Cultura

O bye bye do autor de “Trigo Limpo”

Analtino Santos

Jornalista

Uma frase lapidar de Carlos Timóteo serve para mostrar a grandiosidade deste senhor da nossa música: “Sabes que toquei com estes senhores da música nacional e a sensação é como se estivéssemos a comer um prato saboroso, tipo uma muamba de jinguba com kizaca?”.

21/11/2021  Última atualização 09H05
Carlos Timóteo © Fotografia por: DR
O artista deixou-nos depois de um ano doente. Carlos Timóteo fez o seu último grande concerto no dia 25 de Janeiro de 2020 e foi um dos gigantes que participou no Festival de Música Instrumental Angolana,  que aconteceu na Ilha de Luanda. Neste evento lançou o jovem Mattilson Bass, baixista talentoso com boa margem de progressão.


O artista, tal como muitos colegas da sua geração, também teve participação na luta pela Independência Nacional. E quis o destino que morresse dias depois da comemoração de mais um 11 de Novembro e antes da celebração do seu aniversário natalício a 28 deste mês. 


Músico de mão cheia, o talentoso guitarrista Calili é referência nacional, tendo participado nos mais variados agrupamentos musicais do país, como os Muzangola, FAPLA Povo, Jovens do Prenda e Os Kiezos. O que pouco ou nada se sabia era do seu lado militar: teve passagens pelos CIR Calunga e Sanga, onde se cruzou com jovens que hoje ocupam importantes cargos públicos, como João Lourenço, Bornito de Sousa e Alberto Neto.


O virtuosismo do Kota Calili, como era tratado pelos mais próximos, deixou marca em "Ilha Virgem”, "Adeus Solidão”, "Marica”, com o conjunto Os Jovens do Prenda; "Joana wa iaié” e "Ginginda” de António Paulino, "Kinito Oh Lóbela” de Kinito, "Eme ngui nguenje” de Kim Santos, "Kikola” de António Paulino, "Joana Mukua Di Fuba” de Robertinho, "Scânia 111” de Proletário, "Senhor Director” e "Ngalenga Kubata” de Pedrito e, claro, a sua grande marca "Trigo Limpo” com o Musangola.


Respigos de conversa publicada

 "A escola e os amigos levaram-me, mais tarde, também para o combate. Mas recordo-me muito bem que no dia 11 de Novembro de 1975 estive no Largo da Independência, depois de ter combatido nos dias 8 e 9 no Morro de Kahala, em Kifangondo”, disse o músico, numa das várias conversas que com ele tivemos, publicada neste caderno em 2019.


A história de Carlos Timóteo "Calili” começou a ser desenhada depois de o avô, um alto funcionário dos Caminhos-de-Ferro no tempo colonial, nascido no Nzeto, ter sido transferido para Benguela, onde gerou o seu progenitor. Como patriarca da família, por inerência de funções, viajava muito, mas fez o pouso em Luanda, cidade onde o filho conheceu uma mulher formosa.


Tal como muitos benguelenses, Luanda não o encantou e do mesmo modo a adaptação à capital, pelo que convenceu a companheira a ir viver para a cidade de São Filipe de Benguela, onde aos 28 de Novembro de 1954 nasceu Carlos Timóteo.

Kota Calili afirmava que a estrela da família era o seu tio Timóteo, com grandes dotes na guitarra e que era próximo a Duia. Era muito querido pela Ma Raça, mãe dos também artistas Vate Costa, Gregório Mulato e Carlos Lamartine, o que confirma que cresceu num meio envolvente cheio de manifestações artísticas.


A música já fervilhava no miúdo Carlitos Calili, mas o pai era muito exigente e estava preocupado com a sua formação. Foi no Liceu Salvador Correia que foi aumentando o gosto pela música.  
 
Outro catalisador foi o facto de se tornar próximo de Marito dos Kiezos, que aos 14 anos ofereceu-lhe a sua primeira guitarra. "Eu chamava a minha prima e acedia aos pedidos do Marito e ele dava-me uns toques de guitarra. Felizmente a minha prima veio a tornar-se esposa do Marito, que foi determinante na minha aprendizagem”, diria mais tarde Calili.


Nessa fase, apesar de viver em Luanda, nas férias Benguela era o destino e aí reencontrava os amigos Zeca Moreno, Beto Johnson e Leandro. Em Luanda fez parte de grupos infantis, como os Mini Kiezos e Mini Africa Show, com Marito e Teta Lando impulsionando os miúdos. Hildebrando Cunha, Dulce Trindade, Celino Bonzela e Zecax foram alguns dos kandengues que mais tarde se notabilizaram na música angolana.


Entre 1968-69, indicado por Marito, Calili entra para Os Águias Reais, onde encontrou o solista Ângelo Quental, irmão de Luís Visconde. Mas Carlos Timóteo "Calili” fica literalmente "afamado” nos Muzangola, onde ingressa em 1971 e cria o famoso "Trigo Limpo”.

Segundo recordou, este tema "arrasou” os amantes da música popular, porque quebrou os paradigmas da altura, em que os grandes protagonistas eram os solistas, em detrimento dos viola ritmo. "Na altura nós os miúdos iniciávamos nos solos, porque Marito, Zé Keno, Duia, Mário Fernandes, dentre outros, eram os grandes e na impossibilidade de tocar solos optávamos por outras guitarras”.


Na fase posterior da sua carreira ficou mais baixista que ritmista e teve a proeza de colocar linhas repetitivas no ritmo, cruzando com os solos de Mário Silva, Santo António na dikanza, o cabo-verdiano Fortes no baixo, Honorato Silva na voz e Matateu e Kavulanga nos tambores. Recordando com nostalgia "Trigo Limpo”, Calili realçou outros ritmistas, o Mingo que combinava muito bem com o Zé Keno nos Jovens do Prenda e mais tarde o Gino, quer nos Águias Reais quer no África Ritmo.


Calili reconheceu que nem deixaram a poeira do "Trigo Limpo” assentar e como estava com a cotação em alta, arrancou para Os Gingas, de Duia (solo), Laurindo (caixa e bongós), Inó Gonçalves do Grupo Kituxi ( tumbas) e Caculo Cabaça (voz).
Nessa formação toca um baixo de quatro cordas, uma oferta de Nelo Duarte, baixista dos Ganjos, grupo que tocava a chamada música moderna.


Os Jovens do Prenda ficam sem o seu baixista, Cangongo, que em 1972 vai cumprir o serviço militar e o promissor Calili passa a pertencer à formação e lá encontra Zé Keno (solo), Chico Montenegro (bongós e caixas), Verrynacio (solo), Didi da Mãe Preta (tarola) e António do Fumo (dikanza).


Uma particularidade que encontrou é que todos cantavam. Com os Jovitos participou em trabalhos discográficos de Pedrito, António Paulino, Quim dos Santos, Kinito, dentre outros artistas individuais. 


Espírito revolucionário

"Vem o 25 de Abril que traz o despertar do sentido de liberdade e de certa forma populariza o espírito revolucionário. Nesta fase eu e o Didi da Mãe Preta vivíamos no Rangel e estávamos numa célula e às escondidas ouvíamos o Angola Combatente”, contou Calili. Depois abandonou o colega Didi da Mãe Preta e partiu para Brazzaville para juntar-se à causa revolucionária nas hostes do MPLA, fruto do forte poder de mobilização do Angola Combatente.


O então guerrilheiro lá nas matas de Cabinda, onde enfrentava os mirins que picavam, não pegava apenas em armas, nos momentos lúdicos a música voltava a fazer parte da sua vida. Já nas fogueiras do combatente a ideia da criação de um conjunto militar estava na forja.


Mais tarde foram fundamentais os camaradas António Van-Dúnem e "Nvunda”, dentre outros comandantes, na materialização do agrupamento FAPLA-Povo. Calili foi impreciso quanto a data 1974(5) da fundação, mas não quanto ao núcleo fundador: David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes, que naquele momento histórico faziam da música arma de combate. Hildebrando Cunha (solista), Dulce Trindade (ritmo), Mateus Gaspar (teclado), Babulu (bateria), Chico Montenegro (bongós), Habana Mayor (tumbas), Massy (saxofone), Nandinho, hoje Nanutu (clarinete), Gaby Monteiro, Mauro Nascimento, Camarada Bidon, Sa Mangolo, Robertinho, Proletário e, claro, Carlos Timóteo Calili no baixo fizeram parte do conjunto.


O grupo estava afecto à Direcção Política Nacional das FAPLA e Calili chegou a ser comissário político.
"Kinito, o homem que sabia misturar muito bem a nossa música com ritmos modernos e para que a música ao vivo não parasse. Carlitos Vieira Dias, o patrão dos baixistas, acho-o o melhor baixo, primeiro, na altura, com a viola de seis cordas, com o seu baixo dedilhado e mais tarde com quatro cordas.

Cangongo é outro senhor do baixo, criou uma linha melódica que se enquadra perfeitamente nas batucadas de Verry Inácio, nas harmonias de Zé Keno e no ritmo, aliás ritmeira de Mingo, pois era assim que nós, dos Jovens do Prenda, falávamos do resultado da execução do saudoso Mingo.


O Manuelito também era muito bom, gosto mais dele nos Águias Reais e não no Kissanguela, formação com um groove mais avançado. Pai Adão do África Ritmo foi outro grande baixista, tirava as duas cordas de baixo da guitarra, para tocar com as quatro cordas. Moreira Filho da Banda Maravilha também é muito bom e o Zeca Tirilene também é um grande baixista”, diria Calili.


Depois falou de uma nova geração de baixistas, realçando a técnica de Mayo Bass e Mias Galheta. Reconheceu que sendo os dois provenientes da Igreja Tocoísta, beberam muito do baixo da música desta religião. Carlitos Chiemba, segundo Calili, é outro grande senhor.


Carlos Timóteo "Calili” foi sepultado na manhã do dia 18 de Novembro e no período da noite foi lançado o livro e documentário "A Mística e Simbolismo dos Tambores de Joãozinho Morgado”. Nestas obras podemos ler depoimentos e ver Calili em palco em vários momentos na companhia de Joãozinho Morgado.


Calili destacou alguns tamboristas como Massano Júnior, Candinho, Julinho, Habana Mayor, e claro, Joãozinho Morgado, sobre o qual disse: "Ele é muito tecnicista e tem uma grande memória, olha que consegue tocar fielmente coisas que fez há mais de quarenta anos e é muito criativo”.


Outra coisa que poucos sabiam de Calili era a sua faceta de produtor. Saindo da sua área de conforto e caindo na onda Jazz apostava no jovem Dennis Samaya. 

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Cultura