Especial

O dia em que Kitexi tremeu

Rui Ramos

Jornalista

Do nada, aparecem pessoas negras, com catanas, “canhangulos”, paus e pedras que desataram a matar. Instalou-se o estado de choque na comunidade branca, habituada à obediência passiva da comunidade negra e a incredulidade, que perdurou para lá da retirada dos atacantes

15/03/2022  Última atualização 07H20
© Fotografia por: DR

Na manhã quente de 15 de Março, uma quarta-feira, dias das grandes chuvas que tudo alagam e atolam, algo surpreendeu a pequena comunidade branca de Kitexi (Ndanji ya Kitexi. "Ndanji”, ou «Lundanji» palavra kimbundu, será "raiz”? Plural Jindanji, em Kikongo Muanzi), composta de fazendeiros de café e comerciantes.

Kitexi dependia da ju-risdição administrativa do Cuanza-Norte até à sua fixação no Uíge, em Julho de 1961, para facilitar a reacção colonial aos ataques nacionalistas e para a afastar da zona dos Ambundu (língua kimbundu). A acção do 15 de Março inicia-se, assim, em pleno distrito do então Cuanza-Norte, estende-se pelo Uíge, Zaire e chega perto de Luanda. Algumas dessas zonas eram a casa do grupo étnico e linguístico hungu (ki hungu), que se concentra maioritariamente ao longo dos dois lados do rio Ndanji, povoando também os mu-nicípios do Puri, Negaje, Kitexi, Uíge, parte do Bungu e Songo.

Do nada, aparecem pessoas negras, com catanas, "canhangulos”, paus e pedras que desataram a matar. Instalou-se o estado de choque na comunidade branca, habituada à obediência passiva da comunidade negra, a incredulidade, que perdurou para lá da retirada dos atacantes, já de tarde. Os insurrectos, quase todos jovens, estavam decididos a executar uma acção de reposição da justiça, porque as relações com os colonos eram baseadas na opressão generalizada de uma comunidade sobre a outra, na arbitrariedade do poder, na ideologia do "ser superior” contra o "ser inferior”.

O pavor entre a população branca era tal, que, de tarde, uma camioneta levou um grande grupo de mulheres e crianças de Kitexi para a cidade do Uíge, onde os portugueses esperavam também um ataque, a qualquer momento. O moral dos militares portugueses não era dos mais elevados, porque temiam um ataque para o qual não tinham muitas forças de reacção, embora o Batalhão de Caçadores se tenha instalado na cidade do Uíge, Toto e Maquela do Zombo, em 22 de Junho 1960, 9 meses antes do 15 de Março.

Por essa altura, foi decidida a criação de um Aeródromo Militar no Norte de Angola, inaugurado no Negaje, a 7 de Fevereiro de 1961, onde operavam aviões Auster, Dornier e Harvard T-6. O armamento dos poucos militares portugueses era no essencial constituído por pistolas metralhadoras FBP, pistolas Parabellum e espingardas Mauser.

Kitexi era zona de grande produção de café e os "contratados" vindos do planalto central eram 4 a 5 vezes mais numerosos do que a população branca da vila e das fazendas. Quando o cipaio Ferraz "tocou o sino", às 8 horas, como o fazia há muito tempo, para o início dos trabalhos dos "contratados", estava dada a ordem de ataque, que foi rápido e fulminante, apanhando de sur-

presa tanto a população branca como os "contratados" negros que trabalhavam nas fazendas dos brancos. Os atacantes actuavam com grande determinação e mataram num primeiro momento um número desconhecido de pessoas.

À surpresa dos brancos segue-se a organização da repressão geral nas aldeias, incendiadas, e à população sobrevivente nada mais restava do que fugir para locais que a protegesse, as matas impenetráveis da Serra do Kimbinde, da Serra do Kitoque, do maciço da Serra da Cananga. O poder dos sobas, que de algum modo equilibrava, mesmo simbolicamente, as relações das co-

munidades negras com os brancos, deixa de existir. Os "contratados", vindos do planalto central, recebem então ordens dos patrões para saquearem as aldeias e muitos acolhem-se depois à protecção dos militares portugueses.

 "Caça  ao negro”

No dia 17 de Março, dois dias depois do primeiro ataque dos nacionalistas a Kitexi, as autoridades coloniais iniciam uma ponte aérea para Luanda, enquanto nos dias seguintes a PIDE toma conta da situação, dando ordens aos próprios militares portugueses. Uma "caça ao negro" é então desencadeada, com alvejamentos indiscriminados. Em Luanda, uns 500 brancos cercam o consulado norte-americano e atiram à baía o carro do cônsul  William Gibson.

O incipiente exército colonial começa a tomar posições, recorrendo a soldados negros de segunda linha, provavelmente originários do Cunene, e a cabo-verdianos, que se evidenciaram pela sua crueldade. Não se conhecem as ligações orgânicas entre os que se propunham lançar acções armadas contra os colonos e a direcção da UPA no Congo. Mas a acção política clandestina era intensa, absorvendo informações que chegavam do Congo. A organização de Holden Roberto já tinha redefinido o seu objectivo de lutar apenas pelo Norte de Angola, alterando a sua designação de UPNA ou UPONA para UPA, por pressão externa. Militantes ou simpatizantes nas aldeias e alguns pastores da Igreja Evangélica ou Protestante estavam de acordo sobre a necessidade de uma acção nacionalista violenta exemplar em todo o Norte de Angola.

No final de 1961, a ONU contabilizava 200 mil angolanos refugiados no Congo-Léopoldville e outros tantos andariam escondidos nas matas. Entre 1950 e 1960, a imigração de portugueses para a região do Uíge cresceu sem precedentes, com milhares de famílias europeias impondo-se aos habitantes, com expropriação de terras, trabalho forçado e desigualdades consagradas na Lei do Indigenato.

 Porquê 15 de Março?

Portugal começava  a ficar isolado na cena internacional. O 4 de Fevereiro tinha colocado a questão do colonialismo e da autodeterminação dos povos na agenda da ONU. Informações "inquietantes" sobre possíveis ataques para muito breve percorriam os meios diplomáticos. O ministro da Defesa português, general Botelho Moniz, encontra-se, a 6 de Março, com o embaixador norte-americano em Lisboa, que, seguindo instruções da nova Administração norte-americana de John Kennedy, que assume o poder em 20 de Janeiro e mantém contactos informais com Holden Roberto, pressiona a alteração da política portuguesa em África, posição que o embaixador transmite a Salazar no dia seguinte.

Problemas graves em Angola, como no Congo, são previsões feitas por Washington, que informa ir votar contra Portugal em 15 de Março. A 10, o Conselho de Segurança da ONU inicia o debate sobre a situação em Angola. A 20 de Março de 1961, começa a discussão sobre Angola na Assembleia Geral da ONU, tendo Portugal abandonado a sessão, como protesto, ante a avassaladora força do grupo afro-asiático. É aprovada a Resolução 1603 (XV), incitando o Governo português a promover urgentes reformas para cumprimento da Declaração Anticolonialista, tendo em devida conta os direitos humanos e as liberdades fundamentais.

Por esses dias, é fundada, em Casablanca, Marrocos, a CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas), que deixa a UPA de fora mas incorpora a Liga de Goa. Conhecedor dos termos da discussão mundial, Holden Roberto, que se desdobrava em contactos diplomáticos, para dar a conhecer o problema de Angola e a sua organização acabada de mudar de designação, jogou na antecipação e, na extensão, isto é, no dia 23, haveria já uma semana de luta armada anticolonial e não apenas um acto de desespero para a ONU discutir.

Entretanto, no dia 31 de Março, uma sexta-feira, em Luanda, o cónego Manuel das Neves, vigário-geral da Diocese de Luanda, é preso e deportado para Portugal. No Norte, Portugal reforça a sua posição, a Damba é atacada pelos nacionalistas em 17 de Abril, depois de as mulheres e crianças brancas serem transferidas para Luanda, tendo os rebeldes retirado sem conseguir levar a bandeira portuguesa, entretanto resgatada pelos defensores da vila, que ainda não possuía guarnição militar portuguesa.

No dia 10 de Abril, os nacionalistas atacam o Úcua, matando 13 pessoas brancas e no dia seguinte outro grupo ataca uma patrulha portuguesa próximo de Tando Zinge, Cabinda. As baixas militares portuguesas são já significativas neste mês de Abril. (18 mortos em combate). A Damba voltaria a ser atacada pelos nacionalistas mais 4 vezes e na última, a 31 de Maio, já havia militares portugueses.

