Opinião

O empurrão que faltava para o crescimento

Em dias como os que estamos a viver hoje em que parece que tudo se está a tornar mais difícil, o nível de vida está a pelos olhos da cara, é quase uma missão inglória escrever sobre crescimento, pois as pessoas normais associam crescimento a mais rendimento, mais consumo e a mais e melhor satisfação das necessidades, pelo menos as básicas.

07/06/2019  Última atualização 07H39

Se os números são usados para dizer a verdade quando a governação não está a ser bem sucedida, temos de ter a coragem de olhar para estes números e depreender, de acordo com os sinas e a nossa capacidade de os interpretar, que há sim esperança e há sim algo de bom no horizonte é só sabermos olhar com olhos de ver, em vez de olhos de criticar e maldizer.
Os números são sempre categóricos e não deixam margem para meias palavras, e eles nos dizem que a inflação está descer em termos homólogos e que apresenta um tendência decrescente, pois saímos dos 42% em 2016 para a casa dos 15% previstos para 2019, certamente que muitos nem se devem ter apercebido, mas de há três anos para cá a taxa de inflação caiu em 64%.
Na verdade isto apenas quer dizer, que os angolanos viram os seus rendimentos deixarem de derrapar 64%, claro que é provável que quem mantiver 100,00 kz no banco este ano, no fim de 2019 esses 100,00kz valeram apenas 85,00 kz, contudo há três anos valeriam apenas 68,00 kz. E porquê que isto é importante, porque assim se os bancos emprestarem dinheiro às empresas e às famílias já pode baixar a taxa de juro de mais de 42% para pouco mais de 15%.
Com a taxa de inflação a 42% era quase impeditivo obter crédito pois a taxade juro era estrondosa (nunca menos de 42%), os bancos fugiam dos clientes e os devedores fugiam dos bancos. Uma taxa de juro tão alta inviabiliza qualquer projecto de investimento e deita por terra todas as possibilidade de crescimento das empresas, prosperidade das famílias e aniquila a arrecadação fiscal.
A efectiva redução da inflação para a casa dos 15%, o que implica automaticamente uma redução da taxa de juros para estas margens, será possível reanimar a economia, será viável conceder crédito, aumentar o investimento, aumentar rendimentos, aumentar o consumo, gerar poupança e fechar o ciclo em alta com mais arrecadação fiscal e maior e melhor despesa pública.
Por este motivo, escrevemos o presente artigo, pois o BNA deu um empurrão valente para o crescimento, pois ao cortar em Janeiro deste ano 75 pb (pontos base) a taxa básica de juro e em Maio do mesmo ano cortar mais 25 pb, tal atitude é um verdadeiro indicador de que poderá haver uma verdadeira inversão do ciclo económico.
O corte da taxa de juro, que é apenas explicado pela redução da taxa de inflação, para além de tornar o crédito mais barato e atractivo, quer automaticamente dizer que o dinheiro aplicado no banco será remunerado a uma taxa mais baixa (o mesmo que dizer este dinheiro deve ir procurar outro destino que seja a economia real), é na verdade um valente empurrão para o crescimento, aumentando o volume de crédito disponível e colocando a bola do lado da economia real.
Mas o empurrão não fica por aí, pois o BNA fez mais, em Maio de 2018 baixou o coeficiente de reservas obrigatórias dos bancos comerciais de 21 para 19% e agora em Maio de 2019 decidiu manter este coeficiente em 17% (estipulado em Julho de 2018), na prática o BNA está a libertar mais fundos para os bancos comerciais emprestarem à economia real e assim potenciar o crescimento das empresas, a prosperidade das famílias e a crescente arrecadação fiscal.
Como já dissémos, o sector empresarial privado tem que fazer a sua parte porque os bancos já não estão a emprestar ao desbarato ou na base do post-it, tem de haver projectos bancáveis e com garantias mínimas para avançar, contudo é importante aqui dizer, ou tentar analisar, como o BNA está a conseguir controlar a inflação, e acreditamos que poderemos não conseguir a aquiescência de muitos economistas.
Se prestarmos atenção, desde que a taxa de inflação tem caído e consequentemente a taxa de juro, o BNA tem utilizado um percentual crescente de Reservas Internacionais Líquidas (RIL) para acudir às importações, agora asseguradas em grande percentagem pelas cartas de crédito. Claro que, como vemos na comunicação social, a redução das RIL é sempre má notícia, mas acreditamos que a sua não utilização à custa de mais inflacção e menos crédito à economia é uma notícia ainda pior.
O BNA está a preferir apostar na economia real ao invés de manter a boa e robusta imagem de um sistema financeiro cheio de divisas/reservas, o que de certa forma acalma as expectativas, mas colocando as divisas a disposição da economia, libertando a taxa de câmbio, está a ter um impacto em termos de queda de inflacção e redução da taxa de juros, mais positivo do que apresentar um número bonito do valor das RIL em caixa.
Por outro lado acreditamos que o efeito da desvalorização cambial de 2% que o kwanza sofre a cada leilão, pela flutuação controlada da taxa de câmbio (que também é nocivo para o poder de compra dos angolanos) somado a maior disponibilização de RIL está a ter um efeito mais positivo do que manter a taxa de câmbio amarrada e deixar o mercado aflito por divisas, entendemos que assim foi no passado e a queda abrupta do preço do barril de brent desbaratou tal estratégia.
Apesar de não concordarmos com ela no início, é visível que a estratégia está a resultar, faltando as afinações que sempre defendemos quanto às operações cambiais, pois é preciso fazer um escrutínio sobre a proveniência das cartas de crédito, verificando correctamente os fornecedores externos e prestar atenção ao transfer pricing (empresas angolanas compram bens no estrangeiro triplicando as facturas em moeda estrangeira ao enviar para Angola, utilizando mais divisas do que de facto precisam, mantendo assim divisas no estrangeiro).
Desta forma percebemos e fica muito claro que o segredo está em baixar e controlar a inflação para ter margem para baixar a taxa de juro e assim provocar o crescimento económico pelo aumento do investimento, então este é o caminho e a missão de todos e de cada um de nós: produzir internamente para deixar de importar (reduzir o esforço sobre as divisas e estabilizar a taxa de câmbio)e exportar bem mais do que o petróleo (para entrarem divisas e não sermos atropelados pelas crises internacionais).

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião