Política

O desvio do avião DC-3 de Luanda para o Congo-Brazzaville

A sociedade colonial luandense há muito tempo não tinha notícia de uma acção nacionalista espectacular. O desvio do avião por três militantes do MPLA, ou “terroristas”, como lhes chamavam, abalou os dias calmos da grande capital, embalados por uma guerra que parecia longínqua nas florestas do Norte e nas chanas do Leste.

04/06/2020  Última atualização 11H05
DR © Fotografia por: “Kiambata” e Nelito Soares após o desvio do avião em 1961

Já iam longe o 4 de Janeiro, o 4 de Fevereiro e o 15 de Março. A metrópole tinha enviado uma poderosa força militar e policial para defender a “jóia da coroa” portuguesa e agora caía no colo dos colonos o desvio de um avião, facto inédito em Angola. E à boca-cheia, a sociedade branca comentava: “Se a metrópole não nos defende, nós vamos defender-nos, não precisamos deles…”.

Éramos todos ainda muito jovens, a maioria de nós estava a completar 20 anos e o nosso activismo político tinha a marca da aventura e da coragem adolescente contra o sistema colonial português, num contexto de feroz repressão contra o nacionalismo, que não conhecia qualquer contemplação.
Dois acontecimentos marcaram esse já longínquo ano de 1969, há 51 anos, 8 anos depois do 4 de Fevereiro e quase 4 anos após a formação do Grupo de Acção Kimangwa do MPLA, em plena Luanda colonial, rodeado da mais estrita clandestinidade, por jovens sem qualquer experiência de luta política e muito menos na clandestinidade.

Ficou o nome “Kimangwa”, mas era para ser “Kimwanga”. E após 4 anos, tínhamos no nosso activo grupo de jovens, longe de atingirem sequer os 25 anos, em torno de um objectivo maior, a Independência Nacional de Angola. Foi com a consigna do MPLA “Vitória ou Morte” que se preparou a operação do desvio do avião DC-3 da DTA para o Congo-Brazzaville.

A operação foi rodeada de secretismo extremo, só conhecida por um grupo muito restrito de militantes, pois a Polícia portuguesa (PIDE), por intermédio do chefe de Brigada Vieira, kambuta atarracado, de cabelo ondulado, andava sempre atrás de nós como cão rafeiro farejando comida. Nem o próprio Comité Director do MPLA conhecia a iminente e inédita operação.

Não era fácil o contacto dos militantes do interior do MPLA com o Comité Director em Brazzaville, quantas vezes era necessário trocar mensagens e nós íamos muito longe, utilizando o espaço das mensagens da própria Emissora Oficial de Angola, ouvida em onda curta nos países vizinhos, com frases codificadas.
O Kimangwa estava integrado no Comité Regional de Luanda do MPLA. O coordenador-geral era Juca Valentim (“Tetembwa” ou “Kangongo”), mas ouvíamos dizer que Diogo de Jesus coordenava, igualmente, todas as estruturas, que se estendiam da Ilha aos bairros periféricos, passando pela Vila Alice. Viemos a saber, mais tarde, pela quantidade e localização das inúmeras prisões feitas pela Pide.

O Grupo de Acção Ki­mangwa era uma estrutura que se movia informalmente. A nossa acção mais parecia a de um grupo de amigos e mesmo a PIDE tinha dificuldade em definir-nos. Em minha casa, a minha mãe oferecia lanches ao grupo, organizávamos pequenas festas dançantes com as nossas namoradas, que também eram militantes. Quantas vezes nos reuníamos clandestinamente no Banco de Urgência do Hospital de S. Paulo (Américo Boavida), onde tínhamos um militante, o médico António Ferreira Neto.

4 de Junho 1969: o desvio do avião

Recordo que, num certo dia, à hora de almoço, o meu pai, Clementino Gonçalves Martins Ramos, desabafou: um funcionário pediu-me para visitar a família em Sazaire e para lhe passar uma guia de marcha. Não era muito habitual, naqueles tempos, uma pessoa negra solicitar uma guia de marcha para viajar de avião. Mas o meu pai assinou.

E lá embarcam no avião da DTA com destino a Sazaire os nossos três jovens militantes: Luís António Neto “Loló Kiambata”, Nelito Soares e Diogo de Jesus. A PIDE procurou saber quem tinha passado “uma guia de marcha a um terrorista” e recordo que o meu pai foi incomodado e interrogado pela Polícia Política portuguesa e teve muita sorte de não ser preso, nem perder o emprego.

Nunca mais esqueço o semblante preocupado do meu pai, de quem recebi sempre apoio total na minha luta pela Independência Nacional e nas prisões para que fui atirado. Soubemos do desvio do avião para território do Congo-Brazzaville e da chegada dos nossos camaradas, quando Loló Kiambata transmitiu, aos microfones da Rádio Brazzaville, no programa Voz de Angola Combatente, a mensagem: “Atenção Luanda, atenção Luanda, pombas brancas podem significar guerra!”

