Opinião

O BNA e a nova política

O Banco Nacional de Angola anunciou terça-feira novas medidas de apoio à produção interna que, com certeza, inauguram uma nova forma de o sistema financeiro se posicionar face ao sector produtivo e responder a um conjunto de reclamações que, faz algum tempo, vinham sendo feitas sobre a política creditícia que era seguida.

05/04/2019  Última atualização 09H37

A decisão, em particular, de os bancos afectarem, a partir deste ano, dois por cento do valor total do activo registado no seu balanço de 2018 ao crédito ao sector produtivo, acompanhada da fixação de uma taxa de juro inferior ou igual a 7,5 por cento ao ano, incluindo todas as comissões, era das medidas mais esperadas, tendo em conta o compromisso de diversificar a economia, que, mais do que mera retórica, exige que acções concretas sejam realizadas.
Escusado será dizer que são severas as críticas feitas ao sistema financeiro angolano pelo papel jogado, no passado recente, no apoio ao desenvolvimento da economia real. Desde as taxas de juro escandalosas aos negócios cambiais que proporcionaram a canalização para o mercado informal de largas somas de dinheiro, passando pelos créditos não reembolsados e que determinaram praticamente a falência de algumas instituições, há elementos suficientes para se reclamar deste novo ciclo político um sistema financeiro mais consentâneo com aquilo que são os seus reais propósitos: pôr a economia em marcha e desbravar os caminhos da diversificação.
A existência da banca comercial não pode resumir-se à compra dos títulos de tesouro e ao negócio cambial como principais operações financeiras, complementadas com uma carteira de crédito ao consumo privado que também inibe quem dele precisa, face às taxas de juro que considera serem especulativas.
No actual contexto do país, em que é preciso apostar forte no desenvolvimento do sector produtivo, é um absurdo de todo o tamanho querer tratar da mesma forma a procura de investimentos para o sector agro-pecuário e o crédito ao consumo privado.
Os argumentos avançados pelo sector bancário para justificar uma política de retracção, baseada no facto de que muitas empresas não têm a sua contabilidade organizada, não nos devem levar a cair na inércia. Cruzar os braços não é solução.
Se, por um lado, as empresas devem cuidar de ter as contas organizadas, por outro, se não as têm, devem as associações empresariais preocupar-se em dotar os seus membros das ferramentas necessárias para que as tenham. O Estado, por seu turno, enquanto ente interessado em que os agentes económicos estejam devidamente enquadrados na actividade económica e comercial, deve procurar prover esses actores dos instrumentos necessários para que estejam em condições de desempenhar o seu papel de forma acertada. Simplesmente porque, se cem empresas não tiverem a contabilidade organizada, serão cem empresas a correr sérios riscos na manutenção da sua actividade, serão igualmente cem empresas que poderão fechar as portas e colocar pessoas no desemprego, serão ainda cem empresas cujos impostos farão falta ao Estado. Portanto, cem empresas cuja subsistência poderia estar garantida com recurso ao crédito agora em condições mais favoráveis, uma vez que a taxa de juro reduziu de 26 para 7,5 por cento ao ano. Valor que, é preciso frisar, é inferior em mais de 50 por cento à taxa de juro oficial do Banco Nacional de Angola, que é de 15,75 por cento.
Tão importante quanto as medidas agora tomadas, é acompanhar os passos que o tomador do crédito vai dar para transformar os recursos financeiros obtidos em ganhos para a sua actividade. O tempo de pedir empréstimos para comprar carros de luxo, satisfazer caprichos e ir arranjando desculpas para não honrar os compromissos assumidos perdeu-se na voragem dos acontecimentos, cuja realidade está a encarregar-se de mostrar quão errada foi a opção feita.
Se o caminho dos gastos supérfluos é totalmente desaconselhável, também o é a falta de prudência na hora da aquisição dos meios técnicos indispensáveis à prossecução da actividade empresarial, quando se sabe que uma boa informação em relação ao mercado, à comparação de preços e da qualidade do produto a adquirir, às especificações técnicas, aos prazos de entrega e outros detalhes são importantes para assegurar que o material é o apropriado para a produção. Falhas neste aspecto e na gestão dos recursos humanos podem comprometer toda a actividade. Fechar o ciclo do negócio é imprescindível, também, para ter o retorno do investimento feito.
Dos intermediários financeiros bancários o que se espera é que tenham criatividade suficiente para lançar no mercado novos produtos financeiros, capazes de contribuírem para o aumento do consumo, da produção e do emprego. Afinal é também esse o papel da banca, o de impulsionar a economia.

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