Tropas especializadas são enviadas de Lisboa, por via marítima, sendo os primeiros os pára-quedistas, mas companhias inteiras de caçadores também seguem para Luanda. No dia 2 de Maio, chega a Luanda o primeiro grande contingente militar português transportado por via marítima, composto por nove Companhias de Caçadores, nove Companhias de Artilharia, duas Companhias de Cavalaria e quatro Pelotões de Polícia Militar. Um dos mais importantes desses, o Batalhão de Caçadores nº 109, embarca em Lisboa a 5 de Maio de 1961, desembarca em Luanda a 14 de Maio e, após um mês na capital, viaja por mar para o Soyo e reocupa Quinzau, Tomboco, NZeto, Pedra do Feitiço, Sumba, Bessa Monteiro e Fazenda Loje.

O transporte terrestre das companhias portuguesas era feito em jipes Willys MB 4×4 modelo 1944, "jipões” Dodge 4×4 modelo 1948, camiões GMC 6×6 modelo 1952 e Ford modelo Canada 4×4 (rodado simples). Esta última viatura possuía no tejadilho da cabina, ao lado do condutor, uma abertura circular na qual podia operar uma metralhadora. Logo no dia 13 de Maio, a urgência de aprovisionar o Norte com mais contingentes militares era tal que, com carácter de urgência, é organizada uma coluna de 150 jipes, 20 camiões de quatro toneladas e 6 camiões-tanques. Em algumas das viaturas, foram instaladas protecções em chapa de aço de 10 milímetros. No dia seguinte, chega a Luanda o navio português Vera Cruz, carregado de tropas para o Norte.

Maio é o mês em que Mbanza Kongo é atacada pelos nacionalistas e logo no dia 1 chega a Luanda o novo ministro do Ultramar, Adriano Moreira, que, no dia seguinte, assiste em Luanda ao desfile das recém-chegadas tropas especializadas de caçadores pára-quedistas, que assumem grande hegemonia na guerra.

Nos primeiros dias de Maio, parte de Luanda uma coluna que, no Negaje, se divide em duas, uma avançando para o Songo, Damba e Maquela do Zombo, a outra para o Púri, Sanza Pombo, Macocola, Quimbele e Santa Cruz, ocupando todas as aldeias. O Norte estava em guerra total, com uma contra-ofensiva colonial demolidora, uma repressão extrema e a fuga massiva de populações que das matas tentavam alcançar território do Congo.

A ofensiva diplomática do ditador Salazar, de 72 anos e há 30 anos no poder, não pára e, no fim de Maio, ele dá uma grande entrevista ao jornal "New York Times”, na qual declara que Portugal não tem colónias, mas territórios ultramarinos e que não há guerra em Angola, mas acontecimentos provocados por pessoas vindas de fora. "Há apenas acções militares para manter a segurança pública” é o lema da contra-ofensiva colonial.

O certo é que, em Junho, os portugueses sofrem 30 baixas e, na iminência de ataques em Cabinda, forças da marinha de guerra portuguesa começam o patrulhamento regular do rio Kiloango. Entretanto, em Luanda, a situação no Norte era comentada nos meios dos colonos, que não raro se insurgiam contra o "abandono" a que eram votados pela metrópole. É, então, imposto o recolher obrigatório nos bairros africanos da capital. Durante o mês de Maio, as baixas das forças portuguesas totalizaram 16 mortos.

Em Junho, com a guerra de libertação generalizada no Uíge, Zaire e até Kwanza Norte, com os guerrilheiros portadores já de algumas armas automáticas, é publicado o primeiro comunicado oficial das Forças Armadas portuguesas, referindo a morte de 50 militares entre 4 de Fevereiro e 30 de Junho em Angola. Junho é também o mês da viragem, com a nomeação do general Venâncio Deslandes para os cargos de governador-geral e comandante-chefe de Angola, o Senegal corta relações diplomáticas com Portugal e de Lisboa fogem dezenas de estudantes africanos por via marítima, para se juntarem à Luta de Libertação Nacional.

E não fica por aqui. Enquanto decorria a "inactividade na Metrópole”, o comandante da Região Militar de Angola, general Monteiro Libório, em desespero, já em 1961, com Angola em chamas nacionalistas, clama para Lisboa: ”Devem ser preparadas rapidamente tropas e as Forças Armadas dotadas de meios para que possa cumprir a missão, o que evidentemente não estão a fazer. Estamos a caminhar para uma situação extremamente difícil, que custará à Nação, em sangue e dinheiro, alguns milhares de vezes o que agora muito mais oportuna e economicamente teria que se gastar.”. O general foi substituído.

