Opinião

“O dia mais importante da história do nacionalismo angolano”

O 11 de Novembro é, sem sombras de dúvidas, o dia mais importante da história do nacionalismo angolano, cujo percurso remonta desde os anos 50/60.

11/11/2021  Última atualização 07H55
Os movimentos de libertação nacional, UPA-FNLA, MPLA e a UNITA, liderados pelos nacionalistas Álvaro Holden Roberto, Dr. António Agostinho Neto e Dr. Jonas Malheiro Savimbi, respectivamente, foram na verdade os grandes obreiros e artífices da conquista da Independência Nacional, uma das aspirações mais profundas do Povo angolano.

Esta data, que representa um dos maiores orgulhos e felicidade do povo angolano, foi conquistada com muito suor e sangue, dos nossos mais nobres compatriotas, muitos dos quais anónimos, aquém, pela nossa gratidão, devemos uma singela e merecida homenagem. A nossa adesão à luta de libertação nacional, teve seus precedentes na evolução da geopolítica mundial com o descalabro da segunda guerra mundial. Assim, com o advento das independências em África, nos anos 50/60, salientando-se a independência do Gana, a consciência dos povos africanos e em particular das suas elites, começara a se afirmar no sentido de se ver a totalidade deste continente berço da humanidade livre da dominação estrangeira.

Nesta azáfama, Angola não foi a excepção pois seus filhos também almejavam tornar real o sonho de instaurar um Governo de Angola pelos próprios angolanos. Nesta altura, já elites de intelectuais angolanos no exterior e interior do País, haviam tomado a consciência da impossibilidade de conquistar a dignidade do homem no seu próprio país sem luta, formando-se, desta feita, a consciência nacional.

Foi nesse movimento do emergir da consciência nacional, que a juventude angolana se colocou à disposição da pátria e, em Luanda, onde me encontrava nos anos 50/60 a estudar no colégio das Beiras, na companhia dos demais colegas, maioritariamente, filhos de elites angolanas, começamos, de forma clandestina, com as actividades tendentes a contribuir à luta de libertação do nosso País.

Uma das formas dessas missões clandestinas cingia-se na distribuição de panfletos com conteúdos despertadores da consciência dos angolanos que inicialmente eram nos entregues pelo amigo Adolfo João Pedro que veio a pertencer ao MPLA.

Nesta empreitada, depois de uma reflexão com colegas e amigos de profunda confiança, a exemplo do Fernando Bricas "Doutor”, que de igual modo foi quadro do MPLA, e o Dr. Francisco Mendes, vislumbrou-se a ideia de partir-se para o Congo Kinshasa, onde já se encontravam elites angolanas que, embora inspiradas em princípios ideológicos diferentes, prosseguiam objectivo comum, o de ver livre a pátria do jugo colonial português.

Assim é que em 1960, sob a autorização do meu pai que era um dos anciões do Bembe (Uíge) encarregado de recolher contribuições financeiras para a UPA, da qual era militante, segui, na companhia de alguns enviados dos mais velhos do Bembe capitaneados pelo Sr. Firmino, por sinal meu cunhado, viagem a pé para o Congo Leopoldville. Foi um verdadeiro baptismo de resistência porque, reparem que debaixo do sol escaldante, pisamos a terra ardente e ao escalar da noite o frio agasalhava-nos. Andamos em matagais sem caminhos antes acalcanhados.

Atravessamos rios e riachos muitos dos quais com dunas difíceis de trepar, montanhas e vales, enfim, uma longa viagem que parecia interminável. Aí, fui recebido pelo Velho Barros Necaca, tio de Holden Roberto e um dos co-fundadores da UPA, aquém fiz presente uma missiva que meu pai lhe endereçara.Portanto, é a partir deste país vizinho, que em 1960, de forma consciente e voluntária, entrego-me de corpo e alma à luta de libertação nacional pela UPA- FNLA e mais tarde pela UNITA, em 1964, ainda em embrião.

