Opinião

O clima das cimeiras e o clima das ruas *

Havia expectativas de que a Cimeira de Glasgow ficasse para a história por bons motivos. Infelizmente, tudo indica que não será o caso. Ainda não será desta que se consegue um compromisso global e concreto para limitar as alterações climáticas.

13/11/2021  Última atualização 05H20
Cinco anos depois da entrada em vigor do Acordo de Paris, a sensação geral é que continuamos a empurrar o problema com a barriga. A ambição fica presa nos discursos e raramente é transportada para compromissos oficiais. Esta passividade, como demonstram as dezenas de milhares de pessoas que se manifestaram nas ruas de Glasgow, é cada vez mais difícil de aceitar e de justificar.

É que, perante todos nós, as consequências reais das alterações climáticas começam a sentir-se de forma cada vez mais evidente. Na Europa, incêndios tremendos e cheias sucessivas têm causado numerosas vítimas, desalojados e um enorme rasto de devastação. Conhecemos agora também a história da primeira "fome climática”, em Madagáscar, onde mais de um milhão de pessoas estão privadas de alimentos, consequência das extremas condições climatéricas que se verificam na quarta maior ilha do mundo. Tudo factos que deviam ser motivo mais que suficiente para falarmos em emergência.

Mas, além dos fenómenos extremos, há também consequências no comum dia-a-dia de todos nós, como o aumento dos preços da energia. Perante o atraso e a falta de planeamento na transição energética, são os cidadãos a pagar a factura. Se, no passado, faltou o planeamento antecipado para desenvolver a soberania energética da Europa, que agora não se repita o erro na promoção das renováveis e alternativas de baixas emissões.

Não há que dourar a pílula, temos mesmo escolhas difíceis para fazer. Combinar a capacidade industrial da União Europeia e o compromisso comum dos 27 países com objectivos climáticos ambiciosos será a única forma de aspirar a uma transição de sucesso, que assegure a sustentabilidade ecológica, ao mesmo tempo que seja fonte de crescimento económico e de criação de emprego.

Neste processo, ninguém pode ficar para trás, ou estaremos a cometer os mesmos erros à espera de resultados diferentes. Recorde-se o nascimento do movimento dos "coletes amarelos” em França, depois de ter sido criado um imposto adicional "verde” sobre os combustíveis, sem se fazer acompanhar de medidas mitigadoras para os mais afectados.

Não tem de ser assim; não pode ser assim. A dimensão social tem de estar plenamente integrada na transição para a sustentabilidade ecológica. A transição exige capacidade de mobilizar recursos públicos e privados para as energias limpas e tecnologias verdes, garantindo a competitividade e a liderança da economia europeia.

Os discursos já foram feitos, as imagens das tragédias já foram vistas, vidas já se perderam. Na rua, como lembrou Barack Obama, há jovens irritados com esta inércia. Mais ainda quando ouvem promessas de metas climáticas adiadas para daqui a 50 anos.
 
* Texto, com base no novo Acordo Ortográfico,
 saído no Diário de Notícias

Pedro Marques

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