Seis anos depois, Belgrado, capital da Jugoslávia, recebe, de 1 a 6 de Setembro, a Primeira Conferência dos Chefes de Estado e de Governo Não Alinhados, em grande medida por iniciativa do Presidente jugoslavo Josip Broz Tito, de Nasser, Sukarno, Chu En-Lai e Nehru. Já com a guerra instalada no Norte de Angola, um dos principais temas da conferência foi a corrida armamentista entre os Estados Unidos e a União Soviética e é criado o Movimento de Países Não Alinhados, já com a presença de novos Estados independentes. É feito um apelo à ajuda internacional ao povo angolano, para que constitua sem demora um Estado livre e independente.

 Logo em Março de 1961, a Libéria, país independente da África Subsaariana, apresentou na ONU uma moção, condenando Portugal "por fazer perigar a paz mundial” em Angola. Portugal resiste e ataca, lançando uma intensa e febril campanha de propaganda contra os "acontecimentos de 15 de Março", exibindo nas capitais ocidentais fotografias dos massacres que afirmava terem sido cometidos por "terroristas". A revogação do Estatuto dos Indígenas (de 1956) é publicada a 6 de Setembro, no exacto dia em que o Conselho de Segurança da ONU aprova uma moção contra Portugal.

Mas antes, em Junho, os portugueses criam e regulamentam os Serviços de Centralização e Coordenação de Informação de Angola-SCCIA, considerados "um instrumento de recolha e de manipulação de dados que serviu de base para a prevenção das ameaças, face à constante mutabilidade de um novo tipo de conflito que emergiu em Angola em 1961 - a guerra subversiva com uma guerra de informações travada por um inimigo fugaz, fluido e pouco conhecido". Toda a informação de índole política e militar passa a ter uma estrutura centralizada dependente do Ministério do Ultramar português.

 Guerra no Ambriz

A guerra está no Ambriz, em Mbanza Kongo, e os portugueses especializam as suas forças armadas para a contra-guerrilha, enquanto numa operação conjunta terra-ar tentam reabrir a "estrada do café”, na Serra da Canda. Nambuangongo, tomada pelos nacionalistas desde o início da revolta, começa a ser o foco de recaptura em Julho pelo exército português, que lança a "Operação Viriato", com batalhões de caçadores e cavalaria, apoiados pela artilharia, engenharia e força aérea. No dia 18 de Julho, a estratégica vila é cercada pela tropa portuguesa e, no dia 9 de Agosto, quarta-feira, as tropas comandadas pelo tenente-coronel Maçanita reocupam Nambuangongo, o principal reduto dos nacionalistas, após cerca de cinco meses de ocupação, de que resultaram 21 mortos e 61 feridos entre as forças portuguesas.

Os militares portugueses receberam ordens para decapitar os cadáveres dos nacionalistas e espetar a cabeça em estacas, na tentativa de contrariar os ideais de ressurreição dos nacionalistas que alegadamente acreditavam que voltariam à vida se o seu corpo fosse enterrado completo. Dois dias depois, os portugueses fazem a sua primeira operação militar, com o lançamento de pára-quedistas, sobre a região de Kipedro, e a 24 iniciam uma operação conjunta, com aviação, pára-quedistas e forças terrestres, na serra da Canda.

Se a 15 de Setembro as autoridades coloniais reconhecem a pacificação geral do Norte, 12 dias depois são obrigadas a encerrar a estrada Uíge-Negaje, devido a novas acções militares dos nacionalistas e há pelo menos uma emboscada de forças nacionalistas nas margens do rio Loje. Seis meses depois do início da guerra, o exército português no Norte está muito mais organizado e municiado, com companhias e batalhões especializados, provavelmente com efectivos que ultrapassavam os 15 mil soldados. Neste mês de Setembro de 1961 as tropas coloniais sofreram 27 baixas. É no fim deste mês de Setembro que o Comité Director do MPLA transfere a sua sede de Conakry para Leopoldville (Kinshasa), para se posicionar mais perto da situação de guerra no interior do país. Mas no país vizinho vai encontrar a hostilidade extrema da UPA, que pretende ficar sozinha na luta, dificultando ao máximo a instalação do MPLA, cuja expulsão viria a protagonizar dois anos depois.

Em Outubro de 1961, já com a situação aparentemente pacificada, Portugal faz uma operação de charme, enviando o ministro do Ultramar ao Norte de Angola, que ele percorre por terra, fazendo-se fotografar com um grupo de pessoas com a bandeira portuguesa e homenageando o sipaio Baxe, morto em Março.

