualidade da actividade do polícia. Por isso, o estado psicológico dos efectivos é uma prioridade, para que tenhamos mais sucessos no desenvolvimento das nossas acções”.

10/01/2022  Última atualização 06H45
Comissário António Vicente Gimbe © Fotografia por: Cedida
Actualmente, qual é a motivação dos agentes da Polícia Nacional para o cumprimento das missões atribuídas?

Se olharmos para aquilo que é o resultado, devo dizer que a motivação é boa. Mas ninguém se limita ao que tem. Precisamos passar de boa para muito boa ou excelente. Quero concluir com isso que ao resumir de boa, não quer dizer que não tenhamos trabalho para fazer. A motivação é boa no sentido de  haver bom momento, com a missão, com o dever e com o ser. Isso significa que temos que ter um processo de trabalho permanente para que esses níveis de satisfação continuem  boas, porque a vida é dinâmica. O nosso fim é buscar motivação para que os efectivos consigam cumprir com as suas obrigações dentro de uma qualidade que possamos classificar como boa ou excelente. Mas temos muitos desafios para tornar essa estabilidade emocional permanente.


Quais são os grandes projectos que a Direcção de Educação Patriótica pretende materializar nos próximos tempos?

A Educação Patriótica tem vários desafios, dos quais destaco três: a primeira, tem a ver com a Ética Profissional e o respeito pelo Código de Deontologia que rege a Polícia Nacional, o segundo, tem a ver com a Informação, porque precisamos de ter profissionais informados para que possamos buscar conhecimentos e realizar coisas com base em princípios e valores. A Polícia é uma instituição de princípios e regras. Implica que o bom comportamento deve ser fundamental para as missões. O terceiro, são questões correntes, como garantir a estabilidade psico-emocional dos efectivos, desenvolver acções que animam o ego e a identidade, como ser humano. E  isso, podemos fazê-lo através de acções no domínio da saúde física, educação, desporto e cultura, arte, literatura e do conjunto de práticas que resultem na estabilidade da pessoa como polícia, no cumprimento da missão.


São projectos que estão em curso ou apenas algumas ideias pré-concebidas?

São ideias práticas, enquadradas nos programas, planos de acção e na missão recebida do comandante-geral da Polícia Nacional.


Falou sobre aspectos éticos, morais e deontológicos em curso na Corporação. Mas como entender que um agente da Polícia nacional maltrate uma mulher grávida, mate a tiro um jovem de 17 anos, sem motivo aparente? Olhando para esses exemplos, não estará a faltar ética e deontologia profissional a alguns efectivos?

Eu, de facto, envergonho-me (permita que use esse termo) de alguns dos nossos resultados. Se olharmos para aquilo que a Polícia orienta e ensina, há um contraste com o quotidiano. Somos uma instituição de seres humanos com mais de 140 mil pessoas e é lógico que não poderíamos ser iguais. Mas procuramos ter uma identidade que tenha a ver com o polícia. Dentro dessa mesma identidade, existem diferenças. A polícia é constituída por todos os grupos étnicos de Angola, todo o mosaico cultural e humano do país, todas as cores, raças e etnias.


Sente-se envergonhado?

Sim, pelo comportamento e atitude de alguns efectivos, mas é o bem-fazer que a Polícia nos obriga. Esse bem-fazer é que faz a nossa dignidade como profissionais educados dentro de uma ética doutrinária, de princípios e valores.


Que polícias temos hoje, em termos de educação e formação? A Polícia é um processo ou uma conclusão?

Chamo a Polícia como uma conclusão de vários processos recebidos da sociedade, como núcleo base de que resulta as instituições. Para algumas situações que hoje a Polícia ainda vive, temos que encontrar resposta na sociedade e nas famílias que temos, porque é aí que encontramos a identidade, o cidadão, a pessoa, o ser humano, o polícia que é.  Só assim se justifica, com uma certa tristeza, que muitas vezes somos bastante falíveis, quando não deveríamos ser, porque a nossa profissão, feliz ou infelizmente, obriga-nos a não falhar, mas como seres humanos as falhas ocorrem.


A Polícia Nacional admite que tem havido muitas falhas no cumprimento do dever?

Na dinâmica do nosso trabalho, os instrumentos que usamos, no ambiente em que nos envolvemos, resulta sempre falhas e erros. Devo confessar que a Polícia Nacional tem um regulamento disciplinar duro, que responsabiliza condutas que ferem o Código Deontológico, com sanções penosas que podem levar à expulsão do efectivo. O prevaricador pode estar sujeito a uma sanção criminal. Diante desse facto, somos forçados a pedir desculpas quando falhamos no cumprimento das nossas obrigações profissionais, porque, às vezes, cometemos falhas que perigam a vida humana.


