Cultura

O cantor da frondosa “Mafumeira”

Analtino Santos

Jornalista

A morte de Tonito Fortunato na passada segunda-feira mexeu com o meio artístico e a sociedade angolana no geral, mas sem dúvidas é na classe dos músicos, depois evidentemente da família, que a perda foi mais sentida

07/08/2022  Última atualização 14H47
© Fotografia por: DR

Tonito Fortunato deixa-nos fisicamente mas as suas composições continuarão a ser escutadas e revisitadas. Como recordação ficam os vários momentos em palco, partilhados com o Duo Canhoto, e a sua participação em debates e noutros eventos. A paixão e a defesa da cultura nacional, o seu posicionamento enquanto cidadão e intelectual em questões de identidade nacional e enquanto servidor público como funcionário do Ministério da Cultura, onde exerceu vários cargos, ficarão para sempre marcados na memória dos que o conheceram pessoalmente e dos amantes da música e da cultura angolana.

Como homenagem o caderno Fim-de-Semana faz um retrato do artista a partir dos momentos captados na sua participação no Show do Mês como convidado de Carlitos Vieira Dias e no lançamento do seu álbum "Mafumeira”.

 

Das Turmas aos Conjuntos 

Nos tons e sons do mestre da guitarra Carlitos Vieira Dias a Nova Energia, para o Show do Mês Live, levou como convidado Tonito Fortunato. O concerto aconteceu no dia 11 de Julho de 2020 no CHE - Complexo Hoteleiro da Endiama. Num outro momento Tonito, apesar de ausente fisicamente, foi bastante evocado no reportório do concerto "Re-Clássicos”, que continha várias composições musicais suas, igualmente no âmbito do Show do Mês, desta feita em Maio de 2022. O registo videográfico do primeiro concerto ainda pode ser apreciado nas plataformas digitais do Show do Mês. Tal registo pode servir de pequeno guia para as novas gerações conhecerem um artista que foi actor de primeiro plano nas diferentes fases de evolução   da música popular angolana, com forte impacto na consciência nacionalística. O artista interpretou "Kurikuté” e "Undengue Uami”, composições suas conhecidas nas vozes de Sara Chaves e Ruy Mingas, assim como ”Malalanza”. O artista em ”Undengue Uami” chegou a fazer um dueto com Dodó Miranda. Um outro tema de sua autoria, "Nzala”, é ainda hoje um sucesso na voz de Carlitos Viera Dias. Nos anos 80 André Mingas popularizou outra composição de Tonito: "Nzambi”.

Tonito Fortunato desfrutava tranquilamente do estatuto de um dos mais importantes e respeitados compositores angolanos, bastante conhecedor do movimento cultural-artístico luandense de hoje e de antanho, com incidência para o eixo Bairro Operário-Bairro Marçal. O jovem com mais de 80 anos partilhou vários momentos artísticos com Carlitos Vieira Dias. Ambos estiveram no Ngola Ritmos e na fase inicial do Conjunto Merengue, Tonito chegou a fazer parte desta formação como homem da Dikanza, mas depois tomou outros rumos.

 

Álbum "Mafumeira”

O álbum "Mafumeira” saiu do forno e foi apresentado no dia 27 de Março de 2015 no Memorial Dr. António Agostinho Neto. Depois aconteceu a venda pública na Praça da Independência. O projecto discográfico marcou o regresso esperado após longos anos de carreira e ausência na actividade artística pública. 

O disco teve a produção da Kissanje, superiormente dirigida pelo também músico e contemporâneo de Tonito, Mauro do Nascimento. São no total 11 músicas acopladas à obra que teve a produção artística de Simmons Mansini, além de contar ainda com um naipe de peso de excelentes instrumentistas angolanos e estrangeiros, com destaque para Nino Jazz, nos teclados, Dalú Roger, que viajou pelas percussões, Dinho e Hélio Cruz dividiram a bateria, Correia Miguel nas congas e dikanza, Joãozinho Morgado foi chamado para acentuar a batida do semba, enquanto que o grupo Nguami Maka conferiu o toque mágico da percussão tradicional.

E não foi tudo: Totó, Carla Moreno, Gary Sinedima, Sara Dem, Rosa Baptista, Aninhas e Alexandre Silva (Dedé) emprestaram as suas poderosas vozes nos coros. Pelo ecletismo e a universalidade musical que Tonito habituou os angolanos, houve, pois, a necessidade de introdução de músicos estrangeiros da dimensão de Olivier Ker Ourio, na harmônica, João Frade (acordeão), Cristian Martinez (trompete e bugle), Philipe Henry (trombone), David Naurin e Michel Lenert (violinos), Claire Spangero (violoncelo), Gregory Louis (congas e bateria), assim como o experimentado Conti Bilong, que era o baterista de Manu Dibangu.

Três são os temas que ao longo dos anos têm tocado com alguma regularidade nas rádios, designadamente os sucessos e clássicos "Monami Xico”, "Undengue Uami e "Canto Evocativo”, este último uma das novas propostas do disco "Mafumeira”.

Segundo o próprio Tonito explicaria, "Monami Xico” realça a cobrança do imposto indígena na época colonial, que levava às rusgas nos musseques, assim como às prisões políticas, no decurso das quais muitos angolanos não mais regressavam. "Undengue Uami” retrata alguns aspectos da sua infância, as brincadeiras, os conselhos dos pais preocupados com a educação dos filhos e a preparação para o futuro. Já em "Canto Evocativo”, figuras históricas do nosso cenário artístico, assim como outras no âmbito da vivência social, são evocadas.

E do conjunto de espécies vegetais autóctones são lembradas algumas, com maior destaque para a Mafumeira, árvore que se supõe em extinção, mas que noutros tempos servia para a construção artesanal de utensílios domésticos e canoas para a pesca.

O disco "Mafumeira” abre com "Caminho do Mato”, célebre poema de Agostinho Neto musicalizado por Tonito e que teve interpretação de Belita Palma, além de um outro sucesso - "Palamé” -, que ganhou várias versões. "Tuila Ulungu”, "Kiukitukila”, "Malalanza”, "Mariazinha” e "Menino Triste” são outros temas que conformam o disco.

Aquando do lançamento do álbum "Mafumeira” Tonito disse à imprensa que a obra demorou a ser produzida por questões financeiras. Revelou ainda que incluiu no disco velhos sucessos pelo facto de muitos intérpretes terem feito o que ele considerava de "surripiamento” dos seus temas e para que não houvesse dúvida quanto à autoria dos mesmos.

"Quero ser um cidadão que goze em pleno dos seus direitos, quero apenas ter direitos e oportunidades em função das minhas competências e nada mais”, disse então.

 

O percurso artístico 

António Pascoal Fortunato nasceu a 6 de Junho de 1940, em São José de Icolo e Bengo, município de Kakulo-Kazongo.  O lado religioso o influenciou no canto e nas composições, sendo o coro da Igreja Metodista Unida uma escola, contando ainda com a influência de missionários americanos, a música clássica de Mozart, Beethoven e Bach, para citar os mestres.

Num texto produzido por Jomo Fortunato, Tonito confidenciou ao seu irmão o seguinte: "É um facto que a coexistência, depois, com outros compositores do meio artístico luandense, influenciou directa ou indirectamente, a formação da minha personalidade musical (…)”. 

Tonito fez parte, em 1959, como vocalista principal, dos "Kimbandas do Ritmo”, formação onde pontificaram Catarino Bárber, Mervil, Elias Bárber e Manuel Faria de Assis. Com José de Oliveira Fontes Pereira, Cirineu Bastos, Lindo da Popa, Quim de Morais e Bonga integrou a Escola de Semba.

Contava com dois singles, lançados em 1976, onde podemos encontrar vultos musicais da igualha de "Karipande”, "Grei de Ginga” e "Ngui Matekenu”, criados para o Teatro de História de Angola. Tonito reconheceu, em certa época, ter produzido canções que apodou de "panfletárias”. Aliás, de outro modo não podia ser, pois esteve em 1974 na génese do agrupamento ‘Kissangela’, referência da musica angolana de intervenção.

Foi ainda vocalista do célebre grupo musical Ngola Ritmos e escreveu canções em parceria com Liceu Vieira Dias, Euclides Fontes Pereira (Fontinhas) e Catarino Bárber, de que se destacam "Embaixador”, "Menino Triste” e "Trova ao Vento que Passa”. São da sua autoria as canções da trilha sonora da peça teatral "História de Angola”, de 1976.

Canções da sua autoria foram interpretadas por Eleutério Sanches ("Monangambé”), Trio Melodia ("Maria Sessá”), Sara Chaves ("Kurikutê”), Rui Mingas ("Marimbondo” e "Undenge Uami”), Belita Palma ("Monami Xico”), Carlitos Vieira Dias ("Nzala”), Dionísio Rocha ("Palamé”) e ainda por Bonga, Martinho da Vila, Dodó Miranda, MB Genius, Té Macedo e Carlos Lopes, entre outros.

Foi o grande homenageado da 14ª edição do Festival da Canção de Luanda promovido pela LAC, realizado a 23 de Setembro de 2011, sendo de sua autoria exclusiva as músicas que foram interpretadas pelos 10 concorrentes ao concurso.

Era um compositor de cariz antológico que fazia parte de uma plêiade de  músicos angolanos que, conceptualmente, construíram a visão da música moderna, sendo, por via disso, várias vezes referenciados por aqueles que partilharam momentos da sua carreira musical "como um dos mais inspirados compositores angolanos de sempre, pelo alcance metafórico e pela grandeza melódica das canções que criou, algumas das quais constituem clássicos do cancioneiro angolano”.

Nota: Texto apoiado num outro originariamente publicado no extinto semanário "A Capital” em Março de 2015.

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