Em Leopoldville, já se encontravam outros tantos jovens compatriotas saídos de Luanda, tais como Ismael Martins, Elísio de Figueiredo, Mateus Inglês, etc.

Voltando à Independência Nacional e o desalinhamento dos movimentos de libertação nacional, por altura da sua proclamação, ocorre-me que nas vésperas da Independência Nacional, entre Outubro/ Novembro, assistiu-se um roteio diplomático fora do comum do Dr. Jonas Savimbi, com o objectivo de realinhar o rumo dos Acordos de Alvor que o Governo português, na pessoa do seu Alto Comissário, o Almirante Rosa Coutinho, tentava inviabilizar. Porém, todo esforço fora em vão e, chegados a 11 de Novembro, o cenário vivenciado foi de total desunião entre os três movimentos de libertação, signatários dos Acordos de Alvor, que por ocasião da proclamação da autodeterminação de Angola como País livre e independente do colonialismo, realizaram-se três cerimonias em localidades diferentes, nomeadamente, em Luanda, Uíge e Huambo, com duas proclamações da Independência Nacional, sendo a República Popular de Angola (RPA), em Luanda, feita pelo MPLA, na pessoa do seu presidente, Dr. Agostinho Neto, e a República Democrática de Angola (RDA), no Huambo, onde me encontrava, na altura como Coordenador do Centro Administrativo e Político da UNITA, CAP.

A RDA, proclamada com o cunho dos dois movimentos de libertação nacional, a FNLA e a UNITA, não resistiria e os seus autores estavam bem cientes disso, pois o Presidente Savimbi já havia, em várias reuniões, precavido aos quadros políticos e militares das antigas FALA do insucesso desta efeméride na arena nacional e internacional, tendo em conta que a capital do País era Luanda.

Convém lembrar que o facto de, por altura das negociações dos Acordos de Alvor, o contexto prevalecente da guerra fria favorecer o Bloco da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, em detrimento do Bloco Ocidental que acabava de sobreviver ao abalo do conflito armado do Vietname, contribuiu bastante no posicionamento de Portugal a favor do MPLA, através do Partido Comunista Português (PCP), cuja direcção, incluindo o seu presidente, Álvaro Cunhal, se encontrava exilada na Checoslováquia.

Entretanto, apesar das ingerências externas, quer os Acordos de Mombassa, realizados no Quénia com a plantação da famosa árvore da Paz, pelo histórico presidente Jomo Kennyata, quer os Acordos de Alvor, bem como os de Nakuro, não foram capazes de cultivar nos movimentos de libertação nacional o espírito de coesão e unidade nacional, visto que os desentendimentos  causados pelas desconfianças excessivas registados aquando da luta armada contra o colonialismo português foram transportados até à altura da proclamação da Independência Nacional.

Portanto, a República Democrática de Angola, RDA, nascera apenas para criar um facto circunstancial, na medida em que, por essa ocasião, já nos mobilizávamos para a resistência generalizada, cujo percurso culminou com os Acordos de Bicesse e a adopção da República de Angola como Estado democrático e de direito.

Finalmente, a Independência Nacional em si mesma não realiza Angola da felicidade dos angolanos. É também necessário que outras conquistas como a paz, reconciliação, unidade e coesão nacional, sem ignorar o Estado de direito e democrático, sejam materialmente realizadas e preservadas. É, similarmente, necessário que, no quadro material de articulação das políticas públicas, o Estado realize as suas tarefas fundamentais plasmadas na Constituição da República, com vista a promover o desenvolvimento harmonioso e sustentado do País e consecutivamente o bem-estar económico e social dos Angolanos.

Bem-haja o 11 de Novembro de 1975.

 Ernesto Mulato (*)
* Co-fundador da UNITA, Joaquim Ernesto Mulato é deputado do partido, do qual já foi vice-presidente. Depoimento por ocasião da celebração do 46.º aniversário da Independência Nacional

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