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“O Armagedão passou pela Beira”

Quem anda pelas ruas da cidade da Beira, província de Sofala, centro de Moçambique, dificilmente fica indiferente ao rasto de destruição deixado pelo ciclone “Idai”.

29/03/2019  Última atualização 18H24
DR

A população, mal refeita do susto, tenta aos poucos retomar a vida normal, mas não tem sido fácil. “Idai” devastou tudo o que encontrou pela frente.

A reportagem do Jornal de Angola percorreu vários bairros da Beira e constatou “in loco” a desgraça de um povo e um lugar que perderam tudo que tinham.
“Nunca vi nada assim. Parecia o fim do mundo. O ‘Armagedão’ passou pela Beira”, recorda Nelson Francisco Huo, taxista da cidade da Beira, que viu a casa e todos os seus haveres a serem levados pelo “Idai”.
“Até um contentor de 40 pés cheio de sacos de cimento nao resistiu. Foi levado”, lembra o taxista, que, sob altas temperaturas, que por estes dias se fazem sentir na Beira, mostra à reportagem deste jornal o que restou da sua casa, onde a sala praticamente desapareceu. “Tudo se foi”, lamenta o homem, que agora luta para reconstruir o que foi destruído pelo desastre natural.
Sem luz e água há quase duas semanas, sobrevive com o que ganha pelo serviço de táxi. Por cada corrida, des-de o centro da cidade até ao Aeroporto Internacional da Beira, único local de onde é possível estar conectado com o resto do mundo, por Internet e telefonia móvel, mas com imensas dificuldades, cobra mil meticais (cada nota de 100 dólares equivale a 6.400 meticais).
O ciclone “Idai” ocorreu a 14 de Março. Contam vítimas que, neste dia, quando eram sensivelmente 19 horas (18 em Angola) a Beira começou a ser devastada. A primeira tempestade durou cerca de cinco horas, isto é, das 19 às 23, com ventos a atingirem os 120 quilómetros por hora. A segunda, a mais devastadora e acompanhada de chuva, ocorreu da meia-noite a uma da manhã. Em 60 minutos, a Beira inundou. A população, na sua maioria das etnias Mandau e Sena, ficou sem energia eléctrica, telefonia móvel, combustível e Internet por vários dias.
“Idai” entrou pela cidade vindo do distrito de Búzi, localidade onde centenas de pessoas continuam desaparecidas, isoladas e que apenas há quatro dias começou a receber ajuda alimentar. Beira foi cortada de ponta a ponta, com rajadas de vento de mais de 250 quilómetros por hora, a deixarem um rasto de destruição e dor nunca visto.
O bairro da Praia Nova de-sapareceu por completo. As casas de construçao precária não resistiram ao temporal. As águas do Oceano Índico avançaram pela cidade. Árvores foram arrancadas pela raiz. Milhares de casas ficaram total ou parcialmente sem tecto, entre as quais a do governador da Beira, que, por estes dias, permanece no Aeroporto In-ternacional, local onde vê chegar a ajuda humanitária vinda de vários países do mundo, com destaque para Angola. Daqui, sai quase sempre um avião IL-130 da Força Aérea Nacional, carregado de bens diversos, entre alimentação e medicamentos para os sinistrados.
A rede de energia eléctrica aos poucos está a ser restabelecida, mas alguns bairros da cidade ainda sofrem com falta de energia desde a passagem do “Idai”. Huo conta que os dias que se seguiram à intempérie foram de isolamento total. Sem telefone, Internet e dinheiro, os únicos contactos que mantinha eram com vizinhos, que, apoiados por vários camiões de empresas privadas, limpam as ruas obstruídas por árvores.

Mais de 40 mil desabrigados no Dondo

Ao ler as placas indicativas e ouvir pronunciar a palavra “Dondo”, o nosso pensamento remete-nos à pequena vila sede do município de Cambambe, província do Cuanza-Norte. Mas não. Trata-se de um distrito com o mesmo nome, na província de Sofala, em Moçambique.
Neste distrito, localizado a cerca de 30 quilómetros da cidade da Beira, o ciclone “Idai” deixou mais de 49 mil pessoas sem abrigo, 42 morreram e 127 ficaram feridas, entre elas cinco em estado grave, transferidas para o Hospital Central da Beira.
A administradora do distrito do Dondo, Graça Júlia Correia, disse terem sido criados 28 centros de acomodação, sendo dez na sede distrital, sete em Mafandisse e os restantes no Posto Administrativo de Savane, onde gran-de parte da população vivia em casas de construção precária, devastadas pelo vento e pelas chuvas.
Na sede do distrito, o Centro de Saúde foi severamente afectado e, na localidade de Mutua, a unidade sanitária desabou, estando, neste momento, as comunidades a receberem assistência médica nas tendas montadas pelo Contingente Angolano da Missão de Ajuda Humanitária a Moçambique.
“No povoado de Chissange, interior de Mutua, o Centro de Saúde também desabou e a assistência hospitalar está a ser garantida em tendas”, disse.
Grande parte da população está reassentada em escolas e igrejas. O plano do Governo moçambicano prevê a retirada da população das escolas, para quatro centros de acolhimento que estão a ser criados, no sentido de garantir o normal funcionamento do sistema de educação.
Na sede do distrito já começaram a ser montadas as tendas para acomodar a população nos centros de acolhimento. Apesar disso, alguns dos sinistrados, com o apoio das autoridades, estão a preferir reconstruir as suas casas, para retomarem a vida.

Nova Sofala recebe  ajuda alimentar

Duas semanas depois da passagem do ciclone “Idai” pelo centro de Moçambique, principalmente na cidade da Beira, Sofala, mais pessoas, anteriormente isoladas, começam a receber ajuda humanitária. Ontem, os helicópteros da Força Aérea Nacional levaram toneladas de bens alimentares e assistência médica e medicamentosa às populações da localidade de Nova Sofala, distrito de Búzi.
Inseridos nas equipas de ajuda humanitária coordenadas pelas Nações Unidas, os helicópteros da Força Aé-rea Nacional também levaram uma brigada composta por nove técnicos de saúde moçambicanos e sul-africanos, que prestaram assistência médica a centenas de pessoas e detectaram dezenas de casos de malária, doenças diarreicas agudas e do foro respiratório.
O médico geral Fernando Chivale, das Forças Armadas de Defesa de Moçambique, disse que a maior parte dos casos de malária foi detectada em crianças, enquanto as doenças de foro respiratório em adultos.

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