Cultura

O bombó da arte não molhou

Matadi Makola

E essa proeza tem, exactamente, a assinatura de Yola Balanga, Toy Boy, Adriano Cangombe, Flávio Cardoso, Iris Chocolate, Indira Grandê, Jaliya the Bird e Kiluanji Kia Henda, Maria-Gracia Latedjou, Rui Magalhães, Indira Mateta, Mussunda N´zombo, Mwana Pwo, Pamina Sebastião, Thó Simões, Helena Uambembe e do colectivo Verkron.

22/08/2021  Última atualização 05H25
© Fotografia por: Vigas da Purificação | Edições Novembro
Com o frenesim habitual da Mutamba a esmorecer, pontualmente às 18h de quinta-feira, à porta do Hotel Globo a fila crescia. Dentre altas figuras do corpo diplomático destacado em Angola, com realce para a embaixadora dos Estados Unidos em Angola, e outros congéneres que não quiseram "ter falta” no dia da abertura. Laura Macedo, Orlando Sérgio e Miguel Hurts estavam no leme da organização, e eram eles que conduziam ou davam as orientações de como começar a explorar os dois pisos.


Casa repleta de memórias
O colectivo Verkron, na sua obra "Tumorrowland”, vídeo e instalação, destaca a condição de vivermos com uma insaciável ânsia do futuro e uma pesada carga de influência do passado. No quarto, atados de capim seco e uma estrutura de madeira onde se reflecte o vídeo, que roda sobre um texto "demolidor” que tece caminhos que nos conduzem a uma evidente estética do absurdo. "É sobre a falta do hoje”, sintetizou Hemac, um dos membros do colectivo, quando num dos quartos Helena Uambembe cabe numa casa onde radiografa a sua evolução como gente, onde se questiona sobre pertença e legitimidade de herança e memória, procurando encontrar-se "Por detrás da cortina”.


Na sua estreia no Fuckin´ Globo, com a obra "OGE” Adriano Cangombe toma como ponto de partida a fome e a pobreza extrema. Se num lado faz uma alusão ao antagonismo entre realidade e discurso político, no outro constrói um corpo com chapas de raios x. É um corpo consumido pela fome.


No quarto antecedente está Mussundo Nzombo, numa cadeira à "mwata”, de fato e gravata, sobre mais de meia tonelada de bombó, levando a cabo a performance "The Bombó Is Molhed”. O artista confidenciou que a indumentária se altera consoante os dias, encarnando "tipos” da nossa sociedade, ora um estudante, ora um pastor, e assim por diante. À primeira, ainda do ponto de vista alimentar, a performance nos lembra como este alimento foi o nosso pão ao mata-bicho, num tempo anterior ao presente.


Mussunda dá mordidelas no bombó, lê a bíblia ao contrário e de tempo em tempo pega no jarro de água para literalmente molhar o bombó.


Essa performance busca reflectir, detalhou o artista, sobre vários assuntos da nossa sociedade, como são os mediáticos casos de corrupção, pessoas que a sociedade, no seu linguajar popular, analisa como "bombó molhou”. A bíblia lida ao contrário é uma metáfora sobre a religião, questionando a reputação de certos membros dentro da sociedade.     


Em "Proibido”, Thó Simões monta um quarto onde inclui indicações sobre os constrangimentos nas instituições públicas, cujas regras, que imperam desde o tempo colonial, na maior parte delas estão descontextualizadas. "São regras que não têm nada a ver com a nossa cultura, costumes e geografias”, analisa. A obra como que, de alguma forma, principalmente nas indumentárias, conflitua com a nossa realidade cultural. Aviva casos que a pessoa vai tratar um documento e demora mais de 15 dias ou então sofre com a arrogância de quem atende ou por fim terá que "molhar” alguma coisa.


Sobre quebrar regras e tabus, Pamina Sebastião faz de si sua obra em "Demonstra”, levando-nos a novas percepções e entendimento das partes do corpo. Num quarto onde o visitante é convidado a fazer parte desta experiência, a artista continua na tese que dá corpo a trabalhos anteriores.

E se o corpo precisa de conforto e de irmanar sob calor, luz e energias, o ideal seria passar em Mwana Pwô, na sua obra "Guardiões”, onde ela tricota com uma delicadeza majestosa a teia dos sentimentos que as entrelaça em vida.

Do ser humano ingénuo, em "Ordinary Human Being”, instalação de Toy Boy, que assume o perfil ideal para ser apropriado pelo "Mayombola”, obra de Flávio Cardoso que aborda o mundo oculto que leva a obtenção de riqueza material, com certeza deve procurar a cura em "Retratos Sonoros”, de Maria Gracia-Latedjou, ou definitivamente entregar o seu corpo ao cuidado da Yola Balanga e encontrar emancipação no embalado de "O som das mortas”.


No enredo do sentido inverso do tempo, do tempo das coisas que andam para trás, Rui Magalhães cria "Pelo Poder”, quando Indira Grandê, na sua instalação "Cidade dos porquês”, sobre evolução ou regressão nos questiona: "saco plástico da fartura do supermercado ou lixo?”, nos levando a reflectir sobre os engodos da nossa suposta racional civilização urbana, e dessa forma de olhar a cidade Iris Chocolate ataca a rebelde constituição pictórica de Luanda, numa instalação onde os visitantes participam de modos diferentes ao terem contacto com as cores.


Kiluanje Kia Henda, numa instalação onde usa os livros como base e topo de extensores metálicos (instrumento usado nas obras), nos sacode da hipnose do culto ao betão, nos despertando abruptamente sob a voz ressoante de Jaliya The Bird, que conduz o "Poema da Ressurreição”, da ressurreição sensorial.       


Indira faz as "pazes” com a arte contemporânea num caixão vazio
Indira Mateta traz nesta edição do Fuckin´ Globo a instalação "Caixão Vazio”, bebendo da imaginação popular para recriar este mito urbano. Para além do vídeo onde encena o pânico numa das escolas de Luanda em (Njinga Mbande), há igualmente a esquadria de um caixão vazio no meio do quarto, como símbolo de desmistificação do mito, cuja sombra se reflecte no vídeo.

A trajectória profissional dessa artista foi incluída na agenda de debates organizados pela produção do Fuckin´ Globo durante o período de residência artística no hotel. Inicialmente, Indira se envolve no foto-jornalismo por influência do pai, Paulo Mateta, um jornalista de reconhecida tarimba. O seu nome vem à tona ao vencer o concurso BESAFOTO, edição 2008, onde desinteressadamente se inscrevera mais por insistência do pai. 


Desde esse período que a fotografia se tornou uma prioridade na sua vida, sendo requisitada para cobertura de eventos sociais, desviando-se assim do circuito da arte contemporânea.


Indira não é obessiva com o tempo. Detalhadamente, o tempo que leva para desenvolver um trabalho fotográfico de conceito varia. Por exemplo, levou a cabo um trabalho sobre a crença Kianda, que levou perto de cinco meses. Igualmente realizou um trabalho sobre o estado emocional das crianças na pandemia, que por sua vez  levou duas semanas a realizar. Entretanto, assume haver momentos de maior pressão no seu trabalho quando se encontra num contexto de residência artística, como é agora na sétima edição do Fuckin’ Globo.

Quanto a temáticas, prefere desenvolver trabalhos ligados à ancestralidade, na área espiritual, mental e emocional. Porém, o activismo social e um pouco de tudo que tenha a ver com África também lhe interessam.


Indira diz não desenvolver uma relação de apego com a máquina, nem um pouco mais ou menos. De forma geral, descreve-se como uma pessoa desapegada, algo que construiu conscientemente.
"Então sou cada vez menos apegada às coisas materiais e até mesmo às pessoas”, diz.


Dentre as características, a rebeldia é uma das que a identifica. "Rebelde sim. Sempre. Não consigo evitar, é mais forte do que eu”, confessa.


Destrinça que não se trata de procurar expressar essa rebeldia com a fotografia, tratando-se antes de ser uma caracteristaca sua, no gozo, naturalmente, de viver em quase permanente rebeldia, mas, alerta, "sempre no bom sentido”.
"No sentido de não aceitar o que eu considere como injusto ou agressivo, tanto que é essa liberdade que me atrai no Fuckin´ Goblo”, destaca. 


Para si, fazer parte desta edição do Fuckin´ Globo marca uma fase de reencontro com a arte contemporânea, cuja relação inicia numa visita inusitada à Trienal de Luanda, onde começa a tomar contacto com a arte contemporânea e assim ambiciona fotografar mais do que registos de família. Antes, é convidada a participar na exposição "Portas Abertas”, realizada pelo colectivo "Os Nacionalistas” no salão da UNAP, em 2006, que assinala o seu baptismo oficial nessas lides.

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