Nos dias que correm, são tornadas públicas várias anomalias cometidas por agentes, desde o mau atendimento nas esquadras às negociatas, como o áudio, que viralizou nas redes sociais, de um comandante de uma das esquadras do Cazenga com um subordinado, por causa de um negócio de motorizadas. Como é que a Direcção de Educação Patriótica olha para esse caso?

Ouvi o áudio que revelou uma acção praticada pelos nossos efectivos, cujo conteúdo é classificado como conduta indecorosa. São esses comportamentos, falhas e erros que justificam a existência dessa Direcção. Ainda bem que fez referência a esse áudio. O mesmo mereceu repulsa do comandante-geral. Não nos identificamos com esse tipo de atitude ou comportamento, porque contraria todos os princípios ético-profissionais da Polícia.


Qual foi o tratamento dado a esse caso?

Foi instaurado um processo disciplinar, que corre os seus trâmites, e acreditamos que serão sancionados os envolvidos. O regulamento disciplinar é bastante sancionatório.

 
Quantos efectivos foram demitidos em 2021 por conduta indecorosa?

Em 2021, foram expulsos 21 efectivos das fileiras da Polícia Nacional.


Quais foram os principais motivos dessas expulsões?

Foram expulsos por vários crimes, como ofensas corporais, ameaças verbais e com armas de fogo, abandono do posto de guarda, deserções, roubos, tentativa de furto, furtos, burlas, extorsões, tentativas de violação, violação, cárcere privado, abuso de autoridade, homicídio voluntário, uso e posse de estupefaciente, homicídio frustrado, retirada de presos, ofensas morais ao superior hierárquico e a colega de igual patente, e falsificação de documentos. Muitos actos cometidos pelos efectivos culminam com processos-crime.


A boa-fé é dos princípios do Regulamento da Polícia Nacional, mas estranhamente tem faltado isso em alguns agentes, como os reguladores de trânsito, no relacionamento com o cidadão. Quer comentar?

A Polícia é uma instituição que tem 18 princípios fundamentais, como legalidade, neutralidade, probidade administrativa, colaboração com particulares,  integridade e responsabilidade, comunicação, parcimónia, cortesia, e urbanidade, proporcionalidade, igualdade, boa-fé e moral. Às vezes, o nosso comportamento e autuação contraria esses princípios. Nem sempre temos sido capazes de cumprí-los 100 por cento, daí as nossas falhas e erros, pelo que os prevaricadores têm sido responsabilizados de acordo com a gravidade da situação. Quando interagimos com um cidadão não devemos estar distantes do princípio da boa-fé, obedecendo à Lei. Dentro de uma sociedade justa, este é um princípio relevante e faz parte da educação permanente dos efectivos, porque ele também é um cidadão, além de polícia.


Quantos processos disciplinares foram abertos o ano passado? 

No segundo trimestre do ano passado foram abertos 1.094 expedientes nas várias tipicidades de infracções cometidos pelos efectivos, que foram punidos de acordo com o nosso regulamento disciplinar.

Muitos polícias alegam que ganham mal, para justificarem as extorsões aos cidadãos. Como motivar o efectivo para evitar esses actos?

O nosso regulamento disciplinar é bastante contundente quanto a extorsão. Quem a pratica é arrolado à luz do Código Penal, porque é classificado como acto de corrupção. Esse comportamento é reprovável. Felizmente, diminuíram os casos de extorsão.  Temos trabalhado nas denúncias que nos chegam sobre essas práticas.


De que forma o cidadão pode denunciar um efectivo que se furta a liquidar uma dívida contraída?

Isso tem a ver com o comportamento de cada elemento. São acordos pessoais, muitas vezes, celebrado de forma verbal. Aqui chamamos o princípio da boa-fé, a tal conduta de integridade do polícia, que lhe obriga a ter um comportamento diferente. Quando esses casos chegam ao nosso conhecimento, são instruídos processos disciplinares e exigido que cumpram com as obrigações. É uma pena que isso ocorra. Mas não tem sido só isso. Há outros casos de violência contra as mulheres, fuga à paternidade, ausência de assistência alimentar dos filhos. Há um trabalho em curso para baixar essas ocorrências no seio dos efectivos.  
       

Assistimos algumas palestras, inclusive no Ministério do Interior, onde foi destacado que alguns polícias se furtam a sustentar os filhos e outros não os registam. Há muitos casos desses?

Temos recebido muitos casos. O Comando Geral da Polícia Nacional está preocupado com essa situação. A Direcção de Educação Patriótica temos o Departamento de Direitos Humanos que trata essas questões, por se constituir uma violação dos direitos da pessoa humana. Trabalhamos em parceria com várias instituições da sociedade civil e dos Ministérios da Acção Social, Família e Promoção da Mulher e da Juventude e Desportos, mobilizando outros serviços, como a Organização das Mulheres Polícias, no sentido de chamar à razão aos efectivos, no que diz respeito a essa situação.


