Opinião

O dia das ilusões perdidas

Apusindo Nhari |*

Jornalista

“A história não se apaga. A verdade dos factos deve ser assumida para que as sociedades tomem as necessárias medidas preventivas, para evitar que tragédias idênticas se repitam.” PR, 26/05/2021

30/05/2021  Última atualização 08H47
Era uma vez um país - num tempo e num mundo que um muro em Berlim dividia - onde se falava em construir o socialismo.
Respiravam-se fumos de uma independência conturbada, e o drama da guerra não tinha terminado. Restauravam-se ainda as fronteiras a norte e a sul pela afirmação da sua soberania, e os seus pilares institucionais mal tinham sido caboucados.

Internamente - por todo o espaço nacional gerido pelo Movimento que assumiu o poder pós-colonial - a luta política vestia-se de todos os ingredientes que constituem a infância ingénua, e cruel, de uma revolução. Uma mobilização popular generalizada procurava apagar os fogos acendidos por um processo atabalhoado de transição de poder, de fuga maciça de quadros, de um esvaziar abrupto do aparelho administrativo e económico. Eram tempos em que a ideologia aparecia como a nova expressão do Verbo. Com diversas conjugações e interpretações que cada grupo considerava únicas, irrefutáveis e irreconciliáveis. Faziam-se discursos com farpas afiadas.

Os dias eram de uma imensa energia e urgência, só possível nos momentos de êxtase criado pelos grandes sonhos. Onde a juventude predominava, na sua imatura credulidade, com as suas reservas inesgotáveis de determinação para atingir os objectivos traçados pelos seus novos deuses. O Movimento, infelizmente, trazia um percurso de incompreensões, intransigências, e uma teimosa cultura de "apagar o passado” que lhe não conviesse. Confundia-se a luta pelo poder com o declarar das mais sublimes intenções de quem queria construir uma sociedade mais justa.

Muitos jovens - que tudo tinham abandonado para se entregar a essa epopeia, correndo todos os riscos, entregando todo o seu ser num gesto último e generoso - eram, subitamente, algozes, capazes de trucidar o seu companheiro de armas e de ideal, por ter este colocado uma vírgula num local diferente do pensamento que se pretendia impor. Os discursos eram vigiados por olhos incomplacentes que deitavam chispas.

O ambiente densificava-se, animado por comités populares, assembleias de estudantes, e programas de rádio que congregavam no nome, mas dividiam com as suas explosivas manifestações de intolerância. Teses foram escritas, num desvario de afirmação pseudo-ideológica que tinham como pano de fundo as-contas-por-ajustar contra outros companheiros de luta. Identificavam-se desvios. Apontavam-se dedos. Criavam-se inimigos. Os discursos passaram a cuspir balas de metralhadora.

Acossado dentro do Movimento, um grupo decidiu avançar. Convocaram-se as massas, e estas não compareceram. Ocuparam-se pontos estratégicos. Tomou-se a rádio. E nesse dia fatídico, estenderam-se armadilhas onde vários caíram. Neto se escribecon una "e”. Reverteram-se as posições, mas nunca mais se voltou a estabelecer a normalidade. Porque nunca mais o país foi o mesmo. Nessa sexta-feira de Maio encontraram-se, metralhados, os que tinham sido detidos pelos revoltosos. Foi determinada - numa declaração ditada pela emoção - a proscrição dos envolvidos na intentona. Abriram-se as comportas para todos os oportunismos. Predominaram os que tinham maus fígados. Os discursos eram rios de sangue que inundavam o cérebro e o discernimento.

Numa cega reacção a um acto ditado pelo narcisismo ideológico de um punhado de jovens revoltados, legitimaram-se todos os excessos. Membros de grupos com as siglas mais diversas, - que se assumiam também como inimigos ideológicos de quem promoveu a intentona -acabaram por ser igualmente acossados. Presos. Por vezes, trucidados, com outros que estavam também encarcerados pelas mais variadas razões. Ou sem elas.

Como depois de um furacão, nunca se soube exactamente a real dimensão das perdas. Em muitos casos apenas as ausências clamam. A destruição (para além de vidas, quantas inocentes!) da livre iniciativa de pensamento, da verdadeira crítica, da capacidade de expressar ideias sem grilhetas apegadas, sem medos, foi incomensurável. Como sempre acontece nestes casos, ganharam os medíocres. Os mais rasteiros, que viram uma oportunidade para, através de uma pretensa lealdade, afastar todos os que se poderiam transformar em incómodo na sua trajectória para se achegar ao poder. Para beneficiar dos despojos. E os discursos passaram a ser de robots anestesiados.

Do caos, emergiu um país muitíssimo mais pobre. Que 44 anos passados, desespera por encontrar uma maneira de ultrapassar tamanho embaraço histórico. Levou demasiado tempo a encarar - com alguma verdade e coragem de olhar nos olhos - o desastre colectivo que tinha acontecido. Talvez pela dificuldade de admitir a gravidade dos erros cometidos. Ou por continuarem presentes algumas das raízes do mal que tornaram possível o descalabro.

Será que se poderia ter seguido outro caminho? Claro que sim! Mas o caminho que culminou nesse fatídico dia começou muito antes. Começou no cultivar da intolerância, no insuficiente valorizar da vida humana, na falta de instituições judiciais autónomas, nas desinteligências entre quem o calcetava nos primórdios da organização de um Movimento que trouxesse a independência. E na falta de cuidado em "assumir a verdade dos factos” (apenas possível se cultivarmos, sem receio nem complexos, a sua procura permanente). Começou aí.
E acabou no cemitério de tantas ilusões…

* Jornalista independente


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