Opinião

O crédito malparado

A promessa de uma empresa, de direito angolano, de introduzir soluções tecnológicas e estratégias para reverter a situação de crédito malparado na economia angolana, além oportuna e urgente, apenas peca por tardia. O percentual de valores emprestados, quer como crédito à produção, quer como crédito ao consumo, não pode continuamente constituir um empecilho aos esforços de reforma, crescimento e desenvolvimento.

10/10/2020  Última atualização 17H16

Na verdade, se ao menos os números do crédito malparado traduzissem um ambiente diferente, em que fosse visível o fim do período recessivo, em que fosse tangível o crescimento da economia, o desenvolvimento e o bem-estar das famílias, provavelmente a preocupação e o alarmismo não seriam acentuados.

Obviamente que o cálculo feito em Fevereiro, segundo o qual o crédito malparado representava o equivalente a 4,1 mil milhões de dólares, segundo uma especialista, estará hoje muito aquém dos números apontados relativos àquele período.

Precisamos de superar esta fase, de “forte tendência para o crescimento do crédito malparado” com números a duplicarem de ano para ano e, paradoxalmente, a contrastarem com o ambiente económico em que nos encontramos. Para aonde vai todo esse dinheiro do chamado crédito malparado, que pouco ou nada se reflecte na condição das empresas, das famílias e do Estado, quando se sabe que as instituições bancárias, regra geral, impõem medidas draconianas para a concessão de crédito?

Mais do que encontrar culpados, que os há, seguramente, é preciso que aprendamos com o que se está a passar para que não caiamos na situação em que nos queixamos da falta de dinheiro ao mesmo tempo que muito dinheiro se perde, transformando-se em crédito malparado.

Esperamos que a ajuda que a empresa Positiva promete, uma agência de cobrança, de capitais 100 angolanos, se efective tão cedo quanto possível atendendo que as perdas para a banca angolana são monumentais. É preciso, sobretudo, que as instituições bancárias que vivem esse crónico problema do crédito malparado, se sintam mobilizadas e interessadas nas iniciativas ligadas a correcção deste mal endémico.

Numa altura em que o Banco Central orienta os bancos comerciais para concederem créditos em condições mais favoráveis ao sector produtivo e com mais celeridade, não há dúvidas de que importa reforçar os mecanismos que reduzam os factores de incumprimento dos beneficiários.

Ninguém espera, nesta fase em que os indicadores da produção nacional encorajam, no quadro de substituição gradual e significativa das importações, que o aumento do crédito por parte da banca incida também no incremento da degradação da relação credor-devedor. A forte procura do crédito por parte dos nossos produtores e até mesmo pelas famílias não deve ser facilitado descurando-se as medidas conexas.

É preciso que não sejam repetidos os erros do passado, em que a concessão de crédito era também efectivada mesmo ante à inexistência de garantias reais, mal esse que, na maioria dos casos, contribuiu para maximizar o chamado crédito malparado.

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