Opinião

O comboio desgovernado impedido de pior destino

O leitor fica avisado que o tema da crónica não se baseia no discurso do Chefe de Estado à Nação que, propositadamente, não ouvi na altura, nem li antes de a escrever, deixando isso para depois.

17/10/2019  Última atualização 10H10


O que não me impede de opinar sobre o estado do país e, em simultâneo, colocar perguntas quanto a causas dele ter chegado ao ponto a que chegou e do qual, percebemos todos, não consegue sair tão cedo, pois, como tudo na vida, destruir não custa nada, construir requer maior esforço e reconstruir mais ainda.
Muitos de nós, apesar de sinais que, a partir de dado momento, começaram a surgir e foram crescendo, primeiro de malembe-malembe, depois em forma de catadupa, que o rumo que o país tomara não augurava nada de prometedor e que o desfecho era inevitavelmente catastrófico, a não ser que alguém, com poder para tal, se dispusesse a correr o risco de agarrar o freio e tentasse impedi-lo de espatifar-se todo, qual comboio descontrolado a descer uma série sem fim de serras da Leba. O exemplo talvez peque por defeito, mesmo que uns quantos, movidos pela raiva de privilégios estancados, queiram apresentar-se como donos de uma razão que era apenas deles, mais ninguém a tinha, sequer percebia e afivelem rostos de indignação, salpicados de “lágrimas de crocodilo”, não raro acompanhados de sinfonia desafinada de choros da hiena na hora de bater à porta para enganar a vítima, mas que, quando quem o atende levanta os braços e fica mais alto, põe o rabo entre as pernas e desata a fugir, deixando atrás dela o cheiro nauseabundo que a caracteriza.
O argumento de que o país está pior do que quando se impediu que se espatifasse todo, estivesse ainda em estado muito mais deplorável do que ainda está, somente pode ser apresentado por aqueles que sentem cerceadas regalias que se deram a eles próprios e os levava a actuar como donos e senhores de tudo quanto lhes permitia satisfazer apetites e sonhos malévolos guiados pelo egoísmo que tolamente os fez - e continua a fazer - julgar ter no umbigo o centro do mundo. Alguns destes figurões, tal qual hienas, quando perceberam que a festança caminhava para o fim, puseram-se ao fresco e foram ao encontro do que pilharam. Outros, andam por aí, como lobos envoltos em pele de cordeiro, sem perderem ares - e vidas... - de grandes senhores.
O estado a que chegou este país deve-se a um leque variado de ocorrências, que passa pela crise económica internacional, cuja chegada até nós era anunciada, embora não tivesse sido minimamente preparada a forma de a receber, mas também a outros males, que se conhecem e a tornaram mais sentida. Não surgiram agora. Afinal, quem vulgarizou a corrupção? E o nepotismo, impunidade, bajulação, absentismo laboral? Quem beneficiou com a construção, em nome do povo, de estradas, pontes, campos de aviação, bairros, urbanizações? Quem ganhou com os desvios de rios para pilhagem do nosso subsolo? Quem enriqueceu com a poluição do mar e praias de Angola? Quem são os culpados pelo alastramento de ravinas e falta de furos de água nas províncias onde a seca não é coisa nova? Quem encheu os bolsos com medicamentos que evitavam mortes de tantas pessoas que não os tinham para tomar, nem dinheiro para os comprar no mercado paralelo? Quem teve a ideia de roubar o material escolar de distribuição gratuita para o pôr à venda na rua? Tantas interrogações com respostas tão simples. Se eu fosse António Jacinto dizia para perguntarem aos “ventos do sertão e aos riachos de alegre serpentear?. Como me escasseia o talento do poeta, sugiro que a pergunta quanto às origens do estado em que está Angola seja feita de “Cabinda ao Cunene, do mar ao Leste”. Certo de que a resposta em coro estrondoso há-de ser “os marimbondos”.

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