No dia 7 de Outubro, o novo governador-geral de Angola, Venâncio Deslandes, dá por findas as operações militares no Norte de Angola, "passando-se à fase das operações de polícia”: "(…) Se a guerra se pudesse compartimentar em fases perfeitamente distintas, diríamos que teriam assim terminado as operações propriamente ditas e estaria iniciada a fase seguinte de operações de polícia, embora ainda em grande parte no âmbito militar.”

Em 3 de Outubro, o exército português retoma Caiongo, último posto em poder dos rebeldes. Em menos de 4 meses, as Forças Armadas Portuguesas reocuparam toda a região afectada. Durante 6 meses, os guerrilheiros, dirigidos por João Baptista Traves Pereira, abatido em 6 de Fevereiro de 1962, na zona do Bembe, ocuparam uma área 4 vezes superior a Portugal, que, entretanto, e numa operação de urgência, cria o corpo de fuzileiros navais direccionados para o Norte de Angola.

No teatro da guerra, a situação parece balançar para o lado das autoridades coloniais, que lançam a Operação "Fava”, que ocupa o Colonato do Vale do Loje, tendo sido capturado um alegado dirigente da UPA, Pedro Tumissungo Cardoso. A meio do mês, as forças especiais portuguesas conquistam a importante posição da Pedra Verde, entre Luanda e Uíge.

Se em Setembro, as autoridades coloniais experimentavam algum conforto, devido à eficácia da contra-ofensiva do seu exércillto, a verdade é que dois meses depois, em 27 de Novembro de 1961, o governador-geral de Angola anuncia "nova actividade terrorista» no Norte do território", numa altura em que Holden Roberto se prepara para constituir a FNLA, como resposta à exigência da OUA de o nacionalismo angolano estar unido e não disperso. Holden Roberto vem a nomear para vice-presidente do Governo Revolucionário de Angola no Exílio-GRAE o cabindense Alexandre Tati, que, posteriormente, deserta para o lado português, formando tropas especiais (TE) contra os movimentos de libertação.

Mas Outubro de 1961 marca também, de forma negativa, a luta dos angolanos. No dia 9, uma coluna militar vinda de Matadi, no Congo, e comandada pelo nacionalista Tomás Ferreira, líder de um Movimento Democrático de Libertação de Angola (MDLA), com o apoio a recém-instalada direcção do MPLA em Leopodville, foi destruída por elementos da UPA. Em comunicado datado mais de um mês depois, a 23 de Novembro, o MPLA informava: "A coluna do comandante Tomás Ferreira tinha por missão atingir a Região dos Dembos e levar socorros de urgência às populações de Nambuangongo que estavam cercadas e ameaçadas de morte pelas tropas portuguesas. O esquadrão era portador de armas, munições, roupas, calçados, medicamentos, material de propaganda política e por meio de ciladas capciosas, grupos armados da UPA cercaram e prenderam o esquadrão na região de Caluca, em território angolano, em 9 de Outubro. Depois de submetidos a espancamentos, fome e humilhações, os guerrilheiros foram massacrados por militantes da UPA”

A UPA, por seu turno, reagia em comunicado e refutava as acusações. "Se o MPLA, sem experiência militar e sem base operacional na zona de guerra, que é a região extremo-ocidental do nosso território, enviou também militares seus sem antes se ter posto de acordo connosco, que somos os melhores conhecedores da região, cometeu um grande erro, pelo que pagaram o alto preço de perderem a vida mais de vinte dos seus membros…”

Dois anos depois do 15 de Março, o comandante do ELNA Marcos Cassanga, ao desertar, deu uma conferência de imprensa, acusando Holden Roberto de mandar matar, no dia 6 de Fevereiro de 1962, João Baptista Traves Pereira, desertor do exército português e chefe das operações do ELNA, que aterrorizou as unidades militares coloniais no Norte de Angola. Cassanga vai mais longe e atribui à UPA o massacre da coluna de Tomás Ferreira: "Holden Roberto, na luta fratricida que implantou em Angola, entre os 8.000 nacionalistas angolanos massacrados sob as suas ordens secretas, destacamos a do comandante Tomás Ferreira e da sua esquadra de 21 membros enviados para o interior do país com o apoio do MPLA. O comandante Ferreira e os seus companheiros foram barbaramente enforcados. A morte do comandante João Baptista deveu-se ao facto de não estar de acordo com o extermínio angolano, por não falar kikongo, por não ser natural de São Salvador e não ser protestante.”

Rui Ramos / Jornalista e Antigo Combatente

 

 

 

 

 

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