Opinião

O elogio à leitura

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Desconfiar de pessoas que não leiam romances, oferecer livros e cadernos ajuda a definir o meu entorno e a projectar-me, no mundo: quando vejo crianças e adolescentes a passar, em grupo ou sozinhas, e sem nenhum adulto por perto, pela rua em que vivo, de um modo despreocupado, abandonados à sua sorte e tão sem rumo, penso muitas vezes do que seria deles se eles pudessem estar a ler ou a escrever.

28/09/2021  Última atualização 10H04
A escrita e a leitura ajudam-nos a compreender melhor o mundo, a prevenir despropósitos e até mesmo e curar-nos, de muitas coisas.

As cumplicidades que se constroem pela leitura, pela escrita e pelos valores que elas transmitem, tendem a ser muito sólidas: associo muitos períodos da minha vida com momentos de leitura que compartilhei com determinados amigos e colegas, num início de conversa que continuou depois e que dura até agora, mesmo que fiquemos anos e anos sem sequer trocar uma palavra.

Há idades em que ler e escrever bem, regularmente, resulta providencial e não tem necessariamente a ver nem com passar de classe ou obter um certificado ou título qualquer: para além da autoconfiança que dá, pode contribuir a evitar a timidez, é como se fôssemos donos de tesouros que ninguém mais conhece e é uma força que contribui ao crescimento afectivo e intelectual.  

 Por isso, muitas vezes fico a pensar e a tentar reconstruir como tudo começou. Porém, sempre que tento fazer um esforço para recordar e situar, exactamente, qual foi o momento, em que circunstâncias e com quem aprendi a ler e a escrever não consigo: entre mim e a cada letra do abecedário não aparece nenhum rosto, não consigo identificar uma pessoa, não me vem à memória a cara de qualquer professora ou familiar a segurar-me a mão, debruçado sobre o meu ombro e a ensinar-me como agarrar o lápis e fazê-lo escorregar pela folha de papel para descrever, uma a uma, cada coreografia no espaço que é o aprendizado de cada letra, tentando ter uma caligrafia perceptível e, também, linda.

Mais facilmente situo o livro e os cadernos na minha casa, dentre os objectos da estante. Não sei exactamente quando a leitura e a escrita passaram a fazer parte da minha vida: é evidente que posso deduzir ou dar por certo que terá acontecido na escola primária, mas isso acontece com todos, daí que, para mim, o importante é recordar quando é que ela se terá tornado essencial: ler e reler para memorizar um texto, por curto que fosse e, depois, declamá-lo é um exercício que terei feito constantemente a partir dos oito anos, quando estava na terceira classe. Há quem aprendeu a ler e a escrever, praticamente, sozinho.

Ler e escrever são actividades que hoje exigem recolhimento e até mesmo certa solidão, mas, nem sempre foi assim. Actualmente, as leituras em grupo escasseiam e, talvez por isso, impressionam: tanto ler como escrever bem não é nada fácil e exige muito esforço. Cada texto é um desafio e, normalmente, o exercício tende a variar: para que possamos escrever e ler bem, compreendendo e interpretando é preciso ser constante, dedicar muitas horas de trabalho e de treino, mesmo.

Pedir às crianças e aos adolescentes que escrevam sobre o que desejam e pensam pode contribuir, também, para o seu melhor controlo emocional: valorizar o "diário” pessoal, o espaço individual criativo na intimidade ou exigir que, desde a mais tenra idade, ao escreverem ou ao falarem se dirijam às pessoas do modo correcto contribuir a organizar disciplinadamente muitos hábitos e costumes, a aprender a afastar-se da banalidade, coisa que, de certa forma, não só educa como liberta e protege para sempre.

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