A operação, na verdade, foi preparada com minúcia e a obtenção das armas foi a parte mais difícil. Não era fácil conseguir-se uma arma e ainda por cima a estrutura clandestina pretendia duas, pelo menos. As ligações para o efeito estenderam-se da Ilha ao Cazenga, mas sem informação correcta do objectivo, pois isso podia fazer fracassar a operação e atirar para a cadeia um número incalculável de pessoas.

Eu soube mais tarde que tinha sido conseguida uma pistola e uma granada e é interessante hoje saber que, há 51 anos, em pleno tempo colonial, três militantes nacionalistas embarcaram armados, sem problemas, num avião da DTA (depois TAAG), no Aeroporto de Luanda. Nós tínhamos militantes no Exército colonial, mas a sua incumbência era tentar desviar munições para envio para a Primeira Região-Dembos.

Na verdade, era necessário ligar o interior e o exterior, sediado no Congo-Brazzaville, pois havia uma “descontinuidade de co­nhecimento”. Nós éramos muito autónomos, mas ouvíamos sempre, em minha casa ou em Cacuaco, por causa das interferências, a Voz de Angola Combatente e essa era a nossa quase única ligação à Direcção do Movimento. Uma parte das ligações era feita por intermédio de algumas hospedeiras da TAP, que se prontificavam a levar cartas para o exterior do território angolano, para serem expedidas depois para a Direcção do MPLA.

O Comité Regional de Luanda do MPLA, na sua estrutura urbana, naqueles difíceis anos, propunha-se apoiar as zonas rurais da Primeira Região Político Militar, sediada nos Dembos, que se sabia estar cercada pelas Forças Armadas portuguesas e carecia em absoluto de alimentação e de munições.

Por orientação do Comité Director, as ligações eram feitas, em 1968-69, por um camionista português (pseudónimo “Lua” e “Vostok”), que se descobriu mais tarde ser informador da PIDE e que sabotava muitos dos nossos envios clandestinos de alimentação e munições para os Dembos.

Houve então uma afronta ao sistema colonial português, bem no interior das suas barbas e na grande capital angolana. O desvio do avião foi uma operação realizada com êxito, mostrando às autoridades coloniais e à sua Polícia Política que havia quem, dentro de Angola, conseguia realizar operações espectaculares.

A vigilância policial redobrou, mas nós não afrouxámos a nossa acção de sensibilização e mobilização. E, temerários, pretendíamos mesmo lançar a guerrilha urbana. Para o efeito, fui incumbido, pelo Comité Regional de Luanda, por intermédio de Juca Valentim, de dactilografar, em stencil, para posterior impressão, o Manual de um Centro de Instrução Revolucionária Urbano (CIRU), que viria a ser apreendido em minha casa, em Novembro de 1969, por altura da minha prisão.
Eu também fora responsabilizado por me deslocar a Lisboa para adquirir uma policopiadora (gestetner), a que chamávamos “o gira-discos”, e transportá-la para Luanda num navio cargueiro, a bordo do qual fui preso, em Novembro de 1969, em plena Baía de Luanda.

Em Outubro de 1969, por ocasião das eleições em Portugal, o CRL decidiu escrever nas paredes de Luanda: “Somos angolanos não votamos nas eleições portuguesas”. A PIDE tinha reforçado a vigilância. Os nossos movimentos, que já duravam alguns anos, passaram a ser rigorosamente controlados, culminando na prisão de Juca Valentim e da estrutura principal do CRL. Daí em diante, um a um, fomos sendo presos, primeiro os mais velhos, depois os mais jovens de 18-19 anos. Um número mesmo assim grande, para uma estrutura política clandestina que se movia no meio de enormes perigos no dia-a-dia da grande capital.

Diogo de Jesus, contaram-nos mais tarde, foi morto em combate; Nelito Soares foi assassinado por militares portugueses na Vila Alice, em 27 de Julho de 1975. Muitos militantes do Grupo de Acção Kimangwa e de outros de que desconhecíamos o nome, devido ao rigor da clandestinidade, foram deportados para o Tarrafal e S. Nicolau. Os dois militantes brancos foram enviados, sob prisão, para a cadeia de Caxias, em Portugal, e integrados num processo que envolvia o presidente de Honra do MPLA, Joaquim Pinto de Andrade, tendo sido pedida para nós a pena de 24 anos de cadeia por “traição à pátria portuguesa”.

De todos nós, jovens com uma ideologia anticolonial firme, sem pactos com o sistema opressivo colonial, uns já morreram, outros, como nós, estão vivos e recordam sempre esses tempos de militância activa e incondicional, em que nos movíamos por ideais e nunca por valores materiais. Uma juventude hoje esquecida mas que proporcionou condições para a libertação da Pátria.

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