Opinião

O anjo com as pedras na mão

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

A estrada que atravessa o bairro da Samba, em algumas zonas, é larga: naquele dia, nos seus três carris, os carros estavam parados, tão juntos e uns atrás de outros como se fossem segmentos de várias centopeias multiformes, a repousar sobre o asfalto a brilhar.

17/05/2022  Última atualização 12H45

Ainda não eram dez horas da manhã, mas já fazia um Sol ardente daqueles que fazem sentir náuseas, transpirar por todos os poros ou a cabeça a girar. Quem estivesse dentro do carro estaria a ouvir música ou as notícias dessa hora e com o ar-condicionado a funcionar poderia até pensar que estava num cacimbo só seu.

Fora dos carros havia outra vida e o cacimbo para todos já começou. Numa sexta-feira, em vésperas de fim de semana, era fácil notar que a lufa-lufa tinha tomado conta da vida das pessoas: via-se a mais velha como o lenço na cabeça a abanar o fogo para tanto assar banana e torrar ginguba como para afugentar as moscas, um jovem musculado a empurrar o carrinho com três bidões amarelos de água e o polícia entretido a chupar um gelado que se derretia mais rápido do que ele gostaria, enquanto reparava, de cima à baixo, na moça que gingava recalçando os chinelos em cada passo.

Sentado dentro do carro, com as mãos ao volante, eu estava longe daquele mundanal ruído e via tudo: contrastando com o tráfico imobilizado, os vendedores de rua passavam de uma viatura à outra levantando as mãos ou os braços em que penduravam os produtos que ofereciam, aproximando-os às janelas, aos que não tinham outra opção que se resignar ao engarrafamento rijo.

Com os carros alí entalados não havia margem para piruetas. As viaturas avançavam como se estivessem sonolentas, andavam e paravam. Num destes momentos em que tudo estava estático, sem brisa nenhuma e parecia nada acontecer, ele chegou e disse ao mesmo tempo em que batia insistentemente no vidro do carro: "quero pão”.

Ninguém esperava que ali aparecesse nenhum anjo, nem nenhum demónio, mas ele apareceu.

Olhei imediatamente para ele.E, depois, pensei: "de certeza este anjo não tem nem doze anos de idade”. Como se ele se tivesse apercebido, os nossos olhares entrecruzaram por um breve instante. Desde o conforto e o privilégio olhamo-los de esguelha sem nos fixarmos muito no facto de estarem sujos e a cheirarem mal, nem damos importância ao facto de eles estarem nus: essa é uma evidência que nos incomoda, porque faz-nos sentir culpados.

Eles já sabem disso. Quando ainda não estão tomados pelo desespero,mantém-se a certa distância.Não era isso que o anjo queria. O meu olhar fixou-se de novo nele, para reparar-lhe bem, enquanto ele deixou de olhar para mim, mas, começou a repetir de um modo circular: "quero pão, quero pão, quero pão” e acto seguido disse: "se não me deres pão, eu vou partir os vidros do carro, vás ver só”.

Estavamos imobilizado no engarrafamento, ninguém poderia sair do lugar às pressas. Consciente disso, mesmo quando o carro começou a andar muito lentamente, eu baixei o vidro e disse-lhe: "Só poderei te dar aquilo que tenho e neste momento eu aqui não tenho pão aqui”.

Ele reagiu com o mesmo pensamento circular e foi logo à berma da estrada a busca dos pedregulhos como se estes já estivessem aí, a espera dele. Já com as pedras na mão e correndo foi-se pondo a uma distância para atirá-las e eu instintivamente disse-lhe: "vem vou dar-te umas moedas”. Ele baixou os braços, agarrou bem, com a palma das mãos, as pedras que não caberiam em fisga nenhuma e chegou-se ao carro.

Eu voltei a baixar os vidros e dei-lhe duzentos kwanzas. Ele suspirou relaxado e contente por ter ganhado a disputa: pelos meus olhos, ele sentiu o cheiro do medo e do suor que corria debaixo das minhas axilas. A aflição me atravessava inteiro, de cabeça aos pés ficando sem saber se ele era mesmo um anjo ou um pequeno demónio com pedras nas mãos.

Intuo, apenas, que a noite ele dormirá como uma escolopendra lacraia enrolado num papelão, na berma da estrada da Samba.

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