Palestras do género têm estado a ocorrer nas demais províncias, visando chamar atenção das pessoas sobre essa realidade, no sentido de elevar a consciência dos efectivos sobre os deveres com a família?

A Polícia é o primeiro elemento defensor da família. Só assim se pode concluir como sendo uma exigência pessoal, porque os efectivos têm famílias constituídas, pelo que a família constitui a nossa prioridade. E trabalhar na defesa da família é  um dos desafios da Direcção de Educação Patriótica.


Quais são os grandes desafios dessa nova geração de polícia?

Olhar para a Polícia significa olhar para a sociedade. Temos necessidade de formar o homem novo, e esse homem que se resume nas suas qualidades como homem de virtudes, de princípios, de ética, um cidadão ao serviço da pátria. É esse o desafio de Angola hoje. Precisamos olhar para o polícia de hoje na perspectiva de um Polícia melhor amanhã. Hoje reclamamos que a nossa sociedade está despida de valores, mas o resgate desses valores é uma exigência não só da Polícia, como instituição, mas de toda a sociedade. Pretendemos uma Polícia que sirva os cidadãos.


Que tipo de acompanhamento tem sido feito pela área psicológica em relação aos efectivos que trabalham sob pressão, visando evitar excessos durante a autuação?

A actividade profissional de Polícia se desenvolve em vários cenários e é influenciada por factores positivos ou negativos. Ao polícia se pede que fale pouco e que seja mais assertivo na sua autuação. O estado psicológico dos efectivos é sempre um dos elementos que preocupa a Corporação. Alguns desses erros que temos tido têm a ver com alguns processos menos conseguidos, relacionados com a psicologia do indivíduo. E como somos seres influenciáveis, também recebemos carga negativa da família e da sociedade, que resulta em prejuízo no exercício da actividade. Temos que trabalhar o indivíduo. Por isso é que a área de acção psicológica é fundamental, porque ela ajuda no resultado e na qualidade na actividade do polícia, até na satisfação e prazer em ser polícia. O estado psicológico do indivíduo é uma prioridade, para que tenhamos mais sucessos no desenvolvimento das nossas acções. O nosso trabalho é de stress permanente e produz cansaço, ansiedade e todo um estado de adrenalina que é preciso ser controlado. A acção psicológica é um elemento fundamental da nossa actividade policial.


Mas tem faltado esse acompanhamento aos efectivos?

Às vezes, tem faltado esse acompanhamento, daí a necessidade de existir a Educação Patriótica, como uma actividade permanente a nível dos nossos efectivos.


Quantos psicólogos e sociólogos tem a Polícia para a dinamizar essa área?

Somos, felizmente, um serviço dotado de alguma capacidade nas áreas das ciências humanas, precisamos de mais profissionais. Trabalhamos directamente com mais de 70 psicólogos,  mas também temos quadros formados em outras áreas que trabalham para termos uma corporação mais equilibrada.


Que processos são tratados na área de Direitos Humanos?

Os princípios fundamentais da Polícia se enquadram nos direitos humanos. A essência e o destino final da actividade de Polícia é a essência da pessoa humana. O nosso primeiro princípio, a legalidade, é o fundamento da nossa organização. O Departamento de Direito  Humanos constitui uma janela de vigilância de como estamos em termos daquilo que é a necessidade do cidadão. Esse departamento permite ver a nossa estrutura interna e olhar para  sociedade naquilo que são os desafios, à luz do princípio da legalidade.


Esse Departamento pode resolver caso de fuga à paternidade?

Sim, esse Departamento dispõe de profissionais formados em várias áreas. Essa área vela também pela necessidade da satisfação da vida humana.


PERFIL

Comissário António Vicente Gimbe
Pai de seis filhos, é uma pessoa exigente e rigorosa, primando pela disciplina. É amante do desporto, tendo praticado artes marciais, atletismo,  basquetebol e futebol

Carreira militar
1975 - Começou a trajectória militar na Segunda Região Político-Militar, nas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA)
1993 - Transitou para a Polícia Nacional, em comissão de serviço, onde foi segundo comandante provincial de Benguela e comandante provincial do Cuanza-Norte, Cuanza-Sul, Lunda-Sul e Bié e comandante do Serviço Nacional de Protecção Civil e Bombeiro

Habilitações literárias
Licenciado em História
- Pós-graduado em Gestão de Conflito e Crise Internacional
- Mestre em Geo-segurança
- Doutorando em Defesa e Segurança em Portugal

Formações militares
Várias formações feitas na Escola Superior de Guerra, assim como na África do Sul, Israel e Alemanha

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