Opinião

O ensino superior em Angola

Manuel Rui

Escritor

O incidente ocorreu na Universidade de Salamanca, em 1936 na conturbada Espanha. O general Astray entrou no salão nobre do estabelecimento, gritou: “Abaixo a intelectualidade e viva a morte!” Ao que o Reitor Unamuno respondeu: “Isto é o templo da sabedoria e eu o seu sacerdote.”

29/07/2021  Última atualização 04H00
Salamanca é uma das mais antigas universidades europeias, fundada em 1134 integrando o grupo com Cambridge (1209), Oxford (1096) Bolonha(1088) ou Coimbra (1290), a minha universidade que acabou de fazer 730 anos de existência. Ao contrário do que se pretende omitir, as mais antigas universidades aconteceram em África, Tunes em 737, Fez em 859 e Cairo em 980.

Aquela ideia de Unamuno seria a poética do que deve ser uma universidade: o espaço e o tempo do saber cientificamente organizado. Quando não acontecem as sinergias que convergem para esse saber, a universidade acaba sendo um lugar do empirismo, um lugar de cuspe e giz ou uma loja de vender diplomas.

No nosso país, salvo erro ou emissão podemos identificar universidades públicas, instituições universitárias públicas, instituições politécnico-superiores públicas, instituições superiores militares, universidades privadas, instituições universitárias privadas, instituições politécnico-superiores privadas.

Da Agostinho Neto (Talatona, Caxito, Luanda, Viana) até à 11 de Novembro em Cabinda, há em Angola 8 universidades públicas que cobrem as províncias de Luanda, Huambo, Benguela, Uíge, Lunda-Norte, Lunda-Sul, Malange, Huíla, Cuando-Cubango, Namibe, Cabinda,e Zaire.

Há 10 institutos Superiores públicos, dois institutos politécnico-superiores públicos, 9 instituições superiores militares. Há 8 universidades privadas, 3 instituições universitárias privadas, 5 politécnico-superiores privadas. 2009 é o ano da criação da maior parte de instituições universitárias públicas.

Em abstrato, poder-se-á dizer que após a Independência houve uma explosão de universidades que, no princípio, o que nos honra, tinham grande frequência de trabalhadores estudantes.

Mas, enquanto que em Moçambique se deu continuidade a um ensino devidamente organizado e com reitorias de saber, em Angola começou-se mal com um reitor que estudara direito na Patrice Lumumba, universidade soviética para africanos… para se desenrascarem cá em baixo…Por outro lado politizou-se a universidade e no fim das reuniões de conselho, fiquei surpreendido a 1ª vez, diziam-se as palavras de ordem e lavrava-se uma moção de louvor ao MPLA…

Quando fui para a faculdade de Letras do Lubango, mandaram-me, posteriormente, acabar com a faculdade de Letras para a transformar no ISCED (instituto superior de ciências da educação) com figurino da então Jugoslávia. Foi um autêntico crime mas mesmo assim impedi o que já havia sido começado, destruir todas as lições e brochuras deixadas pelo ensino  colonial. Também queriam que viesse para Luanda todo o acervo de amostras minerais e aves e animais embalsamados, por ordem de quem mandava no sector que nunca tinha andado numa universidade e nem sabia o que isso era.

As nossas universidades, paradoxalmente, afastam a intelectualidade. Eu, já fiz conferências em boas universidades africanas como a de Lagos na Nigéria e a de Dakar no Senegal. No Brasil, no Rio, em S.Paulo, Bahia ou Rio Grande do Sul. Em Portugal, em Itália corri quase todas as universidades e na Suécia cheguei a orientar mestrados da nossa literatura. Sempre bem pago.  No meu país, só no Isced do Lubango e por mera coincidência de lançamento de um livro.
Não há universidade sem o sentido ecuménico e lúdico da aprendizagem. Há eleições. O "campus” onde se come, dorme, se aprende música e canto e se pratica desportos. As universidades têm  orfeão, jornal, conjuntos musicais, edições de livros, etc. É a cidade universitária, algumas são de tanto espaço e construções que a cidade tem um governador.

A  construção da cidade universitária de Luanda começou em 1998… nunca mais andou ou tem andado aos solavancos e há quem se interrogue para onde foi o dinheiro para o efeito alocado. Entretanto,  e em tempo recorde, fizeram-se novos estádios de futebol, pavilhões desportivos e melhoramentos em aeroportos provinciais, sendo que o Aeroporto de Luanda é o 5º pior de África.

As Universidades privadas deveriam ter como padrão mínimo e referência a U. Agostinho Neto, sendo certo que a Católicas e distancia para melhor das restantes privadas, muitas com um nível inferior ao do Liceu colonial. Por aí se compreende que os muatas mandem os seus filhos estudar no estrangeiro. Certo que algumas pessoas, por seu mérito pessoal se superaram e foram ao estrangeiro fazer mestrados e doutoramentos com altas classificações. Certo que se tivéssemos uma cidade universitária de saber já teríamos os quadros para as obras do aeroporto e metropolitano…
Poder é saber e hoje, praticamente, uma boa parte dos governantes tem formação superior.

Triste é que o  4º país mais poderoso de África, depois do Egipto, África do Sul e Nigéria no ranking das 300 melhores universidades de África, o melhor que Angola consegue é a Agostinho Neto no 321º lugar  seguida da Universidade Católica de Angola  lugar 511º lugar  numa avaliação que analisa quase 2.000 instituições.

Já Moçambique., apesar dos pesares, no ranking das duzentas, tem  a Universidade Eduardo Mondlane na posição 35! A universidade pedagógica de Maputo na posição 141 e a Católica de Moçambique na posição 174.
Pois é… "deixem-me só subir às palmeiras…”

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