Opinião

O delegado Feijó

O Dia das Mães sempre foi um dia muito especial para todos os filhos, mormente para mim, que sempre considerei que a minha era, enquanto viva, a pessoa mais importante do universo.

15/05/2022  Última atualização 17H50

No último domingo que celebramos esta efeméride em família – já lá se vão 40 anos –, a minha mãe, os meus irmãos e eu começamos o dia assistindo à missa na Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, no Cariango. Como era costume, depois da celebração, entre acenos e abraços, fui cumprimentar a mana Filipa, a minha querida madrinha, o que fazia catequeticamente dando dois beijinhos nas suas faces angelicais. A seguir – isso era já um ritual mundano infalível – levou-me à praça do Liz, onde me pagou uma foia de quissângua a estalar com cola e gengibre e dois micates da mamã Mirie. O Dia das Mães começara muito bem para mim.

Quando chegamos a casa, o senhor Teixeira, o Kapopa, fazia o que habitualmente fazia aos domingos de manhã: matava sempre um leitão, que era despelado com fogo alimentado por gasolina. Era costume os circunstantes participarem na degustação da gravata, que era servida com bastante jindungo como troféu para os que participavam na matança e da limpeza do bicho.

Afastei-me sorrateiramente da minha mãe e resolvi ficar para apreciar e participar no espetáculo. Ela, hábil e suave, abraçou-me ternamente e sussurrou baixinho no meu ouvido: as bênçãos do senhor devem ser derramadas sobre a nossa casa.

Obedeci ao chamado. Fomos para a casa. O aparelho de som de marca Silvano repousado sobre o armário de fórmica castanha estava ligado. Tocava o indicativo do programa Manhã de Domingo. Bebi um copo de água fresca para disfarçar a ansiedade. Troquei de roupa. Vesti uma camisola de lã e um calção multicolor, feito de retalhos de tecidos comprados no esquema às trabalhadoras da "Fiaco”, calcei os meus chupas da "Sociedade Zairense de Plásticos” e saí a correr para ver o leitão que estava a ser preparado. No rádio, tocava já Dia das Mães de Vitor Mateus Teixeira "Teixeirinha”.

A manhã ia calma e fria. O sol, preguiçoso e com medo do cacimbo que se avizinhava, apresentava-se timidamente de vez em quando. De repente, no momento que o artista ia virar a peça, uma grande explosão. A gasolina tinha se acumulado debaixo do animal e, ao levantá-lo, entrou em contacto com o fogo. As chamas tomaram conta do cenário. Perdi os sentidos. Desmaiei. Quando dei por mim, cinco horas depois, já na sala de internamento do hospital do São Paulo, fui informado do diagnóstico médico: trata-se de uma queimadura do segundo grau. O tratamento terá que ser em ambulatório, pois não há, cá, condições para o efeito.

A minha mãe, sempre ao meu lado, olhava para mim com os olhos marejados, mas conservando sempre a alegria e a esperança que a caracterizavam, e eu, nos meus pensamentos, martirizava-me por ter estragado o Dia das Mães da minha mãe.

O meu irmão Paulo contratou um médico para tratar do meu caso. O doutor M. Kitumba, meu médico particular, foi o responsável, não só pela minha total recuperação, mas também pela minha intimidade com os livros e com a leitura.

Como estava na iminência de perder o ano lectivo naquele ano, o doutor resolveu meter-me a ler. Nos dias de curativo, trazia sempre um livro ou uma revista ou um jornal. A minha tarefa era lê-los e resumir a informação.

Li a "Galinha Preta ou os Habitantes do Subterrâneo” de Antóni Pogorêlski, "As Aventuras de Tom Sawyer” de Mark Twain, "A Cidade e a Infância” de José  Luandino Vieira, "Poemas no Tempo” de Arnaldo Santos, "O Segredo da Morta” de A. Assis Júnior, "Regresso Adiado” de Manuel Rui Monteiro, "Uanga – Feitiço” de Óscar Bento Ribas, "Nu Entre Lobos” de Bruno Apitz, "As Aventuras de Ngunga” de Pepetela, "Os Discursos do Mestre Tamoda” de Wanhenga Xitu, "Sagrada Esperança” de António Agostinho Neto, "Os Maias” de Eça de Queirós, "Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco, "Dom Casmurro” de Machado de Assis, "O Velho e o Mar” de Ernest Miller Hemingway, "Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marques, "Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões, "As Vinte Mil Léguas Submarinas” de Júlio Verne, "Viagens na Minha Terra” de Almeida Garret, o "Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiras”, a "Revista Burda”, a "Readers Digest”, a "Peter Jansen”, "Pato Donald”, "Mickey Mouse”, "As Aventuras de Zé Carioca”, a "Enciclopédia Juvenil” da Editora Verbo, a Coleção "A Ciência ao Alcance de Todos”, "Matemática Recreativa”, "Fundamentos da Filosofia”, "Histórias da Medicina” e muito, muito mais.

Passaram-se muitos meses, melhorei e, segundo o doutor Mateus, estava pronto para outras aventuras, as minhas aventuras, desde que fossem longe do fogo, claro! Voltei para escola. Retirei a delegada de turma do seu posto, numa espécie de golpe de Estado palaciano, depois de termos sido submetidos a uma prova de aptidão, para ver quem era o mais inteligente entre o antigo delegado, que era eu, e a nova, a mulata Linda, e até hoje, para os meus coleguinhas, sou o eterno delegado Feijó, aquele que virava Lobisomem nas noites de lua cheia.


A. Fragoso Trindade

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião