Opinião

O empreendedorismo e o fetiche da mercadoria

Karl Marx, no primeiro volume de O Capital, refere que há um aspecto difuso na sobrevalorização da mercadoria como factor independente da extensão do produto do trabalho. Esse limite é alcançado quando o valor de uso e o valor de troca da mercadoria confluem num mesmo centro imaterial.

16/04/2022  Última atualização 08H30

À identificação deste centro imaterial, Marx designou como "o fectiche da mercadoria”. Ao explicar o que é isto, o autor diz que é o momento em que os: "[...] objectos de uso tornam-se mercadorias apenas por serem produtos de trabalhos privados, exercidos independentemente uns dos outros. O complexo desses trabalhos privados forma o trabalho social total. Como os produtores somente entram em contacto social mediante a troca de seus produtos de trabalho, as características especificamente sociais de seus trabalhos privados só aparecem dentro dessa troca. Em outras palavras, os trabalhos privados só actuam de facto, como membros do trabalho social total, por meio das relações que a troca estabeleceu entre os produtos do trabalho e, por meio dos mesmos, entre produtores.”

Hoje em dia, ainda que muito das ideias de Marx se constatam actuais, no complexo destes trabalhos privados que formam o trabalho social total, há, por sua vez, um elemento novo que vem determinando a amplificação do espectro do mercado de troca sobre o qual partiam as reflexões deste autor, ou seja, aquilo que György Lukacs designou por realidade aumentada,  proporcionada por  plataformas digitais através da Internet. E, se por um lado existe esta expansão desmesurada do mercado, no qual todos os indivíduos são chamados a transformarem-se em potenciais produtores, por outro, existe o seu discurso legitimador: o empreendedorismo.

O empreendedorismo é o lugar da sobrevalorização da ideia de que o futuro do trabalho é que cada pessoa seja patrão de si mesmo. E, sendo este o desígnio das sociedades modernas em desenvolvimento, torna-se um indicador de falhanço profissional, a subordinação individual a uma entidade ou agente empregador, ao mesmo tempo que se toma como valor pessoal diferenciador, a capacidade de cada um ter iniciativa e realizar-se como o dono do próprio emprego ou empresa.

Surge assim, em grandes certames laudatórios e com forte propaganda mediática, a ideia de que o empreendedorismo é a solução para o desemprego.

O acumular da literacia digital, as novas formas de disseminação do conhecimento e da informação vêm transformando o campo da interacção social e levando a uma maior autonomia nas trocas de interesses entre indivíduos e empresas. Contudo, por detrás deste fascinante mundo moderno estão os grupos económicos e financeiros que acumulam grande capital com estas novas formas de trabalho. Ou seja, as novas tecnologias escondem de facto as redes de relações de subordinação e de exploração de empresas sobre os produtores privados.

A ideia de que a plataforma informática como intermediário entre uma suposta actividade e supostos clientes são no fundo formas que, habilmente, escondem relações muito agressivas de exploração. E a eventualidade de parecer como cruas evidências têm vindo a ser gloriosamente disfarçadas pela tecnologia e por uma teia de regras aparentemente virtuosas.

Ou seja, o empreendedorismo, como uma nova formado de discursos de reformulação do campo do trabalho, traz consigo o reverso de uma realidade incómoda: a precariedade e a degradação das condições de trabalho e dos direitos de quem trabalha. Esta, tem sido para já, a arma política para corresponder à evidente degradação dos níveis de rendimentos e à precariedade das condições de trabalho dos trabalhadores dos novos tempos; indivíduos inteligentes e autónomos, que se dispõem a trabalhar horas a fio, em qualquer lugar: desde as garagens às esplanadas restaurantes e de bares, sem qualquer relação com quem deles beneficia em largas somas de facturação, subtraindo o factor tempo de todo o esquema destas relações económicas. Contudo, os empreendedores têm a aura de pertencerem a uma  legião de vencedores dos nossos dias.

À aplicação directa da ideia do empreendedorismo, podemos ver o espectro das novas formas de altíssimos níveis de exploração. Estratégias com dimensões novas mas que vão dar a lugares antigos dos campos de uma realidade de exploração e de precariedade: ou seja, o mundo perfeito de quem domina a economia.

O empreendedorismo, como apelo ao trabalho social total, surge apenas como uma das componentes modernas do fetiche da mercadoria, que, numa das suas extensões, desemboca na cidadania económica. Ou seja, a realização individual apenas na esfera das trocas mercantis. E deste modo, a cidadania passa a ser um dispositivo atreito e tributário das significações das novas relações económicas. É o código identificável na linguagem das novas agências de auto-realizações no universo plural e incessantemente renovado de possibilidades de acções lucrativas. O sujeito é chamado a tornar agência o seu corpo, de o adaptar, a cada momento, a uma nova sugestão de possibilidade de ganhos económicos. Esse agenciamento do corpo, das suas qualidades físicas ou mentais, é que é chamado para se impor como determinante no exercício dos novos sentidos do trabalho empreendedor e que se vai transfigurando de novas formas de cidadania no contexto actual.

 

* Sociólogo docente universitário

Cláudio Tomás*

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