Opinião

O Dia da África sem paz

Luciano Rocha

Jornalista

O Dia de África, comemorado, ontem, pela 59ªa vez, espera-se ter servido para lembrar que o caminho para o progresso do continente é longo e repleto de alçapões que não se compadecem com egoísmos e imitações bacocas.

26/05/2022  Última atualização 09H20

Os países que o compõem continuam, na generalidade,  dependentes por razões, que se arrastam há séculos, geradas por causas externas, mas, igualmente, internas - é bom que se diga e rediga, em nome da precisão - que os fragilizam para gáudio dos mesmos de sempre.

As dependências de África atingem, sem excepções, todos os sectores e não é do dia para a noite que desaparecem. Tão-pouco com operações de cosmética, que à primeira lavagem põe a nu a verdade. Pelo, contrário, não raro agudizam-se como facilmente se comprova.

O Dia de África foi assinalado, ontem, uma vez mais, rodeado por doenças, tantas, que referi-las ocupava o jornal inteiro e sobravam páginas; fome, na autêntica acepção da palavra; violência, em todas áreas nas quais pode manifestar-se, estando para aparecer a primeira que não atinja; ignorância, amiúde incentivada e  aproveitada por  ignobeis.

Todo aquele cenário é reflexo do colonialismo que chegou até nós interpretado por actores com várias farpelas, máscaras e falas, mas as mesmas artimanhas e objectivos: pilhagem, exploração e exploração de todas as riquezas de nossos solos, subsolos, rios e mares. Àquelas juntaram a maior de qualquer uma delas: Vidas Humanas. Como troca deixaram desumanidade.

O vazio de quadros, na generalidade dos Estados africanos, reflectem, no fundo, as dificuldades vigentes no nosso continente. A isso acrescenta-se o êxodo de parte significativa de pessoal capacitado em várias áreas. Tão grave, ou mais, a presença de "especialistas” com canudos de duvidosas proveniências, além das pragas universais do nepotismo e corrupção que, tal qual pandemia, não param de brotar.

A caminhada para libertação completa de África é longa e espinhosa. Desenganem-se os que, sabe-se lá porquê, pensam de forma contrária, como sucedeu com aqueles que imaginaram que as proclamações das independências nacionais bastavam.

Um hino, uma bandeira, o reconhecimento da nacionalidade escarrapachado em documentos oficiais são  indiscutivelmente de suprema importância. Apenas percebe quem viveu a situação de ser obrigado a preencher, por exemplo, formulários  em tempos anteriores às independências. Para a maioria destes, contudo, certamente, não chega. Sabe bem, é verdade, mas a pouco. Esse sentimento que tem de ser incutido nas novas gerações, para perceberem que um país não se constrói com a facilidade e a rapidez com que se veste e despe uma peça de roupa. Requer uma série de princípios, nem sempre fáceis de implementar por  colidirem com interesses instalados e mentalidades assimiladas por costumes estranhos ao do continente.

O nosso continente não vive ainda em paz, jamais a conhecerá enquanto houver guerras fomentadas, ditadores ou candidatos a isso. O mal não é de hoje. Agostinho Neto, primeiro Presidente angolano, alertou para a gravidade da situação, quando, numa cimeira de Chefes de Estado, em Addis Abeba,  alertou para a situação, ao dizer que havia colonialistas africanos.

O caminho a percorrer para o envolvimento de África é longo e espinhoso. A escritora moçambicana Paulina Chiziane declarou, recentemente, a uma estação televisiva de Portugal, referindo-se às antigas colónias daquele país no continente, serem precisos cinco séculos, tantas como os da ocupação, para haver paz.

A escritora e sábia, que deu exemplos das consequências, a diversos níveis da presença colonialista, recordou que continua a ter pesadelos causados pela guerra.

África nossa, o continente mártir, há-de um dia ser terra de paz. Até lá, resta-nos a todos lutar por isso.     

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